Henrique Cazes

Tárik de Souza

Jornalista e crítico musical

Supersônicas

O Clareira une o folclore e o urbano contemporâneo
por Tárik de Souza

quarta, 29 de novembro de 2017

É viável o diálogo entre o folclore e a música urbana contemporânea?

Iniciado em 2002, em São Paulo, como Núcleo de Música da Associação Cultural Abaçai, o atual grupo Clareira, há 16 anos atua no cerne da questão. E lança agora seu segundo disco, Cantos do Nosso Chão 2, pelo selo Núcleo Contemporâneo, dirigido pelo pianista e líder do coletivo Benjamim Taubkin. Participam ainda, seu filho, João Taubkin (baixo), Ary Colares (percussão), Sapopemba, Verlúcia Nogueira, Mazé Cintra e Neuza de Souza (percussões e vozes).

foto ANTONIO BRASILIANO

O Clareira já se apresentou no exterior (Espanha, Áustria, Coréia) e em diversas capitais brasileiras, e foi retratado, em 2015, no documentário “O piano que conversa”, do diretor Marcelo Machado, vencedor do festival In-Edit. O Clareira trabalha sobre “composições, adaptações e arranjos, a partir de canções tradicionais de várias regiões do Brasil”.

Nas sete faixas deste denso périplo há desde “Sete estrelas”, devota cantiga das Caixeiras do Divino, da Casa Fanti Ashanti, de São Luiz do Maranhão, invadida pelo intenso piano de Taubkin, a “Sinhá Rainha”, do Congado Mineiro, do terno Feminino de Lagoa da Prata, Minas Gerais. Marcada pelo pulso cardíaco dos tambores, ela aos poucos ganha a adesão coletiva de vozes femininas. O cantor Sapopemba trouxe duas contribuições de memórias da infância, em Penedo, Alagoas. O sacudido “Coco” (de roda) aprendido com sua mãe, dona Sizina nos cantos de trabalho nos lagos de arroz, e o aliciante “Aboio”, outro tipo de canto de trabalho, denominado Boi na Roça, da mesma região: “Abóia o boi vaqueiro/ aboia o boi, vamo aboiá”.

Mais adiante, ele volta ao aboio, no assertivo “As abelhas do sertão” (“só trabalham no agreste/ trabalha abelha miúda/ na lição da abelha mestre”). Outra preciosidade da confluência do piano eloqüente de Taublkin com os folguedos populares de ligação religiosa é “Cruzeiro”, peça do Guerreiro de Viçosa, versão alagoana dos reisados: “Deus te salve cruzeiro/ pesado madeiro/ Jesus carregava/ adorava o santo no andor/ meu Pai criador nos abençoava”.

“É uma experiência viva e profunda de contato com um Brasil real, aonde passado, presente e futuro convergem em um tempo maior”, abarca Taubkin.


foto PAULO CESAR LIMA; ilustração na foto DORA SELVA; projeto gráfico TERESA MAITA


Comentários

Tem uma sugestão de pauta?