Música

DISCO 1: CONVITE À MÚSICA – MARISA COM MOACYR SILVA E SEU CONJUNTO

quinta, 10 de maio de 2018

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Nascido no dia 10 de maio de 1918, em Conselheiro Lafayette (Minas Gerais), o instrumentista e compositor Moacyr Silva aprendeu a tocar saxofone com professores anônimos de sua cidade natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 17 anos e fazia parte da banda do destacamento militar onde serviu o Exército. Moacyr tocou saxofone tenor em praticamente todas as suas gravações. E gravou de quase tudo – dos sambas de gafieira à Jovem Guarda. Embora não fosse músico da bossa nova, nem dos grandes improvisos, ainda que soubesse tocar tudo isso com competência, gostava de frequentar o Beco das Garrafas. Soube sintetizar as muitas tendências que confluíram para o Brasil e, em particular, para o Rio de Janeiro nas décadas de 1950 e 1960. Destacou-se como intérprete de standards brasileiros e americanos, que executava com extrema elegância e domínio técnico – sensualidade é uma palavra usada várias vezes para descrever o seu som.  E sabia fazer o saxofone dançar Colocou sua arte à serviço da indústria do disco, em títulos de ocasião, mas deixou interpretações excepcionais espalhadas por vários LPs. Além disso, foi um dos raros saxofonistas capazes de acompanhar cantores; sua extensa colaboração com Elizeth Cardoso contém aulas de como integrar saxofone e voz.

Moacyr Silva é um músico talentoso, tendo sua contribuição muito importante para a música brasileira como produtor de vários álbuns. Em comemoração ao seu centenário, trazemos 2 álbuns extraordinários de sua obra. Nesta primeira, acompanhando uma cantora apreciada por muitos amigos, Marisa Gata Mansa, em seu LP de estréia pela gravadora Copacabana em 1958. O texto abaixo foi extraído do LP CONVITE À MÚSICA Nº 1. Vamos ver:

Moacyr tocou saxofone tenor em praticamente todas as suas gravações. E gravou de quase tudo – dos sambas de gafieira à Jovem Guarda. Embora não fosse músico da bossa nova nem dos grandes improvisos, gostava de frequentar o Beco das Garrafas e mas soube sintetizar as muitas tendências que confluíram para o Brasil e, em particular, para o Rio de Janeiro nas décadas de 1950 e 1960. Destacou-se como intérprete de standards brasileiros e americanos, que executava com extrema elegância e domínio técnico – sensualidade é uma palavra usada várias vezes para descrever o seu som.  E sabia fazer o saxofone dançar Colocou sua arte à serviço da indústria do disco, em títulos de ocasião, mas deixou interpretações excepcionais espalhadas por vários LPs.

Além disso, foi um dos raros saxofonistas capazes de acompanhar cantores; sua extensa colaboração com Elizeth Cardoso contém aulas de como integrar saxofone e voz.

Há quem afirme que as fábricas gravadoras, de um modo geral, estão se preocupando demais com música dançante. Não vejo nenhum mal nisso. Desde quando os discófilos prefiram adquirir gravações dançantes, é lógico que as fábricas as queiram produzir. O mal estaria em apresentar gravações descuidadas, onde a finalidade comercial nos parece clamorosa. Isso tem acontecido algumas vezes – raras vezes, felizmente. Atualmente, a indústria brasileira de discos está tomando um impulso elogiável e é fácil notar a preocupação constante de melhorar, de fazer coisa boa: a Arte está procurando equilibrar o seu prato da balança.

Para os que pensavam que música dançante é sinônimo de quadradismo, de má qualidade, Moacyr Silva selecionou, com cuidado e bom gosto, as músicas que compõem este longa duração. Seis são cantadas pela ­suave Marisa, “crooner” de seu conjunto e uma das mais novas contratadas da Copacabana. Moacyr quis escolher músicas para dançar e ouvir, desejando agradar a um maior número de discófilos. Quis e conseguiu. Escolha qualquer música deste LP e observe que, se você quiser dançar, ela lhe será um bom excitante, mas, se seu dia lhe convida ao descanso, nada melhor que ouvi-la.

Agora, vamos falar da suave Marisa. Lembro-me bem que quem me apresentou a Marisa foi Arnaldo Amaral, o descobridor de “estrelas”. Eu ainda não a ouvira cantar. Depois de uma conversa de cinco minutos, eu já pedia a Deus para que Marisa cantasse bem. Eu jamais me perdoaria dizer coisas desagradáveis – mesmo que fossem a mais insofismável verdade – a respeito daquele anjo doce que eu acabara de conhecer. Acredito que ninguém conseguirá ser mais suave, delicada, simpática e tratável. Quando Marisa fala, se apodera de nós uma calma confortadora, uma vontade enorme de praticar generosidades, de pedir perdão, de perdoar e de ser manso como a fala suave de Marisa. Quando ela se vai a gente duvida de que não estava sonhando. Assim também é Marisa quando canta. Ouvir a suave Marisa é melhor que receber carinhos.

O rádio foi o ponto inicial da carreira de Marisa. Apareceu em vários programas para gente nova, mas não se pode afirmar que tenha sido muito feliz, pois o auditório – a grande calamidade do rádio – sempre a deixou nervosa e insegura. Quando começou a trabalhar com o conjunto de Moacyr Silva sentiu-se outra, ou melhor, a verdadeira Marisa surgiu. Digamos que ela casou bem com o conjunto. Moacyr diz que desde o primeiro dia sentiu em Marisa um elemento que lhe faltava. Ajudou-a com a melhor boa vontade e agora, depois de ouvir essas faixas gravadas por sua “crooner”, sentiu-se recompensado. “Marisa é uma boa cantora, mas neste LP ela ultrapassa as expectativas. Está ótima”. Diz Moacyr, envaidecido.

