Henrique Cazes

Ricardo Moreira

Produtor Musical

DeusaMúsica - Um olhar relativo sobre discos absolutos

Amoroso
João Gilberto 1977

quinta, 12 de abril de 2018

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Quase 20 anos-luz depois do big-bang  bossanovista, a nebulosa plasmada pela voz e o violão de João Gilberto conceberia mais uma estrela. Amoroso, seu nono disco, foi lançado em 1977.  Como um criador que não reconhece a criatura, João diria décadas à frente que sempre fizera samba and the kid is not my son. Mas, o que mais poderíamos esperar de um gênio que em 1958 já apontara cantando “Chega de saudade”? João Gilberto criara a Bossa Nova ali, já meio que de costas para ela e nenhuma saudade, responsabilidade ou culpa o aprisionaria a essa criatura. Amoroso é mais uma prova material dessa tese, por isso, ainda que classificado nas prateleiras como item do estilo, o álbum não se localiza ao lado, acima ou abaixo do gênero. Talvez apenas tenha surgido através, no sentido mais transgressor da palavra ou, quem sabe, apesar da Bossa Nova - se constatarmos a massacrante expectativa mundial que ronda os projetos sempre bissextos de JG.

Reputado por muitos como o melhor disco brasileiro de todos os tempos, a rigor ele é um dos mais internacionais deles. Gravado na América para a Warner, arranjado por mãos alemãs, tocado por cordas, teclas e baquetas estrangeiras, o disco é praticamente patrimônio imaterial da ONU com representantes de quatro diferentes idiomas até, e, principalmente no repertório. Não fosse pela voz e pelo violão de João, o disco seria quase um produto 100% gringo. De fato, o que aconteceu na prática das sessões de gravação dirigidas pela lenda produtora de lendas, Tommy Lipuma, é que novamente a sofisticada simplicidade copacabanânica do mestre transmutou Gershwins, Martinos e Velasquez em Zé Cariocas surfando acordes dissonantes a serviço da música sem fronteiras de João.

Por um quadro grave e já folclórico de obsessão pela excelência plena em sua expressão, o artista que gravou este LP e outros álbuns perfeitos, repreendeu plateias em cena aberta, passou pito de viva voz em casas de show, técnicos de som e em tudo mais que não fosse a si próprio quando percebia sua música constrangida pela incompetência ou falta de sensibilidade ao refinamento de sua arte. Por essa condição atávica de sua manifestação artística, João Gilberto acabou por conhecer profundamente a dor psíquica de não conseguir que as traquitanas eletroeletrônicas dos estúdios de gravação reproduzissem o som que pairava nos ouvidos internos de sua cabeça. O que já deve tê-lo levado mais de uma vez às raias da loucura, de fato, o levou até às varas dos tribunais para tentar aumentar o controle sobre os primeiros três tapes de propriedade da EMI onde está registrado o começo de sua revolução silenciosa.  

Fora do closet de personalidades que um ídolo acaba conseguindo ter álibis para vestir, o “verdadeiro” João Gilberto se manifesta no espectro áurico de nosso povo como espécie de contraparte de Roberto Carlos. Ambos, como a carta Rei do baralho, são a cara dual de um mesmo Brasil com sutis, mas basais diferenças na maneira com que instrumentam justamente o lado amoroso da alma brasileira expresso na canção. Essa sutileza, contudo, gera diferenças astronômicas no resultado de seus trabalhos proporcionando a um o mundo aberto à sua arte e a outro apenas uma referência localizada de cantor romântico. Somos mais Brasil para o mundo através de João.

E o mundo é mais brasileiro por seu intermédio. Na dúvida, escute a abertura do álbum: “‘S wonderful” dos irmãos Gershwin. JG parece caprichar no sotaque com a finalidade inadvertida de naturalizar brasileiros os americanos a ponto de praticamente entendermos o que é cantado sem dominarmos a língua mãe de Shakespeare. Ao mesmo tempo em que ficamos hipnotizados pela captação de sua voz que transforma até os estalidos palatais em linguagem, somos transportados para uma zona nirvânica onde um Buda ocidental degusta canções com antropofagia e apetite tropicalistas.

E nossa deidade segue thinking globaly and acting locally com “Estate” usando a bota italiana de Martino e Brighetti para chutar longe o palpite infeliz de que ele voltaria a cada disco mais americanizado. Não obstante, é realmente de impressionar sua habilidade de identificar parcelas de si próprio em fragmentos musicais dessemelhantes espalhados pelo planeta. Como o sol de um sistema, João magnetiza e converte corpos à sua órbita de ritmos e silêncios fazendo-os dançar ao seu redor.

