Henrique Cazes

Henrique Cazes

Músico e professor da Escola de Música da UFRJ

Um papo com o Cazes

Virtuosismo e requinte: os 80 anos de Joel Nascimento
por Henrique Cazes

quarta, 11 de outubro de 2017

Há uma tensão constante entre esses quesitos que abrem o título dessa coluna. Quase sempre, no campo da música popular, o virtuosismo é identificado pela velocidade, a capacidade de execução em andamentos muito rápidos e muitas vezes essa velocidade sacrifica radicalmente o acabamento, o requinte. Equilibrar esses itens é um desafio que os solistas encaram e que muitas vezes os dividem. Lembrei desse tema e de tantas conversas a respeito com Rafael Rabello, Radamés Gnattali, Chiquinho do Acordeom, Paulo Moura e outros craques, em que se pesava na balança o controle sobre a qualidade do som e do acabamento do que se toca, versus o fascínio do público diante de uma manobra de velocidade. A discussão continua atual e, especialmente no universo do choro, continua dividindo concepções.

Vejamos o caso do bandolim brasileiro até meados do século XX. Tivemos dois destaques que representavam bem a tendência a um ou outro tópico. Luperce Miranda tocava em alta velocidade mas não dava muita atenção ao acabamento, resultando quase sempre rústico. Jacob do Bandolim pelo contrário, tinha obsessão pelo bom acabamento e por isso mesmo nos legou uma discografia preciosa, referência definitiva na interpretação do choro. Para juntar esses dois pedaços e preparar o bandolim brasileiro para o século XXI, uma figura foi fundamental: Joel Nascimento (Joel do Nascimento, Rio de Janeiro, 13 de outubro 1937).

Antes do bandolim torná-lo famoso na década de 1970, Joel foi um aplicado estudante de piano clássico, um apaixonado pelo instrumento, que teve de abandonar em função da perda de audição no ouvido direito, por volta dos 20 anos de idade. Só que a paixão pelo clássico, a preocupação com acabamento e expressividade, não desapareceu e conseguiu se equilibrar em doses perfeitas com a experiência da música popular aprendida informalmente. Esse aprendizado se deu tocando cavaquinho em conjuntos regionais e acordeom no "Joel & Seu Ritmo", conjunto que embalou muitos bailes dos subúrbios da Leopoldina na virada das décadas de 50 e 60.

Joel ganhou seu primeiro bandolim aos 32 anos e se tornou músico profissional aos 37. Demorou mas chegou com tudo. Primeiramente, lançou quatro Lps primorosos: Chorando pelos dedos (1976), O pássaro (1978), Meu sonho (1979) e Tributo a Jacob (1980). Depois, à frente da Camerata Carioca, colaborou decisivamente para a modernização dos grupos de choro, injetando neles acabamento camerístico e novas possibilidades de arranjo. Em 1985, em seu último ano de produtividade, Radamés lhe dedicou um belíssimo Concerto para Bandolim e Cordas, celebrando não só a amizade e admiração entre os dois, mas também a volta de Joel à música de concerto. Uma história perfeita. 

Prestes a completar oitenta anos, Joel Nascimento continua no mesmo subúrbio da Penha Circular onde nasceu, vivendo com a simplicidade dos sábios. É considerado o maior intérprete vivo do Choro e uma perfeita combinação de virtuosismo e requinte.


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