Henrique Cazes

Tárik de Souza

Jornalista e crítico musical

Supersônicas

Richard Serraria transforma tese em disco, “Mais tambor menos motor”

sexta, 13 de abril de 2018

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Poeta, músico, cancionista porto alegrense, fundador da Bataclã FC (1997) e Alabô Ôni (2012), Richard Serraria, doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, lança sua tese em forma de disco, Mais tambor menos motor. Ela prega uma Educação pela Canção, utilizando a poesia na letra de música como ferramenta de aprendizado.

Em seu quarto disco solo numa carreira de 20 anos, agraciada por cinco Prêmios Açorianos de Música no RGS, Serraria produziu de forma artesanal seu disco/livro/objeto, que coloca o tambor de sopapo em primeiro plano, referência da cultura negra da região. O CD vem numa caixa de fósforos “cartoneira”, feita com papelão recolhido pelos artistas de rua.

Resultado de imagem para Richard Serraria Mais tambor menos motorFonte da imagem: Capa do Box "Mais tambor menos motor", Richad Serraria | Reprodução

“No ateliê, ele é cortado e montado a partir de um projeto editorial inovador, que reúne, além da literatura outras linguagens estéticas como as artes gráficas, pintura e modelagem. O interior da capa é propositalmente deixado cru, sem pintura, para revelar o material de que é feito. A lombada é costurada a mão, uma a uma. Não é um objeto de linha de produção. É uma obra de arte única, que vem carregada da energia criativa, criadora e transformadora do artista”, diz o texto de introdução do livro/disco.

Nele, além das letras, há um passo a passo para a montagem de um tambor de sopapo, o instrumento que pontua todas as faixas, do candombe (uruguaio) ao samba, reggae, fado, idjexá, funk e o rap, como “Palavra gota de sereno” (de Serraria e Ângelo Primon): “a vida é assim, tim tim por tim tim/ às vezes redenção, noutras vezes bom fim/ o tambor é meu pastor, de lei, eu sei”. No cadenciado “Um bonde chamado desejo”, mais dicotomias: “Tu era fome, enquanto eu era vontade de comer/ eu era pingo, excesso na conta de mágoa/ tu era enchente que a chuva inundava/ eu fazia poesia das tripas/ tu vendia coração a quilo na promoção”. Também há espaço para o lirismo, na etérea “Oceanoserpentear”, onde a cuíca no beat box aclimata-se ao contraste do ritmo da caixa de fósforos com bandoneon. “Nega ciclone” tem percussões cubana, brasileira e uruguaia e mastigação de poesia. O denso “Cabelo pixaim” (com direito a um trecho extraído da obra de Gilberto Freyre, “Casa grande e senzala”) conjuga guitarras pesadas e percussão avassaladora. No “Livro do desassossego” desliza uma balada soul com aveludado backing vocal e arranjos vocais de Tonho Crocco (Ultramen), um dos ilustres convidados da cena gaúcha do disco, ao lado de Zé Caradípia (autor do clássico “Asa morena”), Marcelo Delacroix, Zumbira Silva,  Ângelo Primon, Dany Lopez, Lucas Kinoshita, Mimmo Ferreira e Nario Recoba. 


Fonte da imagem: Facebook | Reprodução

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