A música popular na república

“Vai passar II”: Do Golpe ao AI-5

quinta, 31 de janeiro de 2019

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Depois da decretação do AI-5, o regime fechava todas as frestas possíveis para a passagem de qualquer vento crítico, qualquer sopro de liberdade. A repressão sufocava e desmontava os aparelhos (esconderijos) dos grupos militantes com muita rapidez, usando o serviço de inteligência e a tortura como caminhos para obter informações. 

Militantes políticos passariam a ser torturados, no decorrer dos anos de chumbo, com choques elétricos, “cadeira do dragão”, “telefones”, “pau de arara” e outras técnicas que a ditadura iria implantar – todas as mulheres presas, de certa forma, sofreram algum tipo de violência sexual. O Presidente podia fechar o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras de Vereadores; intervir diretamente nos governos estaduais e municipais; aposentar funcionários públicos (inclusive juízes e militares), transferi-los ou demiti-los; restringir as liberdades individuais; suspender a garantia de habeas corpus; cassar os direitos políticos de qualquer cidadão e os mandatos de deputados estaduais, federais e vereadores. Aí a coisa ficou feia demais... 

Os próprios festivais iam aos poucos perdendo espaço na TV. No primeiro festival da TV Record, depois do AI-5, o compositor Paulinho da Viola ainda conseguiu cantar, mesmo com o “Sinal fechado”

Tanta coisa que eu tinha a dizer, 
Mas eu sumi na poeira das ruas. 
Eu também tenho algo a dizer, 
Mas me foge à lembrança. 

Os mandachuvas da ditadura muitas vezes se atrapalhavam com as informações que recebiam. Foi numa confusão dessas que Caetano Veloso e Gilberto Gil acabaram na prisão e depois no exílio. Suas apresentações contavam com um cenário inovador, produzido pelo artista plástico Hélio Oiticica, que incluía, por exemplo, uma faixa com a inscrição “Seja marginal, seja herói!”, sobre a imagem do cadáver de um bandido famoso na época, “Cara de Cavalo”. Um juiz já havia ficado estarrecido com o cenário e cismou ter ouvido os baianos zombando do hino nacional brasileiro. O que ele escutou, na realidade, foi um trecho do hino francês, “A marselhesa”. Há tempos alguns militares já queriam colocar os tropicalistas na cadeia, e a versão do hino nacional, somada a um cenário subversivo, foi o pretexto ideal. Caetano e Gil amargaram dois meses de prisão. Quando saíram, aproveitaram a “dica” da repressão para tirar umas “férias”. Antes de partir, Gil deu “Aquele abraço” nada saudoso no bairro carioca de Realengo, onde ficava sua prisão: 

Alô, alô, Realengo, 
Aquele abraço!
Alô, torcida do Flamengo, 
Aquele abraço! 

O governo Médici ainda incentivou o ufanismo com várias campanhas institucionais. A mais conhecida tinha como slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O crescimento econômico do país animava os defensores do regime. Em 1970, a conquista da Copa do Mundo no México, com Pelé, Gérson, Tostão, Carlos Alberto Torres e companhia, incrementou o nacionalismo. Bandeiras verde-amarelas pelas ruas, o povo comemorava, o presidente comandava o Brasil que “ninguém segurava” e “ia para a frente”. Esses anos foram fartos de músicas cheias de euforia nacionalista: 

Eu te amo, meu Brasil, 
eu te amo.
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil. 
Eu te amo, meu Brasil, 
eu te amo.
Ninguém segura a juventude do Brasil. 

Ao lado de “Eu te amo, meu Brasil”, de Dom, interpretada pelo grupo Os Incríveis, também havia a popularíssima “Pra frente Brasil”, de Miguel Gustavo, que louvava a seleção canarinho:

Noventa milhões em ação, 
Pra frente Brasil,
Do meu coração.
Todos juntos, vamos, 
Pra frente Brasil 
Salve a seleção! 

A vitória da seleção não acalmou as ruas. Alguns estudantes, operários, militares, religiosos, camponeses e intelectuais ligados a diversos grupos de esquerda passaram a enfrentar o governo de armas na mão, partindo para a guerrilha rural e urbana. Eles não imaginavam que estavam caindo num inferno. Os “guerrilheiros” realizaram assaltos a banco para viabilizar as organizações e sequestros de representantes diplomáticos com o objetivo de denunciar a tortura e libertar companheiros presos. Em janeiro de 1971, o governo soltou setenta presos em troca do embaixador suíço Enrico Bucher. O líder da operação era conhecido como “Paulista”, nome fictício de Carlos Lamarca, oficial de destaque no Exército. Sérgio Ricardo compôs a música “Tocaia” em homenagem ao capitão Lamarca: 

Não era noite nem dia,
Era um tempo sem cor nem hora. 
Tocaia, tocaia, tocaia.
E Lamarca, à traição,
Cravado por mil centelhas. 

O desaparecimento do militante político Stuart Angel virou um dos grandes escândalos da ditadura. Sua mãe, Zuzu Angel, era uma reconhecida estilista brasileira. Zuzu iniciou uma cruzada atrás de seu filho. Quando soube que ele estava morto, reivindicou o direito de enterrá-lo. Sua luta para sepultar o corpo de seu filho e denunciar as atrocidades da ditadura fez com que ela realizasse a primeira coleção de moda politizada da história. A estilista acabou assassinada em 1976, quando saía do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, e seu carro foi jogado para fora da estrada. 

Alex Polari de Alvarenga, que ficou preso com Stuart, afirmou ter visto da janela de sua cela o militante ser amarrado na traseira de um jipe e arrastado pelo pátio do quartel da Aeronáutica, com a boca aberta, presa ao cano de escapamento do carro. Foi o fim de Stuart. Os compositores Chico Buarque e Miltinho expressaram em “Angélica”, a luta da mãe Zuzu Angel para encontrar o corpo do filho: 

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho? 
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar.


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