Henrique Cazes

Ricardo Moreira

Produtor Musical

DeusaMúsica - Um olhar relativo sobre discos absolutos

Falso Brilhante
Elis Regina 1976

sexta, 12 de janeiro de 2018

Compartilhar:

Elis era mesmo uma visionária. No momento em que a MPB gravava seus discos e saía em turnê, o disco Falso Brilhante foi retirado do show homônimo estreado no ano anterior fazendo o caminho inverso. O espetáculo, com cenários de Naum Alves de Souza e direção musical de César Camargo Mariano para o qual Elis fez até aulas de expressão corporal, ficou 14 meses em cartaz em São Paulo com uma média de 1,5 mil pessoas/dia. Contemplado com o prêmio de Melhor Show pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, era de se esperar que o disco fosse um registro ao vivo, certo? Errado. “Falso Brilhante” é um álbum de estúdio onde figura parte do repertório de palco.

Nele, Elis pinça do esquecimento o ex-estudante de Medicina Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes depois deste vencer o IV Festival Universitário da Música Popular Brasileira em 1971 com “Na hora do almoço” e lançar um obscuro disco de estreia em 74. É de Belchior “Como nossos pais” - um hino-alerta que abre o disco contra a acomodação da juventude sob o risco constante de repetir os modelos paternos. Elis simplesmente tomou de assalto o inconsciente de um país assustado com sua própria incapacidade de renovação diante de todos os traumas acumulados por mais de 10 anos de autoritarismo. Com sua interpretação cheia de nuances baseada em violões, violas e guitarras e na bateria de gente grande de Nenê, Elis parece pisar nossos corações cheios de culpa, com todo mundo vestiu a carapuça para aplaudir a redentora catarse coletiva. O peso da guitarra distorcida é contrastada na faixa seguinte pelo rock-brilhantina de “Velha roupa colorida” - também de Belchior - que martela através do piano on fire da base o mesmo tema: juventude esmagada pelo paradoxo conservadorismo versus rebeldia na relação vertical entre pai e filho. As duas canções abrem o disco não só por suas mensagens praticamente complementares, com o vigor consecutivo de suas interpretações ficou mais fácil arrombar a porta de sua gravadora para que Belchior gravasse ali seu segundo LP e arrebentasse nas paradas com “Apenas um rapaz latino-americano”, “A palo seco” e “Alucinação” que dá nome ao disco do mesmo ano do cearense falecido em 2017.

“Los hermanos” é uma linda canção por la unidad latino-americana. Separados pelo idioma colonizador, mas massacrados pela mesma bota autoritária dos regimes ditatoriais, os povos da América espanhola seguiam separados dos brasileiros no momento em que mais unidos precisariam estar. Vinda de um artista brasileiro, a regravação ganha terreno para a mensagem fraterna. Com sua interpretação impecável em dramaticidade e dicção, Elis consegue despertar em chama única a auto-estima latino-americana no coração de seus compatriotas.  Ao somar-se a majestosa interpretação original de Mercedes Sosa ao grandioso registro na voz de Elis de “Falso brilhante”, a frase célebre “Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar” da canção do argentino Héctor Roberto Chavero - cujo pseudônimo era Atahualpa Yupanqui em homenagem dupla aos últimos imperadores Incas -, ecoa agora de norte a sul como um bálsamo sobre o sofrido continente. 

A mesma ponte é erguida com “Gracias a la vida” da chilena Violeta Parra, un poco más adelante. A compositora e artista plástica suicidara-se em 1967 deixando um legado importante no cancioneiro que embalou, pelas raízes folclóricas, populares e nacionalistas, a luta pela liberdade no continente oprimido. Coincidência ou um plano do “alto comissariado” da MPB, no mesmo ano Milton Nascimento e a nuestra madre argentina, Mercedes Sosa, fariam um dueto divinal em outro clássico de Violeta, “Volver a los 17”, num ano em que nunca estivemos tão próximos de los hermanos.

