Música

O sabiá num brinca em serviço
Clara Nunes - Especial Tema do Mês, no IMMuB

quarta, 08 de agosto de 2018

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Declarou Adelzon Alves no primeiro LP de Clara Nunes sob sua produção "neste LP o SABIÁ num 'brinca em serviço'. Dá seu recado com músicas, sons e os refrões do candomblé e da 'Puxada da Rede do Xaréu', estes últimos ligados à vida econômica, religiosa e artística da Bahia (folclore), que fazem parte da nova imagem audio-visual que a cantora vem mostrando ao público nos seus shows". Mas do que ele estava falando? O ano era 1971 e Adelzon era o homem de rádio que se encontrava no top naquele momento. Havia algum tempo, Clara Nunes já martelava a ideias de enveredar pelo caminho do resgate da sonoridade afro-brasileira. Nunca soube como executá-la. Como poderia pôr em prática algo, quando ainda não tinha cacife nem maturidade para brigar por seus projetos junto à Odeon? 

Durante muitos anos a Odeon continuava insistindo no romantismo. A confusão na carreira da "Cocadinha", apelido que ganhou por sua doçura e meiguice, se estabeleceu. Na virada de 1966 para 1967, Clara desandou a gravar compactos recheados de músicas açucaradas por ideia de Carlos Imperial. Ao mesmo tempo, flertava com a Jovem Guarda. Em paralelo, começou a prestar atenção nos grandes festivais de música que agitavam o país. Clara absorvia os dados com intensidade, seu potencial intelectual era nato, possuía uma capacidade de raciocínio e articulação verbal eram ímpares. Apontando para todas as direções, Clara ia atirando no que via e acertando no que não via. Se não arriscasse, poderia acabar no ostracismo ou figurar entre o grupo de artistas que foi parar no Rio e acabou frustrado por falta de trabalho. Clara não era oportunista, mas tinha senso de oportunidade.

Clara acordava e dormia pensando em cantar, em estourar, em fazer sucesso.

Quando começou a negociar com a Odeon a gravação do novo LP, que simbolizava uma ruptura com todos os trabalhos anteriores, Clara pensou de imediato em Hermínio Bello de Carvalho para produzi-lo. Os dois chegaram a se reunir para conversar sobre o repertório. Na ocasião, Imperial ainda era diretor do departamento Internacional da Odeon, influente, e tratou de "pôr areia" e tirar Hermínio da jogada. Ela tinha implicância com o produtor. O motivo ninguém sabe até hoje. Nem mesmo o próprio Hermínio. Foi então que Clara propôs o nome de Adelzon Alves, o amigo da madrugada. Seu programa na rádio abria espaço para os compositores-sambistas-gênios pouco conhecidos. Sua preocupação era com quem estava no morro, o compositor pobre, que não tinha espaço. As escolas de samba já faziam o maior desfile visual do mundo. O negócio de Adelzon era dar vez aos mais humildes. Começou então a tocar por conta própria Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro, Cartola, Nelson Cavaquinho e Candeia. Adelzon foi colocando no rádio todos os músicos nos quais acreditava e que se tornariam ilustres posteriormente. Era um profissional que entendia do riscado. Clara o ouvia com frequência. Acreditou que poderia dar certo, ainda que Milton Miranda torcesse o nariz, explicando-lhe que ele nunca fora produtor de discos e não entendia dos meandros da indústria fonográfica. A Odeon, no entanto, aceitaria a sugestão da cantora e convidaria Adelzon para uma conversa. Ele lembra:

"Quando fui chamado, disse que só aceitaria dirigi-la se fosse feito um trabalho no qual eu acreditasse. Escrevi um texto, que está na capa do primeiro disco que produzi, dizendo que, depois da Carmen Miranda, nenhuma outra artistas brasileira havia assumido o afro, tanto do ponto de vista sonoro quanto visual (...) Eu já dirigia o Conjunto Nosso Samba e convoquei a turma para acompanhar a Clara. O grupo esteve do lado dela trabalhando até a morte".