Quando se pergunta a Marisa o que acha de Moacyr Silva, sua vozinha cresce de entusiasmo: “Ele é um excelente músico e exige de seu pessoal o máximo, sem jamais se alterar. Ninguém poderia afirmar, sem cometer injustiça, existir um melhor amigo que Moacyr Silva. Para mim ele sempre foi um verdadeiro pai”. Moacyr Silva é considerado o melhor sax tenor do Brasil. Para chegar a merecer tão honroso título, ele trabalhou desde a idade de 9 anos. Isso aconteceu em Conselheiro Lafayette, sua cidade natal. Seu pai, conhecido chefe da banda, Dornélio Silva – que sabia tocar bem todos os instrumentos – administrou-lhe os primeiros conhecimentos musicais. Um ano depois já conseguira ingressar na banda de seu pai, como flautista. Só mais tarde aprendeu sax. Em 1941, já aqui no Distrito Federal, tornou-se profissional e elemento disputado pelas melhores orquestras. Quando atuava na desaparecida “boite” Vogue, resolveu formar seu próprio conjunto. Pode-se afirmar que seu conjunto sempre foi o melhor da noite, desde o primeiro dia, pois Moacyr procurou se cercar dos melhores músicos. Atualmente está no Copacabana Palace e seu conjunto está melhor que nunca. Os elementos que o compõem são excelentes. Seu pianista, Chain Levak, tem fama internacional, e já dedicou o seu piano – é tão bom no clássico como no popular – em orquestras famosas da maioria dos países da Europa e da Ásia. Corria o mundo e lugar nenhum conseguia prender até que chegou ao Brasil, de onde jamais sairá, jura. Maurílio Santos, pistonista, assegurou seu lugar de melhor, desde menino, quando fazia para da Orquestra Juvenil da Escola Nacional de Música, dirigida pela maestrina Joanídia Sodré, atual diretora da Escola. Carioca, começou sua vida profissional no “Lido”, no conjunto de Lauro Miranda. Fez parte da Orquestra de Gaó, no Cassino Icaraí, no Cassino da Urca e no Cassino Copacabana. Trabalhava com o maestro Peruzzi, na Mayrink Veiga, quando Moacyr formou o conjunto, do qual faz parte desde o início. Moacyr o considera seu braço direito. Compositor dos melhores, como o pode comprovar seu chorinho “Vogueando”, terceira da faixa, face B do presente longa duração. O contrabaixista, Raul Gagliardi, é paulista. Seu pai, famoso trombonista do passado, José Gagliardi, lhe ensinou música. É um dos melhores contrabaixistas do Brasil e não se lembra de um só dia de sua vida como profissional, que tenha ficado parado. Quando Carlos Machado organizou sua orquestra, foi um dos fundadores. Com aquela orquestra trabalhou nos cassinos da Urca, Icaraí, Quitandilha, e viajou a Buenos Aires. Há nove anos trabalha no Copacabana Palace, onde já integrou os conjuntos de Zacharias, Cópia, Dick Farney, Steve Bernard e agora o de Moacyr Silva. Gravou com Dick, dois esplendidos Lps de jazz. Maciel (Edmundo), trombonista, é mineiro de Belo Horizonte. Aprendeu música e trombone com seu pai, José Maciel. Sua vida de profissional começou em Minas, na Rádio Guarany. Em São Paulo trabalhou na Rádio América e no Tropical Danças, onde o maestro Carioca o descobriu e o trouxe para a Rádio Tupi. Seu trombone já foi admirado nas melhores casas do Rio de Janeiro e para encurtar a história é o 1° trombone solista da Orquestra Sinfônica Brasileira. O choro “Puladinho na Gafieira”, quarta faixa, face A deste LP, é de sua autoria, e o solo que ele executa é magnífico. Com a Orquestra de Ary Barroso esteve no México, Venezuela, Uruguai, Argentina e Paraguai e com Carlos Machado foi ao Waldorf Astoria, em Nova Iorque. Hanestaldo Américo também é mineiro, de Monte Santo. Seu irmão Mário Américo (massagista oficial das seleções nacionais de futebol) ensinou-lhe música e bateria. Em 1939 veio para o Rio e depois de trabalhar em algumas casas de danças ingressou no Copacabana Palace, onde trabalha há doze anos tomando parte em quase todos os conjuntos ali formados.

Atualmente o conjunto de Moacyr Silva, além de tocar no Copacabana Palace, atua na TV-Tupi, fazendo a parte musical do programa “Convite à música”, que também dá título a este excelente “long playing”. Esse programa foi a grande chance para a vitória de Marisa. A televisão marcou seu encontro com os elogios da crônica especializada e a preferência do público.

É interessante chamar atenção para o coro que aparece em diversas faixas – foi todo ele feito pelos elementos do conjunto, assim como os arranjos.
 
JURANDIR CHAMUSCA
ESTE DISCO EM LONGA DURAÇÃO (33,1/3 RPM) FOI GRAVADO E FABRICADO NO BRASIL PELA SOM, INDÚSTRIA E COMÉRCIO S.A.

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