Depois do poeta Vinicius de Moraes e do Maestro Tom Jobim que sempre estiveram presentes em sua obra de intérprete ao lado de variados parceiros, a ponte aérea exótica feita através da composição entre o melodista e violonista mineiro João Bosco e o carioca da gema, letrista e vascaíno fanático, Aldir Blanc, é disparada a parceria mais gravada por Elis. Nada menos do que 20 obras dos dois receberam leituras definitivas da cantora gaúcha no curto período de pouco mais de 15 anos de carreira madura no mundo do disco. Excetuando-se LPs ao vivo e projetos, Elis mantinha uma média de quase duas canções da dupla por álbum lançado. Uma afinidade definitiva que em “Falso Brilhante” começa pelo nome do disco retirado do sucesso “Dois pra lá, dois pra cá” de 1974: “... no dedo um falso brilhante, brincos iguais ao colar e a ponte de um torturante band-aid no calcanhar...” e se confirma com a presença de três obras da grife Bosco & Blanc.

Nas três, através de diferentes discursos indiretos para driblar a censura, a Ditadura é malhada como Judas no Sábado de Aleluia. A primeira, “Um por todos”, vale-se da máxima mosqueteira para evidenciar a solidão do herói suspeito forjado pela necessidade de sobreviver. Em seguida, é difícil entender como “Jardim de infância” não fora vítima da tesoura dos “dedicados” censores. Toda a letra faz claras alusões metafóricas ao pavor e à tortura nos porões da Ditadura. O rock disfarçado por tintas emepebistas, ainda vira seu palanque para a sociedade que, depois de 12 anos de totalitarismo, deixara-se anestesiar pela indiferença em relação a toda aquela violência.

Mas resta uma esperança na belíssima “O cavaleiro e os moinhos”. A triste figura de Don Quixote é transportada para os trópicos como um exemplo de fé cega a seguir. O belo poema de Aldir sobre a climática melodia de João, forja na esperança o aço da espada para varrer os anos de chumbo das encruzilhadas brasileiras.

A valsa “Fascinação (Fascination)”, versionada pelo ator, compositor e radialista Armando Louzada, fora gravada originalmente em 1943 por Carlos Galhardo – dois anos antes do nascimento de uma certa menininha estrábica em Porto Alegre da qual tratamos. A Rádio Nacional trataria de plasmar na memória mais remota da menina Elis o registro original e a cantora, com 28 anos, faria o mesmo com o resto do Brasil na soberba regravação que invadiria os lares do país na abertura da novela “Casarão”. Na tela da TV Globo, o grande ator Paulo Gracindo e seu filho Gracindo Junior viviam, ambos, o pintor João Maciel numa bela história de amor bordada por mergulhos entre passado e presente na mesma viagem nostálgica por onde a canção nos guia.

Com ecos de rock rural, a faixa “Quero” serve como um oásis depois do peso da descompostura passada pela canção anterior, “Jardim de infância”. Thomas Roth, seu autor, comporia uma dupla artística com Lulu Guedes no começo dos anos 80 sem conseguir reconhecimento, mas com muito boas composições, como é o caso de “Canção de verão” gravada pelo grupo Roupa Nova em seu disco de estreia em 1981.

Um dos momentos mais fortes de “Falso brilhante” é “Tatuagem”. A canção de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra integrava a trilha do censuradíssimo musical “Calabar” elaborado entre 72 e 73. Como toda a obra de Chico Buarque dedicada para teatro ou cinema, qualquer canção desse escaninho tem brilho independente do contexto para onde fora criada e Elis sabe nos arrastar para o universo da fêmea que pende entre subjugada e dominadora marcando a ferro, a fogo e a frio a carne-viva de nossa frágil estrutura emocional diante de tanto drama e beleza. Uma obra-prima da interpretação que desce o pano sobre um disco de uma grandeza avassaladora.

Depois de “Falso brilhante”, Elis ainda estaria conosco por pouco mais de cinco anos que nos deram direito a mais seis discos antes que sua morte repentina em 19 de janeiro de 1982 por ingestão letal de álcool e cocaína impactasse o país. A maior cantora brasileira de sua geração, talvez de todos os tempos, foi sepultada vestindo uma camiseta que fora proibida de usar em 1980 no espetáculo “Saudade do Brasil” onde seu nome figurava no lugar do positivista “Ordem e Progresso”. Como que em resposta à proibição estúpida do estado ditador, a saudade de um Brasil inteiro ganhou as ruas de São Paulo para se despedir de Elis e mostrar que era exatamente lá onde queria guardar sua estrela, no coração da Pátria.

Comentários

Tem uma sugestão de pauta?