Um papo com o Cazes

O coletivo "Choro na Rua"

terça, 05 de junho de 2018

Compartilhar:

Bem que o Zé da Velha já dizia há tempos: "músico para tocar na roda tem que gostar de tocar que nem garçom, servindo os outros". A frase, que usei como epígrafe de minha dissertação de Mestrado, "Os chorões e a roda" (disponível em minerva.ufrj.br) resume uma atitude que faz a diferença. E explica uma coisa que no começo de minha convivência com o choro eu não entendia: por que alguns músicos adoram tocar o repertório de choro, mas não frequentam a roda? 

Paulo Moura, numa entrevista para o documentário "Brasileirinho", não incluída na edição final do filme, acabou cunhando uma definição de roda de choro pela via da crítica, da negação. Disse o saudoso maestro: "eu não gosto muito de tocar na roda pois é uma conversa de compadres. Você toca um pouquinho aqui, um pouquinho ali…. Gosto mais do jazz pois nele você estabelecer um discurso musical". 

Juntando o que o Zé e o Paulo falaram, temos a perfeita definição de roda de choro. Um lugar onde o coletivo precisa ser mais importante que o individual. Onde de "tocar a bola", dar "o passe perfeito", vale mais do que o virtuosismo ególatra. Consequentemente, para fazer uma boa roda é necessário juntar pessoas que gostem de tocar “conversando". Essa experiência de improvisação coletiva exige domínio técnico e especialmente solidariedade musical, fina sintonia humana. Aí o choro flui e se comunica. 

Foi o que aconteceu espontaneamente na Rua do Rosário, em dezembro de 2016, em frente a extinta livraria Al-Farabi, no lançamento do livro sobre a dupla Zé da Velha & Silvério Pontes. A roda, que aconteceu na rua e cujo vídeo teve mais um milhão de visualizações nas redes sociais, fez surgir o coletivo "Choro na Rua". A proposta do coletivo é levar a magia da roda de choro para um público maior, fora dos ambientes domésticos, fazendo balançar e sorrir, ocupando os espaços urbanos e fortalecendo esse riquíssimo traço de nossa identidade cultural.

Silvério Pontes, que encabeça a iniciativa, explica:

– O choro começou na rua, na serenata. Daí foi para as casas de família, confeitarias, bares, cabarés, gafieiras, rádios, estúdios de gravação e até salas de concerto. Agora é a hora do choro voltar pra rua, enriquecido por toda essa experiência.

Desde março de 2017, temos repetido a experiência em diferentes espaços, conseguindo atingir um público que vai desde aficionados do choro até o simples passante. Da terceira idade até a criançada.  O público gosta, vibra mesmo e os músicos se divertem. Cada encontro deixa ao final uma profunda satisfação, o conforto do pertencimento, a alegria do encontro como mostra a imagem acima, feita ao final de uma tarde de Choro na Rua.

Apresentando uma formação flexível, capaz de acomodar as agendas de seus solicitados músicos participantes, o coletivo coloca em prática o a essência da roda de choro, definida ao final de meu texto de Mestrado através de uma paródia do velho lema positivista. Roda de choro: liberdade por princípio, compartilhamento por base e alegria por fim. 


Foto de Marilia Figueiredo


Comentários

Divulgue seu lançamento