DeusaMúsica - Um olhar relativo sobre discos absolutos

Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua...
Sérgio Sampaio - 1973

quarta, 10 de outubro de 2018

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A frente de capa do LP “Eu quero é botar meu bloco na rua…”, nos leva a desconfiar que possa ter ocorrido ali algum tipo de negociação territorial entre artista e gravadora nesse quesito visual. Na possível partilha, o projeto gráfico mais coerente com o perfil do artista, teria sido o quinhão de Sérgio Sampaio enquanto o nome do disco seria a “sugestão” da Philips de André Midani para atender a necessidades prementes da decolagem de sua carreira.

Repare que ao arrastar engajados, alienados, crianças e donas-de-casa ao mesmo cordão animado por seu pseudo grito carnavalesco - “Eu quero é botar meu bloco na rua...” - o boom fenomênico da marcha-rancho no VII Festival Internacional da Canção pode não ter deixado alternativas à multinacional senão batizar o LP com o mesmo nome. Dessa forma, a filial da gravadora holandesa agarraria a chance preciosa de identificar que Sérgio Sampaio era o mesmo artista eclipsado pela venda superior a meio milhão do compacto simples do ano anterior contendo a música.  Em outras palavras, já que o sucesso da gravação imprimira (muito) mais que o artista até aquele momento na memória do público, que ambos estivessem juntos agora no micro-outdoor que toda capa de disco acaba, para o bem e o mal, por transformar-se.

Na contramão de onde todo artista costuma derivar, os fotogramas cinematográficos relidos a um estilo warhol-naif com a imagem de Sérgio desconstruída por caretas somada às fontes ensanguentadas de seu nome escorrendo pela capa, parecem querer compor a estética repaginada de um “Filme de terror”. Não por acaso, é esse o nome da segunda música do disco que bem poderia ter sido o título original imaginado pelo artista.

Afinal, o egresso do escalafobético álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez” para o qual o produtor kamikaze Raul Seixas o alistara três anos antes junto a Edy Star, Miriam Batucada e ao próprio Raulzito; apresentava um comportamento arredio na relação com o assédio da mídia empenhada em extrair o mito da temporada de um poeta atormentado nascido em uma cidade do interior capixaba. Inserido contra vontade nesse roteiro aterrorizante de celebridades instantâneas de um país que prendia e exilava os que deveriam ser seus autênticos ídolos, era de se esperar que Sérgio se sentisse ferido como as letras de seu nome estampadas na capa.

O mundo do lado de fora do universo deste álbum de Sampaio produzido por Raul Seixas, apresentava também alta e coincidente voltagem de inovação em discos que eclodiam paralelos àquele momento. Na mesma atmosfera orbitavam os primeiros discos de Fagner (“Manera Fru Fru, Manera”), do Secos & Molhados (homônimo), de Gonzaguinha (“Luiz Gonzaga Jr”.), de Walter Franco (“Ou não”) e de Luiz Melodia (“Pérola negra”) - para citar apenas os mais incensados, fazendo de 1973 uma espécie de segundo ano que não terminou. É interessante observar que se seus contemporâneos e o LP “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua...”, por um lado alinhavam-se nesse incomum pico de pertinência na estreia de cada um desses artistas, por outro divergiam-se por conter uma rica dessemelhança entre seus conteúdos - ao contrário de outros capítulos musicais coletivos pautados pela ideologia ou pelo regionalismo.   

Uma polaroide daquele momento flagraria uma MPB em transe de mutação. A despeito da brava resistência subterrânea de Gal e dos Mutantes ao longo da ausência um tanto forçada de Caetano e Gil, é preciso notar que mesmo estancado à força, o levante tropicalista já cumprira seu curso renovador e refrigerante. Tanto que, repatriados, Caetano, Gil (e até o auto-exilado Chico), tateavam com a genialidade e o sucesso esperados suas searas sem rebobiná-las ou partir de pontos pretéritos deixados para trás, antes do exílio.

