Música

Maysa - Os olhos azuis de um Oceano (nada) Pacífico
Só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio

quarta, 06 de junho de 2018

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Os olhos de Maysa, "oceanos não-pacíficos" na definição do poeta Manuel Bandeira. Poucos artistas brasileiros tiveram a vida mais devassada pela mídia quanto Maysa. Ao mesmo tempo, poucos souberam usá-la tão bem quanto ela. Aos 22 anos, a jovem Maysa era uma das estrelas mais bem pagas da música brasileira. Era rica, famosa e cortejada por homens que dariam tudo para dividir um drinque com ela.

Quando moça, em torno de 15 anos de idade, com o ouvido colado no rádio e com a paixão pelo cinema, sobrava bem pouco tempo para os estudos. No caderninho de estimação, Maysa começava a rabiscar esboços de letras de sua própria autoria. Um tarde, seus pais a impediram de sair de casa com uma amiga, colocando-a de castigo em seu quarto. Maysa chorou e correu para o banheiro. "Naquele dia, posta de castigo por meu pai e minha mãe, entrei na banheira, peguei um pedaço de papel e comecei a escrever." Por mais que Monja e Inha (seus pais) insistissem, a filha recusou-se a abrir a porta. Foi assim que, com apenas doze anos, Maysa compôs "Adeus". Oito anos depois a música viria a ser incluída em seu álbum de estréia e, dessa feita com roupagem densa, com a ajuda de um arranjo dramático e da voz quente de Maysa, a canção deixaria de ser o simples desabafo de uma adolescente e ganharia novos significados, transformando-se em um de seus primeiros sucessos.

Sempre que estava em São Paulo, Elizeth Cardoso não perdia a chance de ir rever a amiga, mãe de Maysa, Inah Monjardim e de anunciar que percebia na mocinha da casa um grande talento. "Aprendi tudo com Elizeth, ela foi minha mestra", diria Maysa. Mais tarde, ela relembraria com entusiasmo a regalia que desfrutara de cantar em dueto com Silvio Caldas, que nos seus cadernos, as letras cantadas por Silvio tinham espaço garantido, ao lado das criações dela própria, no início dos anos 50.

Em fins de 1956, lançou o primeiro disco, Convite para ouvir Maysa (RGE). Esse disco, um 10 polegadas com quatro faixas de cada lado, trazia somente composições suas (música e letra), com arranjos do maestro Rafael Puglielli. Entre as oito canções estavam “Adeus”, “Rindo de mim” e “Resposta”, que 18 anos depois seria lembrada por Maria Bethânia no seu espetáculo A cena muda., gravado ao vivo. Desde "Marcada", música de abertura, o ouvinte já era arremessado em um mergulho sem volta na atmosfera intimista da nova cantora que, no primeiro disco, já avisava ao que vinha.

O sucesso desse primeiro disco, que a lançou também como compositora de prestígio, abalou seu casamento. O estado depressivo em que mergulhou após a separação acentuou ainda mais o tom melancólico de suas composições, reconhecidas como “músicas de fossa”. Depois do sucesso do disco, passou a participar do programa de TV e de shows em boates.

Em 1957, chegou a ter um programa exclusivo na TV Record (SP). Em 1960, transferiu-se para o Rio de Janeiro. No mesmo ano, lançou o LP O Barquinho (Columbia). O disco tornou-se um marco da Bossa Nova, tendo o acompanhamento de músicos que mais tarde seriam o embrião do Tamba Trio (Luiz Eça, Hélcio Milito e Bebeto Castilho), além de Roberto Menescal. Com o sucesso do disco, excursionou pelo Brasil, chegando a apresentar-se na Argentina e no Uruguai. Tornou-se a primeira divulgadora internacional da Bossa Nova, apresentando-se na França, E.U.A. e Portugal.

Fixou residência na Espanha, passando a visitar o Brasil de tempos em tempos. Em 1964, numa de suas visitas, participou de um programa com Sérgio Porto (TV Record). Em plena febre dos festivais de música, participou com sucesso do Festival Internacional da Canção, interpretando “Dia da vitória” (Luiz Bonfá e M. H. Toledo). Em 1969, de volta ao Brasil, fundou uma empresa destinada a produzir seus programas e discos. Ainda nesse ano, realizou show no Canecão (RJ), gravado e lançado em LP (Canecão apresenta Maysa). No início da década de 1970, passou a dedicar-se também ao teatro e à TV. Participou das novelas O cafona (1971) e Bravo (1974), ambas da TV Globo, compondo para a primeira o “Tema de Simone”, personagem central da história. Gravou alguns LPs que se tornaram importantes para o sucesso e a consolidação da Bossa Nova e da música romântica brasileira, Entre seus grandes sucessos estão três clássicos de Tom Jobim, “Meditação” (c/Newton Mendonça), “Dindi”, (c/ Aloysio de Oliveira) e “Se todos fossem iguais a você” (c/ Vinicius de Moraes), além de “Solidão” (Antônio Bruno), “Bom dia, tristeza” (Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes), “Tristeza” (Haroldo Lobo e Niltinho), “Ne me quitte pas” (Jacques Brel), “Bloco da solidão” (Jair Amorim e Evaldo Gouveia) e, de sua autoria, “Felicidade infeliz”, “Ouça”, “Meu mundo caiu” e “Adeus”.

Em 1976, “Meu mundo caiu” voltou a ser sucesso ao ser incluída na trilha sonora da telenovela Estúpido Cupido (Mário Prata), produzida pela TV Globo. No ano seguinte, meses após sua morte, a RGE reuniu seus principais sucessos no álbum duplo Para sempre Maysa, incluindo a gravação de “Chão de Estrelas” (Sílvio Caldas e Orestes Barbosa), antes gravada apenas pelo próprio Sílvio Caldas, de canções estrangeiras como “Um jour tu verras” (Mouloudji), “I Love Paris” (Cole Porter), “Quinzás, quinzás, quinzás” (Osvaldo Farres) e “Besame mucho” (Consuelo Velázquez), e de dois clássicos de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, “Eu não existo sem você” e “Se todos fossem iguais a você”.

Em 2000, Marcus Viana musicou um poema inédito da cantora, “La enorme soledad”, cuja gravação por Paula Santoro foi incluída com sucesso na trilha da minissérie Aquarela do Brasil (TV Globo). Em 2001, a mesma emissora escolheu sua gravação de “Ne me quitte pas” para a abertura da minissérie Presença de Anita (Manoel Carlos). Em 2005, foi lançado o livro Maysa, uma biografia escrita pelo jornalista José Robherto Santos Neves como parte da coleção Grandes nomes do Espírito Santo, trazendo fotos raras, discografia, reprodução de cartas, manuscritos das letras de autoria dela, além de suas passagens pelo cinema e pelo teatro.



Fonte do Bibliográfica: Maysa: só numa multidão de amores / Lira Neto; São Paulo: Globo, 2007; e Dicionário Houaiss ilustrado [da] música popular brasileira / Instituto Antônio Houaiss, Instituto Cultural Cravo Albin. Ricardo Cravo Albin, criação e supervisão geral - Rio de Janeiro: Paracatu, 2006;



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