Henrique Cazes

Tárik de Souza

Jornalista e crítico musical

Supersônicas

“Acorde! Acorde! Acorde!”, a volta dos tempos hirsutos do Cólera

quarta, 11 de abril de 2018

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Um dos pilares do punk brasileiro, o paulista Cólera, às vésperas dos 40 anos (começou em 1979), dispara o primeiro disco de inéditas em 14 anos, e sem o mítico Redson, que morreu em 2011: “Acorde! Acorde! Acorde!” (EAEO).

“Ficamos muito tempo sem lançar nada por estarmos preocupados em fazer sons novos”, admite o baterista Pierre, irmão de Redson e único remanescente da formação inicial.

O baixista Val entrou no ano seguinte, e agora o grupo conta também com Wendell Barros, ex-roadie, que virou vocalista ainda sob as bênçãos de Redson, no show de 2011, “Punhos & vozes – rasgando no ar!”, que virou DVD. Já o guitarrista Fabio Belluci teve uma fita demo de sua banda produzida por Redson, em 2004. “Tínhamos 13 anos, e é surreal pensar que o um cara de uma banda consagrada pudesse produzir a gente. E ele produziu!”, regozija-se o titular da guitarra do Cólera desde 2014.

Três faixas em versões demo com Redson são incluídas como bônus, “Somos cromossomos” (“Pra onde eu vou correndo/ nem eu mesmo sei/ abre a porta e aumenta o som/ bípedes pensantes querem comunicação”), “Festa no Rio” (“escuto o som que vem lá do vizinho/ ninguém faz nada, não acontece nada/ eu vou explodir!”) e “Capacete vermelho” (“estou na cidade/ estou no metrô/ quando eu era ingênuo/ só fiz tolices”). Em “Turbulências”, o pique veloz de guitarras e vozes exaltadas tem a metaleira de Felippe Pipeta (trompete), Victor Fão (trombone) e Bio Bonato (sax). Nas letras afiadas, criticas ao sistemão, como no furioso “Décimo terceiro”: “Tão tosco igual a você/ que só quer comprar/ não tem gosto, paixão ou prazer/ ostenta o que não pode ter”. E de “Creation”: “Sempre tem alguém usando alguém/ então inventa, experimenta e tenta quebrar”.

O disco ainda traz uma ópera punk de cinco faixas agrupadas. É a “Ópera do Caos”, conceito desenvolvido por Redson nos temas “Gamble” (“a história de um ditador, métodos para ascender ao poder e artifícios de manipulação para alcançar os objetivos”), “Mezza Mezza” (“uma pessoa em busca do autoconhecimento descobre que a ação não se limita ao plano físico”), “Fá Do Lá” (“a sabedoria e discernimento são como uma máscara de gás para sobreviver ao desespero imposto pelas bombas da mídia”), “Caos” (“apogeu da tirania, que flagra milhões de pessoas reféns de um homem e um botão”) e “Hino”, que reporta à censura da ditadura, mas soa atual: “Ontem na avenida eu vi a movimentação/ em todos os pontos da cidade/ manifesto, subversão/ ao chegar o amanhecer/ estamos vivos e ao vivo”.

Acorde! Acorde! Acorde!” foi financiado pelos fãs, via Catarse, e produzido por João Noronha. 


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