Os primeiros a levarem à frente o bastão da celebrada retomada da “linha evolutiva da música brasileira” apontada pela argúcia estratégica de Caetano ainda no final da década anterior, foram os Novos Baianos ao coloca-la em prática em 1972 disparando o histórico “Acabou Chorare” - resultado do emaranhado entre as seis cordas de Hendrix com as de João Gilberto. A partir daí uma nova onda artística surfaria acima da Bossa, da Jovem Guarda, da Era dos Festivais, do Tropicalismo como se estes fossem continentes submersos já explorados. 

Como uma mensagem na garrafa, restaria apenas uma nesga tropical de terra-firme onde a bandeira hasteada pela Tropicália os manteria fiéis à marginalidade voluntária onde limites se tocam, atraem-se e misturam-se sem culpa na experiência prazerosa do exercício estético. De toda aquela lista de estreantes setentistas onde também havia nomes vitais como Djavan, Alceu Valença e Jorge Mautner, talvez Sérgio Sampaio fosse um dos mais fiéis a essa prática vanguardista sem na verdade defende-la, ansiar representa-la ou planejar qualquer ação para pôr seu bloco ou passeata na rua. Sérgio simplesmente fazia seu som e era coerente, ao seu modo, influência e estilo, a seu tempo e ao inconsciente coletivo de sua geração de criadores.

Numa panorâmica histórica consciente de tudo o que (des)construíram os dois artistas reunidos em estúdio naquele momento até partirem dessa para melhor, a realização de um disco de Sérgio Sampaio produzido por Raul Seixas poderia ser como tentar organizar o carnaval colocando o Chacrinha como gestor. Porém, o resultado final leva a crer que as loucuras juntas funcionaram muitíssimo bem.    

O baile comandado pelo maestro beleza começa então com a valsinha “Leros e leros e boleros” - um carinho traiçoeiro com o qual Sérgio tira o ouvinte incauto para dançar para em seguida hipnotiza-lo à sua retórica por doze faixas. Com cacoete intencional de jingle publicitário, o lero-lero vende dentifrício a banguelas usando a linguagem da propaganda para conduzir a audiência lobotomizada até no encontro derradeiro com Deus. Praticamente um pesadelo patrocinado.

Não há descanso para os justos. Tanto que depois do intervalo comercial, o artista continua sendo implacavelmente perseguido na sessão das 10 de um “Filme de Terror”. Ali Sampaio exibe uma espécie de “lado sombra” de Caetano Veloso ao aludir antagonicamente à composição “Cinema Olympia” do baiano por quase que toda a canção. Nesse filme em negativo, matinê vira sessão noturna e gargalhadas juvenis em gritos de horror num longa sem fim que persegue a todos pelas ruas, casas, cidade e país numa clara alusão ao regime totalitário no seu ápice de truculência. No nono e mais tenebroso ano da ditadura, era como se a vida se transformasse em um filme de terror que ao invés de ser visto no cinema, vigiaria a plateia como o Grande Irmão de George Orwell.

Nesse momento o artista perseguido nos socorre abrindo o álbum de família com a gravação do impagável samba “Cala a Boca, Zebedeu” de autoria do Maestro Raul Sampaio – dono da batuta da orquestra e de uma tamancaria em Cachoeiro de Itapemirim. “Seu” Raul foi um pai rígido para seus cinco filhos, entre eles Serginho que desde pequeno cantarolava com precisão essa história hilária da jararaca que troca o marido por um jogo da seleção. Um caridoso e necessário oásis de diversão.  

A ode ao progenitor continua desta vez ressentida em “Pobre Meu Pai”. O choro pop gotejado por um piano acústico é praticamente um pedido de desculpas. Como se o filho diante da “violência” padrão paterna que cobra empenho, responsabilidade, lágrimas e sangue na vida adulta dos filhos em nome do sucesso, tivesse “saudades” do autoritarismo amoroso e bem intencionado do velho Raul. Com 26 anos, longe dos tempos em que recebia as reprimendas do pai e os cuidados de sua mãe, Dona Maria de Lourdes, Sampaio a elege também como tema indireto da canção que leva seu nome. Distante de uma janela lírica decorada pelo nylon e aço de dois violões, na verdade a música alerta: “Dona Maria de Lourdes, não espere por mim!” – desta vez Sérgio roga que o amor de mãe o livre ao menos do peso da culpa por sua infinita espera no caso dele não mais voltar. Tempos difíceis aqueles.

