Música

Músicas Imortais de Silvio Caldas
Capítulo 5 da série especial 110 anos de SILVIO CALDAS

quinta, 31 de maio de 2018

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Vem chegando ao fim mais uma série especial do IMMuB. Neste mês de Maio, comemoramos os 110 anos de Silvio Caldas. Para encerrarmos bem, separamos algumas de suas mais brilhantes interpretações nos anos Columbia – o caboclo jamais cantara tão bem. A voz amadurecera, a técnica nunca estivera tão apurada, os graves tinham adquirido uma densidade aveludada rara nos cantores a caminho dos 50. Ninguém envelhecia com tanto estilo, tanta elegância. Enquanto outros grandes cantores que brilharam ao seu lado durante a mesma época, como Orlando Silva, Carlos Galhardo e Francisco Alves empostaram a voz em seus últimos anos e se esconderam dos graves, com Silvio Caldas acontecia justamente o oposto: era um grande que o passar do tempo tornara ainda maior.

Sempre fora um personagem fascinate, o homem que deixava  de cantar na boate da moda para fazer seresta em botequim de subúrbio, o profissional que rompia compromissos milionários para pescar no Ceará, caçar na Amazônia, garimpar no sertão, consertar carros, cozinhar para os amigos. Agora, porém, parecia ainda mais fascinante. Ali, em carne e osso, voz bonita, cabelos prateados, com um entusiasmo de menino para começar nova carreira na Columbia, era mesmo uma lenda viva que encantava os paulistas. Acabaria adotado por eles.

O ano era 1956, quando o seu primeiro LP foi prensado e gravado pela Columbia, apresentado por Henrique Ponguetti, "Canta o Seresteiro", seria eleito pela crônica o disco do ano. E Silvio, o melhor intérprete. Selava-se ali o casamento do cantor com a gravadora. Trazemos aqui algumas belas crias que esse casamento duradouro e feliz nos proporcionou:


Serenata
(valsa de Silvio Caldas & Orestes Barbosa. 1935).
Das poucas composições da dupla em que a melodia foi feita primeiro. Silvio pretendia com ela homenagiar Silvinha, a filha recém-nascida. Pediu uma letra a Orestes, mas este, apaixonado crônico, em vez de analtecer as graças da menina, preferiu falar da mulher de olhar antardecente em cujos braços de seda alguém dorme ditoso. A Canção – das mais seresteiras da dupla – se convertia no prefixo do cantor. Esta gravação, de 1957, tem o acompanhamento de violões e dá título ao terceiro LP de Silvio na Columbia.


Feitio De Oração
(samba de Vadico & Noel Rosa, 1933).
Ao ouvir Vadico solar esta melodia ao piano, o maestro Eduardo Souto tratou logo de apresentar o compositor paulista a Noel para que este fizesse letra. Portanto, é a primeira das onze composições da parceria. Dois talentos imensos, Vadico e Noel não fizeram por menos: começaram logo por Barbosa. Mas esta gravação de Silvio Caldas, com arranjo de Lyrio Panicalli, é de longe a melhor das mais de 50 que o samba mereceu. Definitivamente, foi feita em 1957 para o LP “Serenata”.


Se Tu Soubesses
(valsa de Georges Moran & Cristóvão de Alencar, 1941).
Gravada originalmente pelo próprio Silvio Caldas, na segunda fase Victor. Este novo registro foi um elogiável esforço do cantor para reviver um melodista injustamente esquecido: Georges Moran. Do LP “Seresta, Só Seresta” (1973). Acompanhamento do regional de Canhoto.


Maringá
(canção de Joubert de Carvalho, 1931).
Escrita para Maria do Ingá, personagem da peça de teatro, a canção que fez muito sucesso. Por tanto tempo que acabou dando nome à cidade paranaense só inaugurada em 1947. Uma das muitas glórias do compositor, médico de profissão, Joubert de Carvalho. A gravação original é de Gastão Formenti. A de Silvio Caldas, de 1957, foi lançada no LP “Serenata” e tem arranjo de Lyrio Panicalli.


