DeusaMúsica - Um olhar relativo sobre discos absolutos

Roberto Carlos (1971)

terça, 15 de maio de 2018

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Em 1971 o maior vendedor de discos da época lançava o quarto LP intitulado “Roberto Carlos” que integraria uma série de títulos-clone que até a segunda década do novo milênio chegaria a mais de 30. Não obstante, os contemporâneos Irmãos Valle já terem alertado no ano anterior ser melhor não confiar em ninguém com mais de 30 anos, ternos, conselhos, etc. – não havendo referência a discos com o mesmo nome, Roberto optaria carreira à fora pela segurança quase patológica da repetição da fórmula.

O veio romântico “descoberto” em “O Inimitável” (1968), amadurecido no disco de 1969 (“Roberto Carlos”) e embalado para (longa) viagem no ano zero década de 70 no terceiro disco com seu nome, este “Roberto Carlos” de 1971 resplandece ainda como uma relíquia da fase em que na escolha do romantismo havia uma manifestação sincera, consequente e natural da expressão do espectro artístico de Roberto Carlos. Ele e o romantismo, como reflexo íntimo do ser brasileiro, passariam ali a serem a mesma “pessoa”.  

Se fôssemos selecionar como clássico esse disco simplesmente por conter a canção “Detalhes” - uma espécie de “carteira de identidade musical” do capixaba Roberto Carlos Braga - já seria uma escolha indiscutível. A canção tem esse poder. Na forma ela invade com ternura e dedo em “v” o território do bolero para dar propriedade definitiva ao Rei de sua sequência harmônica mântrica. Arejada por flautas com bordados neohippies sobre um tapete elegante de cordas, xilofone e piano escritos pelo arranjador americano Jimmy Wisner; em lugar de bongôs e bigodes, o arranjo revigora o formato passando ao largo do machismo passional latino. A letra teve o mérito de colocar no topo da cena popular onde seu intérprete já transitava livremente, um novo perfil de amante masculino repaginado pelos movimentos de paz, amor, liberdade e de afirmação dos direitos femininos do final da década de 1960. A bordo do vórtice afetivo gerador de suas estrofes, os homens brasileiros passariam a considerar a possibilidade concreta e “prafrentex” de desamarrar sem culpa seu “Roberto” interior que até então se resguardara. O gigantesco sucesso da canção colocou em cima da cama a alternativa da compreensão em mão dupla no relacionamento do casal e propôs diminuir a atenção no todo e aumenta-la nos detalhes tão pequenos que o compõem – uma característica exclusiva até então da alma feminina. Roberto, quase que inconscientemente, começa ali uma revolução de costumes e como um monarca generoso perdoa os resquícios de imperfeições machistas como até os erros de um Português ruim. Afinal, como a canção que Roberto e Erasmo entregariam no ano seguinte a Agnaldo Timóteo, no cinema ou na música pop, “Os brutos também amam”.

Mas no álbum havia muito mais do que apenas detalhes. Do recanto de onde vem a luz do grande intérprete que já era Roberto Carlos naquele começo de década, surgem a bela “A namorada” de Maurício Duboc – autor que estaria presente ainda em outros discos do Rei – e de Carlos Colla, que ao longo de sua carreira filiar-se-ia ao segmento da música (super) popular brasileira por sua veia incontrolável de hitmaker. A música já exibe na forma algo que passaria por décadas sendo o escopo de canção romântica ao qual RC se dedicaria esquivando-se intencionalmente da ousadia. Ainda sob a luz de canções de outros compositores há “Você não sabe o que vai perder” do blue cap Renato Barros que mata as saudades da Jovem Guarda com um delicioso charleston-rock ao mesmo tempo provando que o lugar ideal para o gênero já seria mesmo àquela altura, na distância nostálgica. Roberto interpreta também “Se eu partir” do veterano Fred Jorge – uma amarga canção que, ainda que esteticamente tenha a forma da balada romântica moderna com seu aro de bateria marcando os compassos e o coração do amargurado ouvinte - esbarra no universo emocional lírico da geração anterior à sua, de partidas definitivas de homens desprezados abandonando o lar. O que não deixava de ser um primeiro sintoma do envelhecimento precoce de um cantor com apenas 30 anos.

Como fecho de ouro (negro) das canções não autorais do álbum, aparece Getúlio Cortes. É interessante notar que mesmo sendo ele o autor de “Negro Gato”, canção de unhas cravadas na Jovem Guarda, dos autores do movimento foi o que manteve infinita a data de validade de suas obras. “Eu só tenho um caminho” salta do repertório com um vigor inimitável que só poderia inspirar-se mesmo na injustiça apontada contra o negro no país camuflada pelo abandono afetivo na canção. O fato de esta vir, propositadamente antes de uma canção gospel, acaba forçando seu caminho na direção do universo da opção religiosa, mas vale pensar nela como um grito de revolta pois isso potencializa o discurso do grande autor que é Getúlio Cortes. De “Negro Gato” à Pantera Negra, movimento étnico americano contemporâneo, nota-se que embora sua versatilidade de intérprete o adequasse ao megafone coletivo, a imagem de bom moço acabaria por definitivamente fazer o Rei alienar-se das misérias de seus súditos acastelando-se na apolítica como procedimento padrão de sobrevivência.   