Se um dia sua volta a Cachoeiro se desse, dar-se-ia na direção de um endereço subintitulado em “Não tenha medo não”: Rua Moreira, 65 – onde o artista morara com a família. Contudo, cuidado! Não se deixe guiar pela leveza bluesy com que o arranjo a apresenta porque mesmo com Waze você pode se perder. Em Sergio Sampaio, tudo tem intenções outras que nos dão a impressão de que nem ele sabe quais são.

A neurótica “Labirintos Negros” nos rapta nos primeiros compassos para uma cidade gótica sob a proteção e ameaça de um herói pessimista que, como um guia turístico às avessas, vai apontando os cartões postais da decadência da Cidade dos Homens. Tudo muito, muito estranho mesmo. Tanto, que faz “Eu Sou Aquele Que Disse” parecer até uma balada “romântica”. Mas, definitivamente não é. Pelos mais de cinco minutos do tema, todo o tempo há a ameaça de feras, cachorros, ladrões pelas ruas que nos convencem de que quem mais assustava a Sérgio Sampaio era ele próprio e a volúpia intuitiva de sua poesia. A canção é uma das obras primas do disco na qual ele manda a primeira mensagem, ainda indireta, ao conterrâneo Roberto Carlos. No ano seguinte, o Rei receberia um recado objetivo na belíssima “Meu Pobre Blues” que ficaria, como de costume, sem resposta pelo período de 20 anos que a morte levou para leva-lo.

Se até agora no disco, à sua maneira, o artista enfrentava as feras predadoras ao alcance de sua alça de mira como a cultura de massa e ditadura militar, “Viajei de Trem” é a primeira canção a apontar a escada de incêndio, a fuga, a alternativa de não intervir. A bordo de sua tormenta particular, seu trem não poderia ser azul como o de Ronaldo Bastos e Lô Borges do ano anterior, mas cinza e soturno como o concreto e pedras das ruas e monumentos. A droga hospedeira desse escape parece ter mais poder anestésico do que alucinógeno, por isso a viagem segue indolor, mas, desprovida de prazer que aparenta ser um sentimento distante demais da realidade consciente ou não do poeta.

Antes de chegarmos à ultima canção do álbum, “Raulzito Seixas” – a mini homenagem acústica ao seu produtor que ironicamente no mesmo ano abandonaria justamente a capa protetora de “Raulzito” para lançar seu primeiro e melhor disco Krig-há, bandolo!  assinando: “Raul Seixas”, passamos por “Odete” que, por assim dizer, libertaria o sambista não tão bissexto que Sérgio Sampaio espasmodicamente revelaria ao longo de sua curta carreira. Pode haver um paralelo entre a mulher mandona carne de pescoço com a ditadura osso duro de roer. Isso ficaria mais evidente quando ele fala da “chegada” ou de “mesmo viajar de trem”. Essa última autocitação funde-se a outra original de Toquinho e Jorge Ben (Jor), “Que maravilha”, evidenciando o autismo de girar na chuva vestido de branco por entre bancários, automóveis e tanques militares massacrando a liberdade e os direitos individuais dos cidadãos. Contudo, o mais bacana é que independente da fonte inspiradora, a canção não tem a poeira do datado e persiste sendo no seu significado direto, uma gozação deliciosamente atual até hoje.

Com esse disco muito acima do extraordinário, Sérgio Sampaio colocou o seu bloco na rua e continuou circulando por ela cada vez mais perceptível aos frequentadores dos bares da zona sul carioca com a figura esquálida, cabeluda e espalhafatosa de um Don Quixote perseguido por seus domesticados moinhos reais. Em relação inversa, para o seu país ele ia desaparecendo dia a dia aos olhos de seus irmãos e da mídia interessada mais em maníacos menos depressivos.

Espaçando discos mais do que mereciam nossos ouvidos fãs e seu enorme talento de criador de canções, ele foi se desintegrando até em 1994 desaparecer de vez abduzido pela overdose de consciência de que alguns poetas são cruelmente dotados por Deus. Felizmente, sua obra não nos deixa descansar em paz e soa alertas para quem quer ser menos uma cabeça de gado no bloco da mediocridade cada vez maior no país do carnaval.


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