Meu Companheiro
(valsa de Francisco Alves & Orestes Barbosa, 1932).
Muitas são as canções brasileiras dedicadas ao violão, mas raras tem o arrebatamento desta: “De tanto roçar meu peito tens hoje o timbre perfeito da voz do meu coração”. É a primeira composição da dupla Chico & Orestes. E deve servir de ponto de partida para uma discussão que esta caixa provavelmente vai reviver: quem terá feito as valsas de Francisco Alves? Sabemos todos que o grande cantor não compôs nenhum dos sambas que assinou com Ismael Silva, Nilton Bastos, Noel Rosa e outros “parceiros” que teve na virada dos anos 20 para os 30. Há indícios e mesmo provas disso, por mais que um ou outro fã de Chico perca tempo tentando nos convencer do contrário. Mas e as valsas? Carlos Didier, que prepara minuciosa biografia de Orestes Barbosa, ainda não encontrou a resposta. O mais provável, mesmo, é que Francisco Alves só tenha comprado os sambas, não as valsas. Era um ser imensamente musical, mais do que capaz de criar melodias como a desta ode seresteira ao violão. Também do LP “Canta O Seresteiro” (1956). Arranjo de Renato de Oliveira.


Favela
(samba de Roberto Martins & Waldemar Muniz da Silva, 1936).
Mais um antigo sucesso de Francisco Alves que Silvio relê com arranjo de Renato de Oliveira no LP “Canta O Seresteiro” (1956). Um belo samba, dos tempos em que ainda se podia cantar poeticamente o morro carioca que acabou virando substantivo comum.


Jangada
(samba de Hervê Cordovil & Vicente Leporace, 1954).
Uma homenagem da dupla de autores aos bravos jangadeiros nordestinos que andaram singrando mares do Sul por aquela época. Esta é a primeiríssima gravação, com o próprio Hervê acompanhando Silvio ao piano.


Nos Braços De Isabel
(samba de Silvio Caldas & José Judice, 1951).
Seis anos depois de lançá-lo pelo selo Sinter, Silvio Caldas o regravou com o regional de Canhoto. O disco, um 78 rotações, é de 1958.


Noite Cheia De Estrelas
(tango-canção de Cândido das Neves, 1932).
Um dos maiores sucessos de Vicente Celestino, tem música e letra de um boêmio acaboclado a quem chamavam de Índio, na verdade o mais importante dos compositores de seresta de uma fase anterior à de Orestes Barbosa, Jorge Faraj e outros. Filho do célebre palhaço e cantor Eduardo das Neves, índio foi amigo de infância de Silvio Caldas em São Cristóvão. Esta gravação, também com Canhoto, é do LP “Ontem Ao Luar” (1975).


Serra Da Boa Esperança
(samba de Lamartine Babo, 1936).
É bastante conhecida a história deste clássico, Lamartine descobrindo que a moça de Dores da Boa Esperança com quem ele se correspondia era na verdade uma menina cujo nome os rapazes do lugar usaram. Queriam todos, apenas, que o grande compositor fosse conhecer a cidade. Ao descobrir a verdade, em vez de zangar-se, Lamartine dedicou-lhe poesia: “Nós, os poetas, erramos porque rimamos também os nossos olhos com os olhos de alguém que não vem”. É outra gravação em que Silvio aperfeiçoa o original de Francisco Alves. Feita em 1958 para o LP “Cabelos Brancos”.


Minha Palhoça
(samba de J. Cascata, 1935).
Silvio Caldas sempre fez questão de alinhar esta saborosa criação de J. Cascata entre os primeiros sambas-de-breque já feitos. E com razão. Mas sendo ou não o primeiro, é decerto dos melhores, música e letra casadas com perfeição. Lançado pelo próprio Silvio. Esta segunda gravação é de 1964, acompanhamento de Canhoto, LP “Grandes Sucessos De Silvio Caldas”.


