Henrique Cazes

Henrique Cazes

Músico e professor da Escola de Música da UFRJ

Um papo com o Cazes

Villa, Guerra & Radamés

terça, 10 de abril de 2018

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Ao reler um trecho do magnífico livro "Noel Rosa, uma biografia" de João Máximo e Carlos Didier, me deparei com a descrição da ida de Villa-Lobos a Mangueira, em torno de 1933. 

"Cabeleira farta, charuto fumegante, foi logo perguntando:

- A senhora sabe onde posso encontrar um moço chamado Cartola?

(....) O maestro é um sonhador. Quer que o erudito e o popular se entrelacem. Vem dai? sua ligação com Cartola, o próprio Villa-Lobos indo à Mangueira para reger uma centena de crianças do morro no Canto do Pajé e pedindo sua ajuda como "diretor de harmonia". Conversam, ficam camaradas. E embora a cidade vá levar muito tempo até saber exatamente quem é esse tal de Cartola que Francisco Alves descobriu, Villa-Lobos percebe-o logo. (....)

Cartola ganha de Villa-Lobos um diapasão de boca. Aprende com ele a usá-lo,

convencido mesmo de que pode tornar mais afinado e harmonioso o coro das pastoras da Mangueira. Noel chega no morro e encontra o amigo compenetrado à frente das meninas, todas elas arrumadinhas, em fileira, e o sambista soprando o seu diapasão.

-Foi o maestro Villa-Lobos que me deu - explica orgulhoso.

É mesmo Cartola quem aproxima Noel do compositor. E a pedido deste, o sambista de Vila Isabel passa a ajudar o da Mangueira a ensaiar o coral do morro."

Essa pequena passagem que reúne três gênios cariocas, de diferentes universos e que se encontram muito simbolicamente na Mangueira, nos dá uma pista de porque a música brasileira daquele momento foi tão rica, tão forte. Onde será que nos perdemos? Quando foi que a chamada "música culta" ou os pretensos "cultos da música" pararam de perceber o que acontecia em volta? 

Em 1968 ainda havia uma ligação entre esses universos. Guerra-Peixe, o maestro musicólogo, compositor extraordinário, deu aulas para sambistas selecionados entre os jovens talentos das alas de compositores das escolas de samba no MIS do Rio. O sambista indicado pela Mocidade foi Wilson Moreira e, depois de ouvir admirado as melodias de Wilson, o maestro disse pra ele não estudar, pois o que fazia era tão livre que certamente perderia a força espontânea com o estudo. Incrível, não é? 

Radamés Gnattali foi outro que enxergou com nitidez o valor dos sambistas e optou por musicar dois filmes de Leon Hirszman a partir de temas de Nelson Cavaquinho ("Luz" negra" em "A falecida") e Adoniran Barbosa ("Eles não usam black-tie" no filme homônimo). Dizia Radamés, com a maior naturalidade, sem bravata, que considerava as "canções" feitas por Cartola mais bem resolvidas que a maior parte das obras de autores eruditos brasileiros no campo vocal. Escreveu ainda um Concerto para piano e orquestra sobre temas de Noel Rosa e colocou o piano e a orquestra de cordas junto da batucada no antológico "Samba em três andamentos". 

O exemplo desses heróis da vida real, que sabiam para onde olhar e prestavam a atenção ao talento de verdade, pode ser uma chave para juntarmos os pedaços de nossa música, para termos um futuro. Ou será tarde demais?


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