Cobertura IMMuB

Potências negras caramelizadas no Crespo Festival – edição Rio 2018
Por: Luiza Carino

segunda, 03 de dezembro de 2018

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No sábado 24 de novembro fui cobrir a 1ª edição do Crespo Festival, um evento disposto a apresentar sonoridades e influências rítmicas de origem que representam, ainda que parcialmente, a cultura negra. O inédito Crespo Festival proporcionou a reunião de grandes nomes da música brasileira, moçambicana e haitiana ao longo de dois dias: a primeira noite em São Paulo (Tropical Butantã), e no dia seguinte chegou ao Rio, encrespando o palco do nosso parceiro Circo Voador. Segundo a anfitriã da noite, Monique Evelyn, esse tipo de celebração é um necessário empoderamento da identidade afrodescendente, uma ocupação importante de artistas negros e a conexão com cantores e compositores de outros países. Faço dessas minhas palavras e oportunamente aponto a justa homenagem que o IMMuB fez ao Soul Brasileiro nesse mesmo mês para vozes, discos e artistas que integram o movimento – e que são majoritariamente negros.

A noite começou com Giovani Cidreira, confesso que até então desconhecido para mim. O Circo ainda estava enchendo e senti que a equalização do som ficou um pouco prejudicada por isso. Mas qual não foi minha surpresa bastante positiva com a voz e performance do cantor. Acompanhado por percussão, baixo, guitarra, bateria e sax, Giovani apresentou canções do seu disco Japanese Food (2017|Selo Balaclava), patrocinado pelo Natura Musical, como a autoral Festa de Judas (em parceria com Paulo Diniz) e Eu não presto, de Caio Araújo. Natural de Castro Alves (BA), o cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista lançou seu primeiro EP, homônimo, em 2015 e foi logo premiado: a faixa Ancohuma recebeu o Prêmio de Melhor Música com Letra no Festival de Música da Educadora FM; e por Trem de Outra Cidade recebeu o Prêmio de Melhor Intérprete no Prêmio Caymmi de Música. Na sequência vieram os singles Crimes da Terra e Vai Chover (ambos 2017). “A Bahia sem dendê”, segundo Tarik de Souza neste review (link). Enfim, uma feliz descoberta musical com sonoridade própria e autenticidade que convida a uma exploração mais aprofundada.

Na sequência veio a moçambicana Selma Uamusse, com sua voz potente e por vezes quase lírica. Selma trouxe músicas com várias referências instrumentais africanas, embora sua sonoridade vocal transitasse bem entre o jazz, o soul e o rock. Acompanhada por xilofone/berimbau, baixo e bateria, as músicas foram cantadas em dialeto de Moçambique (changana) e inglês e trouxeram temas espirituais e da natureza, união e esperança, conforme explicado pela cantora em português (de Portugal), local onde foi criada desde os 6 anos de idade. Selma já criou uma banda de soul (Soul Divers) e um ensemble jazz onde cantou Billie Holiday e Nina Simone, além de integrar formações de diversos estilos musicais, como a Wraygunn, indo do gospel aos blues. Recentemente lançou seu disco solo, Mati (que significa água em changana), uma porta aberta para a cultura de Moçambique, rica e forte em ritmos agitados e dançantes. Bastante carismática, a artista envolveu a plateia com danças e palmas. No meio do show chamou um fã ao palco e depois desceu pra dançar em meio à plateia, sem vacilar na potência e afinação.

Mas a estrela da noite sem dúvidas foi a Liniker e os Caramelows, com sua mistura de R&B e soul que superou minha expectativa para aquele evento. A super jovem banda (formada em 2015) é uma das melhores representantes da nova geração musical do Brasil e despontou no cenário nacional após o lançamento do EP Cru, que trouxe grandes canções como Zero, Louise du Brésil e Caeu, por exemplo. O projeto conecta a black music à música contemporânea brasileira, com composições autorais que trazem como tema central as relações e o amor. Dona de uma voz poderosa, no timbre grave e levemente rouco típico dos artistas de soul, Liniker entende seu corpo como corpo político e não tem medo de revelar no palco a forma como se veste e caracteriza diariamente. Sua estética visual desconstrói os padrões de gênero e bagunça por onde passa.


“As pessoas precisam saber que eu sou negro, pobre e gay e posso ter uma potência também. Sou um artista que se expressa assim. Então, se você está aí, se sente reprimido e tem vontade de colocar seus demônios para fora, mostrar quem você realmente é, coloque-se. Esse é um dos meus maiores desejos como artista desta geração.” afirmou a própria em resposta para reportagem de El País de novembro de 2015.

Aliás, desde então o grupo vinha circulando com shows por todo o país e em turnê exterior com o disco Remonta, álbum de estreia e fruto de financiamento coletivo. A participação no Crespo era justamente a despedida desse ciclo.

Houve a participação especial de Anelis Assumpção, que revelou uma bela sinergia com o grupo. Filha do falecido cantor e compositor Itamar Assumpção, Anelis representa o espírito livre de amarras da vanguarda da música de São Paulo, bem como o toque de originalidade que ela herdou de seu pai. Poetisa e perspicaz, lançou esse ano seu terceiro álbum, Taurina, para o qual buscou inspiração na sua própria selva de pedra, SP, e nos alimentos de todos os tipos que prepara em alquimia na sua cozinha.