Tanto “Eu só tenho um caminho” quanto “Todos estão surdos”, a segunda como primeiro tema cristão composto imediatamente após “Jesus Cristo” por Roberto e Erasmo, abaixo-assinavam ainda o compromisso de RC com um pop sessentista vigoroso que, por menos tempo do que gostaríamos, também representou. Da embalagem da faixa 7 para seu (divino) conteúdo, pode-se dizer que se “Jesus Cristo” publicava a prontidão do artista para a mensagem evangélica, “Todos estão surdos”, por sua vez, parte para o ataque panfletário reutilizando o mesmo palanque da faixa anterior para esfregar na cara do maior país católico do planeta, o óbvio. Ao repaginar a vinda do Messias segundo a ótica revolucionária da prática do amor incondicional, fazia involuntariamente com que os filhos do desbunde encontrassem paralelos claros entre os cabeludos Jesus e Guevara.

“I love you” talvez seja a que menos tem a dizer num disco que pelo acúmulo de significados e grandes canções marca a entrada de Roberto no clube do milhão de cópias que, junto com a face comercial sórdida do Natal, o escravizaria pelo resto da vida. Seria no máximo de sua potência um “When I´m sixty-four” brazuca que brinca com a estética ford-bigode sem grandes pretensões além de uma curta e limitada piadinha de salão.

O mesmo não acontece com “Traumas”. Nela, o cantor revisita a dor, a inocência e a relação paterna da criança abandonada pelo Rei da Juventude nos flamboyants do pequeno Cachoeiro do Itapemirim. Ao mesmo tempo em que contextualiza a psicanálise para o povão, a canção fere fundo a meninos de qualquer idade que sofreram sob o carinho possessivo da superproteção paterna ou até mesmo pela sempre sentida ausência dessa figura na formação do modelo masculino. Novamente, como fizera em “Detalhes” em seu subtexto Roberto e Erasmo revelam a fragilidade masculina em contraponto à necessidade imperativa e cruel do homem-fortaleza impermeável ao sofrimento. Chorar catarsicamente ou correr para os braços do analista é o que nos resta depois de ouvi-la.

“De tanto amor” e “Amada amante” são joias de um romantismo roots ainda vacinado contra o populismo que batia à porta empacotado na mistura das obrigações do soberano para com seu povo e da neurose de perseguição e repetição do sucesso. “De tanto amor” arrancou para a galeria das canções românticas inesquecíveis encabeçando a trilha do filme Roberto Carlos a 300 KM Por Hora de Roberto Farias que dirigiu o tocante clipe-fantasia sonorizado pela canção. Por mais que nos pareça quase patético hoje pelo fôlego ainda mais limitado da produção cinematográfica brasileira em 1971, vale à pena rever a cena que hipnotizou o Brasil e ajudou a montar a imagem do apaixonado sensível, intenso, abandonado e, consequentemente, triste que até hoje compõe a imagem do mito Roberto no inconsciente nacional.

Reza a lenda que “Amada Amante” teria sido composta dos autores siameses Carlos para Nice, a garota com quem Roberto Carlos se casara na Bolívia em 1968 driblando o obstáculo jurídico e social do fato de ser ela uma mulher desquitada – uma pecha ainda pesada naquela sociedade em mutação. Transformar em canção o empecilho preconceituoso que tornara sua amada uma “amante”, acabou por capturar a todos: homens que cultivavam relacionamentos paralelos a casamentos infelizes, sucumbiam mortalmente feridos junto às mulheres envolvidas neste triste roteiro que não poderia incluir ainda o divórcio do Deputado Nelson Carneiro em seu script. Prostitutas e deserdados do amor de todos os quilates se juntavam também àqueles que viam em suas namoradas e esposas potenciais fantasias sexuais reprimidas, davam-se às mãos nesse coral. Uma grande canção motivada por questões íntimas que se plugava na catarse coletiva como quase tudo na obra - em múltiplos detalhes - redentora, do Rei Roberto Carlos.

E o que dizer da pintura em tela branca por pincéis marrom-castanhos da capa? Talvez uma auto-gioconda intuitiva retratando a distância que ainda guardava da monotonia azul onde suas capas e obra passariam por décadas a pairar. No entanto, nada chega perto da beleza e do gigantismo emblemático da “troca de flâmulas” entre Roberto e Caetano proporcionada pela gravação de “Como dois e dois” - dada inédita por Veloso ao Rei em sua famosa visita ao deportado em Londres. E esta em um elo quase invisível para o grande público que sequer se dava conta da expulsão de Gil e Caetano sob a barra autoritária do ano de 1969, há a carta-homenagem ao exilado baiano contida em “Debaixo dos caracóis de seus cabelos” composta por Roberto e Erasmo. O encontro dessas correntes estéticas é um acontecimento musical de retumbância histórica que coloca o disco no centro da mais perfeita tradução da alma brasileira feita pela canção e definitivamente entrona o disco e “a quem chamamos de Rei”, como disse Caetano, acima do bem e do mal.


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