Esse poder é exercido de maneira ainda mais clara em “Besame mucho” de Consuelo Velasquez. A mexicana compôs o bolero aos 15 anos sem imaginar que um dia ele se transformaria na música mais cantada em espanhol de todos os tempos. Não era para menos. A canção, além de ostentar referências gigantescas de sucesso como a do Trio Los Panchos e do quarteto Los Beatles, possui ainda uma releitura big band fenômeno de Ray Conniff que fez o mundo inteirinho dançar. Tudo isso junto contra um simples João de Juazeiro que parece mesmo ter nascido para apreciar desafios ou para simplesmente ignorá-los continuando firme a colocar seu nome na parceria de praticamente tudo em que põe sua voz e seu violão.

E pra explicar “Tim tim por tim tim”, ele relê a relíquia escondida de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques que, situada na terceira faixa, configura-se a primeira música brasileira a apontar na bolacha. Lançada originalmente em 1939 pelo grupo vocal Anjos do Inferno, o samba tem ingredientes com os quais JG gosta de temperar sua estética: letra percussiva cheia de palavras gostosas de dizer e melodia sincopada que não deixa de conceder espaço para alongar sílabas e manter a liberdade imprescindível para transgressão das barras que teimam em dividir compassos.       

Se escutássemos a um vinil, começaríamos aqui um lado duplamente “b” do disco. Isto porque a partir da quinta até a oitava faixa, o repertório é todo do brasileiro. Mais precisamente, daquele que tem Brasil até nome: Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Há nesse lado b duas canções separadas por uma década e parceiros diferentes: “Caminhos cruzados”, com Newton Mendonça, gravada por Sylvia Telles e Maysa em 1958 e, de dez anos depois, “Retrato em branco e preto” com o parceiro Chico Buarque que parece ter decidido letrar a instrumental “Zingaro” - lançada por Tom um ano antes em sua forma ainda sem palavras no LP A certain Mr. Jobim de 1967 pela mesma Warner de Amoroso.

A primeira é uma clássica canção de pianistas intuída pelo contato dos dedos nas teclas brancas e pretas. Já o branco e preto do retrato parece ter sido revelado ao violão a partir de uma variação harmônica intricada que torna sua melodia uma verdadeira armadilha para aventureiros. A interpretação de João Gilberto reina soberana sobre as duas formas e se em “Caminhos cruzados” ela flutua, em “Retrato em branco e preto”, se deixa mergulhar no drama noir da canção. O quarteto fantástico de canções do lado mais brasileiro de Amoroso se completa com duas nas quais Tom não lançou mão de “parceiros”, além de João Gilberto, neste caso específico de assinatura autoral performática.

Apesar de ter sido gravada pelo Brasil’66 de Sergio Mendes em seu álbum de afirmação nos EUA, Equinox, e de ostentar regravações importantes com a de Elis no disco com Tom que ganhou de presente de aniversário de contrato de sua gravadora, Triste é uma canção que parece de encomenda para JG. Não só pelo traçado melódico cheio de notas graves servindo de degraus para saltos mais altos, mas, pelo aspecto mântrico de seu tema que pede sempre um recomeço. Não dá vontade de parar de ouvir João Gilberto cantá-la e este, parecendo até de propósito, fez dela sua performance de menor duração no disco.

Vou te contar, “Wave” é um caso, parágrafo e fenômeno à parte. Poucas vezes se ouvirá na história da música do planeta um casamento tão feliz entre melodia, letra, arranjo e intérprete. State of art da capacidade do ser humano de criar belezas em conjunto, não há como sair da audição desta gravação sem ter a alma lavada pela onda que se ergue a cada compasso da obra prima. A faixa, single em Amoroso, teve um papel fundamental para a geração pós-bossa de brasileiros amantes de sua música que já haviam entronado João ao máximo como um respeitável mestre old-school, assimilá-lo como contemporâneo e válido entre seus vinis de Chicos e Caetanos. Tanto que três anos depois, a gravação integraria a trilha de uma novela global, Água Viva, erguendo uma nova onda de sucesso para João em seu próprio país e aquela sensação de que ele voltara, sem na verdade nunca ter ido, ao menos, de vez.

Intérprete atormentado pela perfeição que em seu mundo é mais perfeita e no nosso muitas vezes intangível, João acabou por se afastar mais do que deveria dos estúdios e seus últimos seis discos se deram ao longo de quase trinta anos. Em cinco deles repetiu, sem maiores preocupações estéticas ou em honrar o conjunto de sua obra de intérprete, o figurino protetor voz e violão. Destes cinco lançamentos, quatro são registros ao vivo de espetáculos bissextos na segurança desse formato acústico-minimalista. Em apenas um entre todos os seis, o também genial João de 1991, ousou renovar a moldura em torno de sua voz e de seu violão.

Econômica em ousadia e egoísta em doação e renovação de talento e conteúdo, a produção artística de João Gilberto esteve nas últimas décadas muito abaixo da necessidade de seus milhões de admiradores mundo afora. Tudo isso nos deixa ensimesmados a nos perguntar quais seriam as forças que ainda moveriam o mestre. Rezemos para que a Deusa Música esteja por trás de tudo e que retome urgentemente o comando. 

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