Por fim, Clara era a meta! Ele tinha que provar que a mineira poderia cantar samba, que tinha capacidade de preencher a tal lacuna deixada por Carmen Miranda com todos os seus balangandãs e trejeitos únicos de se apresentar no palco.

Clara teria de se reinventar. Ela já gostava mesmo de batuque. Nos centro de umbanda  que frequentava demonstrava apreço por toda aquela sonoridade que saltava dos atabaques dos ogãs. Adelzon entendeu tudo. Seria necessária uma brusca mudança. De repertório, de vestimentas, de penteados, de costumes. Junto com Geraldo Sobreira, um conhecido costureiro da época, os três discutiram o que, a partir daquele encontro, deveria ser adotado como visual. Vestidos longos, rendas, colares, guias de santo, pulseiras e turbantes passariam a fazer parte do guarda-roupa da cantora. Adevanir, um cabeleireiro bem-sucedido da Zona Sul do Rio sugeriu também uma mudança radical para acompanhar a nova fase: cortar o cabelo bem curtinho. O visual, elogiadíssimo, foi parar em praticamente todas as colunas sociais. Clara lançava moda. 

Antes do LP da virada, ela colocou na praça um compacto simples pelas mãos do próprio "amigo da madrugada" com dois sambas-de-enredo: "Misticismo da África ao Brasil", da Império da Tijuca, e "Festa para um rei Negro", do Salgueiro, ambos do carnaval de 1971, quando Clara estreou na avenida pela Portela, timidamente. Foi um estrondo o compacto. Estava ali o passaporte de Adelzon para produzir o primeiro trabalho de Clara, tendo como carros-chefe a própria "Misticismo..." e o samba de quadra "Ê Baiana" (Fabrício da Silva/Baianinho/Ênio Santos Ribeiro/Miguel Pancrácio). Esta última música tem um história interessante. Era cantado por volta de 1968 e 1969 na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel e se espalhou por várias outras quadras, como a União da Ilha. Foi nessa última que Adelzon escutou pela primeira vez. Impressionou-se e colocou-o no disco, convertendo-o no primeiro grande sucesso da cantora.

O disco vendeu cerca de 24 mil cópias, segundo a gravadora. Há quem afirme que teria ultrapassado a marca das 100 mil. Números de vendagem sempre geraram polêmica. Até hoje são uma incógnita. Mas o álbum Clara Nunes tornou-se um marco na carreira da cantora. Vendeu mais do que todos os anteriores. Era um fato. Além disso, trazia a participação luxuosa do maestro Lindolpho Gaya como diretor musical e apresentava uma safra de compositores novos, ideia de Adelzon. 

A reviravolta na carreira funcionou para Clara. Finalmente ela chamava atenção. Finalmente despontava na mídia. Ganhava a crítica. Conquistava o público. A sociedade abraçou, adorou e comprou muito Clara Nunes, ela estourou e veio cantando diferente de todo mundo, o samba. Entrou na parada de sucesso, vendeu discos, as gravadoras levaram um susto. Imediatamente viram a importância da Clara Nunes na mudança do mercado brasileiro. E no universo das gravadoras mulher não vendia discos, até que Clara Nunes chegou e quebrou o tabu!

Nascia a Clara mestiça, com visual que remetia às religiões afro-brasileiras. Clara se dizia umbandista, mas sua ligação com os cultos afros era tão forte e singular que, por várias vezes, ela própria se via confusa diante da definição de sua religiosidade. Vinha do kardecismo, denominava-se umbandista, mas flertava com o candomblé. Clara era tudo. Era uma espiritualista por natureza. Acreditava no poder dos orixás, mas não deixava de lado as orações do catolicismo. Também gostava de ir a missas. Clara era um caldeirão espiritual. Era a legítima brasileira, absolutamente sincrética, que batia cabeça e cantava ponto em terreiro, acendia velas para as almas, tomava passe em centro de mesa branca, comungava em igreja católica e se ajoelhava para rezar o Pai-Nosso ou a Ave-Maria diante da imagem de Nossa Senhora.



Referência Bibliográfica. Trechos do livro: FERNANDES, Vagner. Clara Nunes: Guerreira da Utopia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 320 p.



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