Henrique Cazes

André Diniz

Historiador

A música popular na república

A Era Vargas: o golpe de 37
“A menina Presidência”

sexta, 01 de dezembro de 2017

O Presidente Getúlio Vargas gostou tanto do poder que passou a olhar o futuro inspirado no nazifascismo europeu. As nuvens escuras da ditadura sobrevoavam a capital da República. Em 1937, uma marchinha de Antonio Nássara e Cristóvão Alencar, brincava com os vaivéns da campanha eleitoral, talvez já antevendo a dificuldade de ela ocorrer, como previa a Constituição de 1934. No momento em que “A menina Presidência” foi gravada, duas candidaturas pareciam destinadas a polarizar a disputa: a do paulista Armando de Sales, “Seu Manduca” (pela oposição), e a do gaúcho Osvaldo Aranha, “seu Vavá” (pelo governo): 

A menina Presidência
Vai rifar seu coração,
E já tem três pretendentes, 
Todos três, chapéu na mão.
E quem será? 
O homem, quem será? 
Será Seu Manduca? 
Ou será Seu Vavá?
Entre esses dois
Meu coração balança,
Porque
Na hora H quem vai ficar
É seu Gegê
Agora todo mundo dá palpite,
Mas eu sei que no fim ninguém se explica.
É ligar, deixar como está,
Pra depois então se vê como é que fica.

O presidente Getúlio Vargas, “seu Gegê” da música, manipulou o processo eleitoral até esvaziar todas as candidaturas.  No final de setembro de 1937, foi denunciado pelo rádio o Plano Cohen, conspiração comunista para acabar com a democracia. O capitão Olímpio Mourão Filho (que ainda serviria bravamente ao golpe de 1964) estava por trás dessa conversa para boi dormir. Pronto: a deixa estava forjada. Em novembro de 1937, Vargas fechou o Congresso e outorgou uma nova Constituição. Talvez imaginando uma ameaça vermelha, o Departamento Nacional de Propaganda (DNP) censurou a marchinha “O diabo sem rabo”, de Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira: 

A minha fantasia de diabo
Só falta o rabo, só falta o rabo.
Eu vou botar um anúncio no jornal: 
“Precisa-se de um rabo pra brincar no carnaval.” 


Democrático mesmo no governo de Getúlio só o concurso musical organizado pelo próprio DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), no qual o público escolhia a música vencedora. Entretanto, o DIP foi criado em 1939 para divulgar a imagem de bom-moço do presidente e censurar quem fosse do contra. E o “Bonde de São Januário”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, entrou nos trilhos do Departamento de Imprensa e Propaganda: 

Quem trabalha é que tem razão, 
Eu digo e não tenho medo de errar. 
O bonde de São Januário,
Leva mais um otário,
Sou eu que vou trabalhar. 
Antigamente eu não tinha juízo,
Mas hoje eu penso melhor no futuro. 
Graças a Deus sou feliz, vivo muito bem. 
A boemia não dá camisa a ninguém… 

Na versão registrada em disco, otário já cedia lugar a operário. Para alguns, a mudança era fruto do puxão de orelha do DIP. Mas, prestando atenção à letra, vê-se que é provável também que ela tenha sido encomendada pelo governo varguista. Toda a lógica dos versos caminha na direção de “ter juízo”, “garantir o futuro” do trabalhador. Quem sabe os meninos não estavam precisando de uma graninha? E também não seria de bom-tom encarar uma polícia comandada por Filinto Muller... Ganhar uns trocados e se defender deveriam mesmo ser os propósitos da dupla, já que antes da polêmica de “O bonde de São Januário” fizeram “Ó, seu Oscar”, música lançada sabe onde? Na Noite da Música Popular, evento produzido pelo DIP: 

Cheguei cansado do trabalho, 
Logo a vizinha me falou:– 
Ó, seu Oscar,
Tá fazendo meia hora 
Que sua mulher foi embora 
E um bilhete deixou.
O bilhete assim dizia: 
“Não posso mais,
Eu quero é viver na orgia.” 


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