Música

ISMAEL SILVA: Um Artista Caprichoso e Inovador

sexta, 14 de setembro de 2018

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Depondo sobre sua vida, Ismael Silva costumava ressaltar:

“Eu fui um menino diferente. Vivia pedindo à minha mãe para me botar na escola. Um dia, como ela não me atendia, eu mesmo tomei a iniciativa de me matricular. Isso, quando tinha somente 6 ou 7 anos de idade”.

Embora um tanto exagerado pelo depoente – “nem tudo o que se diz, se faz”, cantava ele mesmo, esse fato pode ser considerado como uma manifestação precoce de seu temperamento voluntarioso e individualista.

Ficava a tal escola no Rio Comprido, um dos três bairros cariocas (os outros foram Catumbi e Estácio de Sá) nos quais o compositor viveu a infância e juventude. Nascido em Jurujuba, praia de Niterói, em 14 de setembro de 1905. Ismael foi o quinto e último filho do cozinheiro Benjamin da Silva e de sua mulher, Emília Correa Chaves. Enviuvada muito cedo, Emília se mudaria para o Rio de Janeiro, onde trabalharia como lavadeira, levando consigo o filho caçula e deixando os demais com parentes.

Frequentador de rodas de samba e de malandragem dos bairros em que foi criado. Ismael Silva começaria ainda adolescente a exercer sua vocação de compositor, logo se tornando um personagem típico do meio em que vivia: o sambista – “malandro rico de talentos”, no dizer do crítico José Ramos Tinhorão – que rejeitava qualquer tipo de trabalho alheio à sua arte.

E como malandro talentoso ele iria desempenhar papel importante naquele grupo de sambistas que entraria para a história da música popular brasileira com o título de Os Bambas do Estácio. Esses bambas (Rubens e Alcebíades Barcellos, Nilton Bastos, Edgar, Francelino, Gradim, etc.), com Ismael à frente, foram os responsáveis pela cristalização do samba carioca na forma até hoje adotada, revogando o ritmo amaxixado usado pelos compositores que os antecederam. Isso porque, sendo também responsáveis pela criação, em 1928, da primeira escola de samba, a Deixa Falar, eles sentiram a necessidade de simplificar a rítmica do samba, justamente para facilitar o deslocamento dos foliões que desfilavam na agremiação.

Seria por essa época da fundação da Deixa Falar que a fama de Ismael, ultrapassando as fronteiras do Estácio, lhe proporcionaria a oportunidade de integrar-se ao meio musical da cidade. Atuaria como instrutor do samba na vida profissional o cantor Francisco Alves, na ocasião recordista em vendagem de discos.

Não agia, porém, por mero altruísmo o esperto cantor, quando resolvia levar para as rádios e gravadoras o repertório do compositor iniciante. Na realidade, percebendo as perspectivas de sucesso daquele tipo de samba que Ismael fazia, procurava assegurar para si a exclusividade de sua produção. Tanto assim que, recusada uma proposta de compra pura e simples do material, acabaria acertando com o compositor um trato que lhe asseguraria a exclusividade pretendida, além da inclusão de seu nome na parceria. Por imposição de Ismael, participava ainda do trato seu amigo Nilton Bastos, co-autor verdadeiro das composições.

Essa sociedade sui generis durou sete anos, os melhores da carreira de Ismael Silva, em que ele teve gravadas cerca de sessenta músicas. Foram os anos das parcerias fortes com Nilton Bastos (prematuramente desaparecido, em 1931) e Noel Rosa. Sobre o contrato com Francisco Alves, o compositor declarava, em 1968, num depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro:

“Foi bom pra mim e foi bom pro Chico. Se não fosse o Chico, talvez eu não chegasse onde cheguei. Ele me apresentava como seu braço direito em todo lugar que a gente ia”.

Por volta de 1936, Ismael manteve romance com uma moça do Estácio, daí resultando o nascimento de uma filha. Ainda nesse mesmo ano ele se meteria em encrenca, sendo condenado por tentativa de homicídio, episódio que procurou esconder até o fim da vida. Essa condenação funcionaria como um verdadeiro divisor de águas em sua carreira, que ao ser retomada, após dois anos e meio de interrupção, jamais alcançaria o êxito da fase anterior.

Realmente, Ismael não procurou se adaptar ao meio artístico, já bem comercializado, que encontrou na hora do retorno. Muito cioso de sua arte, o antigo líder do Estácio se negava a agir como os colegas que frequentavam os corredores das gravadoras em busca de intérpretes para suas criações.

