Cultura

Porque entrar em transe com Metá Metá e Bixiga 70

sexta, 13 de abril de 2018

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Não me canso de repetir: quem segue afirmando que "nada de novo/bom é produzido na música brasileira" é porque anda bem mal informado(a). Calma, não quero fazer texto para causar polêmica nem ofender ninguém... é que se no seu cardápio só entram os enlatados-pop internacionais ou os classicões da MPB  sem tirar o valor de nenhum deles  é porque você ainda não se permitiu experimentar os artistas e bandas que compõem o novo cenário musical do país. Alias, você sequer busca novas referências ou simplesmente se deixa 'educar' pelos paladares propostos pelas rádios ou especiais do Domingão do Faustão? Respeito o gosto de cada um e eu mesma consumo as duas vertentes citadas...as reflexões aqui propostas são (1) o quanto estamos abertos/fechados a novas coisas e (2) de onde vêm o que ingerimos? 

Excelentes exemplos do que estou falando são os dois conjuntos contemporâneos e conterrâneos que, pela primeira vez (!), tocaram juntos no Circo Voador (sempre ele!) no último sábado. Metá Metá e Bixiga 70, duas bandas paulistas com muitas afinidades apesar da autenticidade sonora de cada uma, deram um verdadeiro show na Lapa carioca  e olha que eles nem são tãaoo novos assim: Metá surgiu em 2008 e Bixiga em 2010, ou seja, cerca de uma década de palco cada. 

A fila na porta indicava que tinha coisa boa rolando por ali e avançava pela Praça Cardeal Câmara (Largo da Lapa) fazendo fila lá depois das barraquinhas. Teve até um casal gringo que veio me perguntar 'Pra que és toda la gente?', apontando a fileira que se acumulava atrás de mim. 'É show bom de música brasileira no Circo, podem entrar' afirmei com entusiasmo. Os dois se entreolharam, meio que concordando com a cabeça. Ao que ele me replicou feliz e confuso 'Música en Circo? Bueno! Hay animales tambien?'. Esclareci que não era esse tipo de circo...e as risadas distraíram a espera. 

Quando entrei o Metá já estava no palco apresentando a primeira música e a formação com baixo e bateria surpreendeu minha expectativa de ver o núcleo básico '3 em 1' (que é o significado de 'Metá Metá' em yoruba). A sonoridade envolvente, pra cima, logo provocou um remelexo nos quadris e arrancou sorrisos do meu rosto. Impossível ficar inerte àquele som. O instrumental pesado conduzia músicas sem linearidade, progressivas, ora psicodélicas, ora rock n' roll, que levavam a um transe e incluíam até pitadas de caos. A mistura da afro-brasilidade a elementos de jazz era complementada pela interpretação poderosa de Juçara Marçal, que demonstrou pleno domínio do seu instrumento vocal ao acompanhar temas fusion e reproduzir cantos africanos. Fundamental exaltar os talentosíssimos Kiko Dinucci, mestre da guitarra, e Thiago França, que se alternou com talento entre sax e flauta. Ambos com habilidade técnica excepcional, um deleite puro.

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas no palco, pessoas tocando instrumentos musicais e noite

Após um breve intervalo, foi a vez do Bixiga 70. Confesso que originalmente minha ida ao show foi para vê-los... e a promessa se cumpriu. Que som! Seus dez integrantes ocuparam o palco do Circo e preencheram a lona com música da melhor qualidade. A formação do conjunto inclui naipe de metais (Cuca Ferreira - sax barítono e flautim | Douglas Antunes - trombone | Daniel Nogueira - sax tenor | Daniel Gralha - trompete), duas guitarras (Cris Scabello e Mauricio Fleury, que também responde pelas teclas), percussões (Rômulo Nardes e Gustávo Cék) e batera (Décio 7). Assim como o Metá, é até difícil rotular (alias, precisa?) em que eles se enquadram... um som tropical, big band e jazz que passeia pelo carimbó e remete ao afro-brasileiro, mas definitivamente a ele não se limita. As composições também viajam pelo psicodélico e induzem ao transe rítmico, às vezes quase de música eletrônica. Música instrumental para dançar talvez seja a melhor definição! Não é a toa que viajaram em turnê pelo mundo e já levaram o Prêmio Contigo! MPB Brasil de Música em 2012 (Categoria Álbum Independente) e Prêmio da Música Brasileira na categoria Revelação em 2014. E ainda teve participação especial do BNegão no final... É coisa boa, minha gente.

A alegria do público só não era maior pois aquele foi um dia muito marcante para a história política brasileira, o dia da prisão do ex-presidente Lula. O tema foi puxado pela plateia algumas vezes durante as apresentações, entoando em coro o nome do recém-encarcerado. Vários músicos se pronunciaram sobre o caso, deixando claras suas opiniões contrárias à situação pela qual o Brasil passa. O posicionamento que mais me chamou a atenção foi do Thiago França, que sem rodeios e com muita lucidez reforçou a manipulação das informações por parte da mídia, em especial aquela induzida pela Rede Globo. O artista lembrou-nos que enquanto consumirmos exclusivamente o conteúdo produzido por este grupo de comunicação, querendo ou não estaremos limitando nossas percepções e restringindo o entendimento do que realmente acontece. Não sou extrema para assumir o boicote total, mas equilibrada o suficiente para aconselhar fortemente a variação de fontes de informação/cultura e, sempre, a apreciação crítica.

Mas como esta matéria não é sobre política e sim sobre a minha experiência musical, concluo a escrita amarrando isto ao meu tema. A cena musical nacional ferve, e se você só ouve falar de sertanejo, Anitta ou da Pablo Vittar fica confirmada minha suspeita da alienação. Novamente: não estou fazendo juízo de valor e sim usando-os como exemplos de sucessos comerciais. Usei o Metá e o Bixiga como amostras, mas existem muitos outros talentos criando e experimentando por ai. Anelis Assumpção, Negro Leo, Rhaissa Bittar, 5 à Seco, Marina Iris, Vitoru Kinjo e Almério  só pra citar alguns  são nomes que a maioria das pessoas nunca ouviu, mas que estão circulando pelos meios alternativos e fazendo seu próprio caminho independente do seletivo mainstream totalitário que conduz as massas. Buscar referências frescas significa reorientar a rota de ideias e pensamentos que nos são bombardeados diariamente; representa uma flexibilização de postura (tão valiosa diante da bipolaridade inflamada que vivemos) e, quem sabe, uma mudança de visão. Basta experimentar, permitir-se. Não é necessário abrir mão dos seus pratos favoritos, sejam eles tradicionais ou requentados. Tal como aconselhamos as crianças a sempre provarem um alimento diferente, convido-os a uma degustação de outros sons. O novo menu musical brasileiro é longo e traz sabores para todos os gostos. Você pode se surpreender.



Aonde descobrir as sugestões do dia? #Ficaadica do IMMuB.org: além do maior catálogo digital da música brasileira, o portal traz matérias, vídeos e quase diariamente notas de um dos mais respeitados críticos musicais do país, Tarik de Souza. Tudo grátis.

 

Links legais:
http://metametaoficial.com.br/
https://www.bixiga70.com.br/
http://thiagofrancaoficial.blogspot.com.br/


Texto de Luíza Carino, Produtora cultural e diretora executiva do IMMuB


Fotos de Bê Lima

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