Saudade Dela
(samba de Ataulfo Alves, 1936).
Por menos que os historiadores o reconheçam, Ataulfo é sambista da estatura de Ismael Silva, Cartola, Bide & Marçal e outros bambas formados pela escola do Estácio. Silvio lançou muita coisa dele, inclusive este samba. Das duas regravações feitas na Columbia, esta, de 1964, é a melhor. Os Boêmios da Cidade acompanham Silvio.


Prelúdio
(samba de Hervê Cordovil & Vicente Leporace, 1957).
É aquilo que já foi dito do melodista Hervê. Silvio foi o lançador deste belo samba. Num 78 rotações que chegou às lojas em meados de 1957. O próprio Hervê é de novo o pianista.


Compromisso Com A Saudade
(samba de Billy Blanco, 1958).
Uma das faixas inéditas do LP “Cabelos Brancos” (1959). Os Boêmios da Cidade estão no acompanhamento. Vale lembrar que Billy era então uma espécie e número um da linha de frente que tentava revigorar o samba tradicional. Havia quem o considerasse um “novo Noel Rosa”.


Faceira
(samba de Ary Barroso, 1930).
Foi dos primeiros sucessos da carreira de Silvio Caldas, que teve de bisá-lo oito vezes numa das récitas da revista Brasil Do Amor, em 1931. Esta é a segunda regravação, feita ao vivo, em 1973, para uma plateia reunida no estúdio da CBS no Rio.
 
Cigana
(valsa de Romualdo Peixoto & Paulo Roberto, 1937).
Incluída nesta caixa por sugestão, quase apelo, do autor destas linhas, na medida em que, gravada em 1964 para o LP “Grandes Sucessos De Silvio Caldas”, com acompanhamento regional de Canhoto, é das mais representativas dos anos Columbia. Mais uma vez Silvio se supera em relação à sua performance original. Observem a qualidade dos graves, a divisão, o modo de dizer os versos do radialista e médico Paulo Roberto. A melodia de Romualdo – compositor e pianista mais conhecido por Nonô, tio de Cyro Monteiro, Cauby Peixoto e dos irmãos deste Arakém e Moacyr – é linda e permite a Silvio exercer sua condição de intérprete excepcional. Graças a isso, se já não acreditamos no mistério das ciganas, acreditamos em cada palavra da história de amor que o caboclinho canta.


Porto Dos Casais
(samba de Jayme Lewgoy Lubianca, 1954).
Uma sincera homenagem a Porto Alegre prestada por Silvio e pelo compositor e engenheiro gaúcho Lubianca, então e para sempre conhecido no meio artístico como “o irmão do José Lewgoy”. Saiu primeiro em 78 rotações em 1957 e em seguida no LP “Serenata”. Arranjo de Renato de Oliveira.


Dona Da Minha Vontade
(valsa de Francisco Alves & Orestes Barbosa, 1933).
Mais uma obra-prima. Mais um exemplo do talento de Francisco Alves para as valsas. A letra é uma das melhores de Orestes, com um fecho que resume as causas de todas as dores do amor: “Coração, por que preferes amar todas as mulheres no amor de uma só mulher?”. Enfim, mais uma gravação em que Silvio aperfeiçoa o original do próprio criador da música. Sua divisão, seu fraseado, torna ainda mais envolvente a melodia. Arranjo de Renato de Oliveira.


Se Todos Fossem Iguais A Você
(samba-canção de Antônio Carlos Jobim & Vinicius de Moraes, 1956).
Lançado na peça musical Orfeu Da Conceição, foi o primeiro sucesso da dupla Tom & Vinicius. Ponto de partida, portanto, de uma parceria histórica e semente do que viria a ser a bossa nova. Silvio Caldas gravou-o em 1974, para o LP “Grandes Sucessos Com Silvio Caldas”, no qual o velho seresteiro punha sua voz a serviço de “novas” músicas. Na verdade, músicas intemporais como quase tudo que Silvio canta. O acompanhamento do LP é feito por uma feliz combinação de regional com orquestra de cordas.


