Henrique Cazes

Tárik de Souza

Jornalista e crítico musical

Supersônicas

O samba absurdo de Rodrigo, Juçara, Amabis e Nuno
por Tárik de Souza

sexta, 14 de julho de 2017

O escritor e filósofo franco argelino Albert Camus (1913-1960), autor do icônico romance “O estrangeiro”, dá samba? Para o compositor e cavaquinista Rodrigo Campos, o músico e produtor Gui Amabis, a cantora Juçara Marçal e o artista plástico e letrista Nuno Ramos, a resposta é um enfático e desnorteante sim. O estopim do projeto “Sambas do absurdo” (YB Music) foi a leitura de “O mito de Sísifo”, de Camus, por Rodrigo (solista dos marcantes “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, “Bahia fantástica”, “Conversas com Toshiro”). Trata-se de um ensaio sobre a falta de sentido da vida, que levaria ao suicídio ou ao enfrentamento do absurdo cotidiano. O dilema inspirou oito composições de Rodrigo (também violão, cavaco, guitarra e voz), apenas numeradas, sem título, no álbum. Elas foram letradas por Nuno (habitual parceiro de Rômulo Fróes e Clima), e receberam arranjos de Amabis (dos álbuns “Memórias Luso/africanas”, “Ruivo em sangue”, “Trabalhos carnívoros”), que também assina teclados, vocais e programações. Integrante de grupos como Vésper Vocal, A Barca e Metá Metá, com Kiko Dinucci e Thiago França, Juçara (do iridescente solo “Encarnado”) interpreta os sambas nada ortodoxos – mas sem dispensar a síncopa e a ginga - do disco, com direito a citação da jobiniana “Águas de Março” (“é pau/ pedrada/ no meu caminho/ um resto de toco/ um corpo sozinho”). Outra letra fustiga: “Dá logo notícia, dá/ me conta do desastre/ diz que o mundo acabou com lábios maquiados”. E outra ainda, “Ei, presta atenção/ um palco é/ a luz qualquer/ um louco, um são, um cidadão/ vem me dizer/ o que ele quer”. 

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