Iniciaria, então, um longo período de retraimento que se refletiria num acentuado declínio em sua produção, ainda que, esporadicamente, continuasse a fazer composições à altura de seu talento.

A partir de meados da década de 1950, porém, já vivendo a fase da maturidade, Ismael voltaria a gravar e participar de shows em teatro e televisão. Essas atividades, importantes para as novas gerações conhecessem sua obra, seriam intensificadas na década seguinte, embora pouco contribuíssem para melhorar seu modesto padrão de vida.

Ao completar 70 anos, em 1975, Ismael morava numa casa de cômodos na avenida Gomes Freire, na zona central do Rio, perto dos bairros de sua juventude. De lá sairia, às vésperas do Natal de 1977, para internar-se no Hospital da Lagoa, a fim de operar uma úlcera varicosa, mal que havia tempos o afligia. Ainda no hospital, em convalescença da operação, morreria no dia 14 de março de 1978, fulminado por um ataque cardíaco.

Artista caprichoso e inovador, figura importante da história do samba, Ismael Silva teve a felicidade de receber em vida o reconhecimento de seu valor por críticos e estudiosos de nossa música popular.


JAIRO SEVERIANO

Junho 1988



FAIXAS:

Me Faz Carinhos

Me faz carinhos é a primeira composição gravada por Ismael. “Eu estava doente, hospitalizado”, declarava ele num depoimento ao MIS, “quando chegou o Bide” (Alcebíades Barcellos) “com uma proposta do Chico Alves para comprar Me faz carinhos por 100 mil réis. Fiquei entusiasmado e vendi imediatamente.” Pouco depois (em janeiro de 1928) saía o disco, figurando na autoria apenas o nome de Francisco Alves. Vale aqui ressaltar a presença, já nos versos desse samba, das citações de ditos populares (“a maré que enche, vaza”, “vai-se um amor e vem outro”), uma constante na obra de Ismael.


Amor de Malandro

Uma das melhores criações de Ismael, esse samba chama a atenção do ouvinte logo em sua segunda nota, uma oitava acima da primeira. Focalizando o tema “amor de malandro” (“se ele te bate é porque gosta de ti”), muito em moda na época, seria lançado por Francisco Alves em julho de 1929, constituindo-se num dos sucessos do ano. No rótulo do disco, em que a composição aparece com o título de Malandro, omite-se outra vez o nome do autor, substituído pelos de Francisco Alves e Freire Júnior


Com a Vida Que Pediste a Deus

“Este é um samba-lamento, nascido de uma tremenda complicação sentimental”, confessa o compositor em entrevista a Brício de Abreu. E por não contar o resto da história, apesar da insistência do jornalista. Ismael poderia talvez se justificar cantando os versos finais da composição: “Pra não me colocar em má situação, prefiro declinar na pretensão”. Com A vida que pediste a Deus teve como primeiro intérprete J. B. de Carvalho, em 1939.


Adeus

Apesar do tema triste, esse bonito samba em nenhum momento descamba para o pieguismo. Dizem que Ismael e Noel o teriam composto em homenagem a Nilton Bastos, afirmando que os dois nunca chegaram a desmentir. Segundo, porém, Maria Thereza Mello Soares, biógrafa de Ismael, há um outro samba da mesma época, Rir para não chorar, que é dedicado por ele ao amigo desaparecido, conforme partitura existente no MIS. Adeus pertence à pródiga safra de 1932.


Se Você Jurar

Um clássico da MPB, Se você jurar é o maior sucesso de Ismael na fase áurea de sua carreira. Sem exagero, pode-se considerá-lo como um dos modelos que mais influenciaram os sambas dos anos 30. “A primeira parte é de Nilton Bastos com a ajuda de Ismael”, esclarece seu amigo Hermínio Bello de Carvalho no artigo “São Ismael, o sambista”, publicado em 1963. Esse artigo refuta uma versão (não comprovada) que atribui a Nilton a autoria exclusiva da composição. Se você jurar, que venceu o carnaval de 1931, foi lançado pela dupla Francisco Alves/Mário Reis e regravado por inúmeros intérpretes, como Carlos Galhardo, Elza Soares, Carolina Cardoso de Menezes, Trio Irakitan, Miltinho e, naturalmente, Ismael Silva.


Fonte: texto extraído do CD “Ismael Silva” do Acervo Funarte da Música Brasileira.


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