Rosa
(valsa de Pixinguinha & Otávio de Souza, 1937).
A sublime melodia de Pixinguinha data de 1917 ou 1918. Em 1937, para que Orlando Silva a gravasse do outro lado de Carinhoso, uma letra entrou em cena. De quem? Por muito tempo se supôs que o próprio Pixinguinha – que de poeta preciosista não tinha nada – teria cometido os versos que dizem coisas tais como “Se Deus me fora tão clemente, aqui neste ambiente de luz formada numa tela deslumbrante e bela, o teu coração junto ao meu, lanceado, pregado e crucificado sobre a rósea cruz do arfante peito teu...”. Afinal, só o nome de Pixinguinha aparecia no selo do disco. Mas não. Soube-se depois que o letrista era um mecânico do subúrbio chamado Otávio de Souza, amigo de Pixinguinha. A valsa está íntima e definitivamente ligada a Orlando Silva. É como uma homenagem ao cantor das multidões que se deve ouvir a regravação de Silvio para o LP “Eternamente” (1960).


Fita Amarela
(samba de Noel Rosa, 1932).
Grande sucesso da dupla Francisco Alves & Mário Reis, chegando mesmo a se destacar no carnaval de 1933. O tema era muito usado na música popular (e na poesia) das primeiras décadas do século: as últimas vontades do boêmio transformadas em versos. A gravação de Silvio é do LP “Serenata” (1957). Orquestra e coro arranjados por Renato de Oliveira.


A Distância
(canção de Roberto Carlos & Erasmo Carlos, 1972).
É a mais “jovem” composição dos anos 60 desta caixa. Silvio sempre viu no intérprete Roberto um seresteiro dos novos tempos. É, portanto, outra homenagem. O intérprete prova sentir-se à vontade em qualquer tipo de canção. Do LP “Grandes Sucessos Com Silvio Caldas” (1974).


Eu Sonhei Que Estavas Tão Linda
(valsa de Lamartine Babo & Francisco de Queiroz Matoso, 1941).
Francisco Alves tinha nesta música – escrita para uma opereta nunca montada – um de seus carros-chefes. É, sem dúvida, outro clássico. Silvio gravou-a para o LP “Seresta, Só Seresta”, (1973).


Gente Humilde
(canção de Garoto & Chico Buarque, Vinicius de Moraes, 1970).
O jovem violonista Baden Powell costumava ouvir Garoto solar a melodia, na primeira na Rádio Nacional. Anos mais tarde, já parceiro de Vinicius, Baden convenceu o poeta a fazer-lhe uma letra. Chico Buarque contribuiu com dois versos: “Pela varanda, flores tristes e baldias/Como a alegria que não tem onde encostar...”. A gravação original é de Ângela Maria. A de Silvio estava no LP dedicado às “novas” canções que ele gostava de cantar.


Este é o quinto de 5 artigos sobre a vida e carreira de Silvio Caldas, o seresteiro do Brasil, falecido há 20 anos e que neste mês de maio celebra 110 anos de vida, de música, de afamadas canções. O boêmio carioca tinha uma garganta generosa e o coração de trovador que batia forte! A séria encerra por aqui, mas não perca um capítulo destes incríveis fatos notáveis, em seus capítulos!

Clique nos links abaixo e navegue por esta série especial:

Capítulo 1 - Silvio Caldas, o Caboclinho Querido!
Capítulo 2 - Silvio e Orestes no Café Nice 
Capítulo 3 - O melhor da parceria entre Silvio Caldas e Orestes Barbosa
Capítulo 4 - De 'Chão de Estrelas' à turnê
Capítulo 5 - Músicas Imortais (lendo agora)



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