A música de

Como antigamente. A trajetória de Martinha
Por Daniel Lopes Saraiva

quarta, 12 de agosto de 2020

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A Jovem Guarda foi um movimento musical brasileiro derivado de um programa homônimo que estreou na TV Record em 22 de agosto de 1965. A mistura de rock e pop capitaneada por três apresentadores - Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa – foi explosiva. Parte da juventude brasileira começou a consumir massivamente produtos vinculados ao programa: roupas, álbuns de figurinhas, bonecos e, claro, os discos dos apresentadores e dos(as) artistas convidados(as). Mesmo cantores(as) que não eram contratados da Record, com o tempo, foram associados ao movimento da Jovem Guarda, como os casos de Jerry Adriani, Eduardo Araújo e Sylvinha, que tinham programas em outras emissoras e, portanto, não se apresentavam de forma recorrente na Record. Ronnie Von, apelidado de “O príncipe”, tinha seu próprio programa na TV Record, que ainda contava com Os Mutantes eLeno e Lilian no elenco e, mesmo assim, foi associado à Jovem Guarda, tamanha foi a plasticidade adquirida pelo movimento. A lista de artistas ligados(as) a esse histórico movimento musical por público e crítica é extensa.

Ao pesquisar o tema da Jovem Guarda nas narrativas midiáticas dos anos de 1960, Eleonora Zicari Costa de Brito afirma que a Jovem Guarda representou um importante canal de expressão de anseios juvenis e ajudou a configurar o universo imaginário de parte desses grupos no Brasil. A historiadora ressalta que o movimento era considerado alienado por uns, enquanto para outros a Jovem Guarda era um símbolo de “rebeldia”, a depender do lugar de fala do(a) enunciador(a) (BRITO, 2013). 

Durante um tempo, a Jovem Guarda antagonizou artistas que futuramente seriam vinculados(as) à MPB. Chamada de alienada e conservadora, e acusada de ter um cunho excessivamente mercadológico, artistas que faziam parte da Jovem Guarda foram duramente criticados(as). Por outro lado, o movimento também foi desqualificado por setores conservadores por serem “modernos” demais, seja nas roupas ou no comportamento constantemente ligado à transgressão. No interior dessa “batalha” que marcou a década de 1960, artistas seguiam suas trajetórias buscando espaço na vida artística. Como afirma Marcelo Fróes no livro "Jovem Guarda em Ritmo de Aventura", ainda que tenha existido por um período curto, entre 1965 e 1968, a Jovem Guarda semeou uma infinidade de talentos nas diversas tendências que surgiram na cena musical brasileira (FRÓES, 2000). 

Embora o movimento tenha sido formado majoritariamente por homens, algumas cantoras fizeram sucesso e tiveram destaque dentro do grupo como Wanderléa, Rosemary, Vanusa, Lilian e Waldirene. Todas elas são constantemente lembradas quando falamos de Jovem Guarda. Outra artista que fez sua estreia artística no programa da TV Record foi Marta Vieira Figueiredo Cunha, a Martinha. Apelidada de “Queijinho de Minas”, a mineira de Belo Horizonte nasceu em 1947. Ainda na infância estudava piano clássico e frequentava aulas de balé. Apesar de ter se interessado inicialmente pela música clássica a Jovem Guarda foi ganhando destaque em sua vida.

A cantora e compositora Martinha (Foto: Reprodução)

Durante entrevista para o site A Música de.  História Pública da Música do Brasil, Martinha narrou como foi o início da carreira. Dona Ruth, sua mãe, a pedido da filha e com ajuda de um amigo que era divulgador da gravadora CBS em Minas Gerais, marcou um encontro entre Martinha e Roberto Carlos para que ela cantasse para o artista. A cantora se lembra daquela data até hoje, foi no dia 06 de junho de 1966. O programa Jovem Guarda já era um sucesso e Roberto Carlos um ídolo nacional. No encontro, Roberto Carlos ouviu a mineira e resolveu ajudá-la. Falou para Dona Ruth que elas deveriam ir para São Paulo. E foi o que elas fizeram algum tempo depois. De ônibus, foram até a TV Record. Depois de algumas conversas na emissora, ficou decidido que Martinha faria sua estreia no programa Jovem Guarda. Não era comum fazer sua iniciação artística no programa, frequentemente os(as) cantores(as) que participavam já tinham uma carreira em andamento. Não foi o caso de Martinha e, por isso, podemos dizer que ela nasceu artisticamente naquele programa dominical. Depois de resolverem detalhes sobre quando seria a apresentação, mãe e filha voltaram à Belo Horizonte e foi nesse exato momento que Martinha compôs a canção "Barra Limpa", uma homenagem ao cantor que a estava ajudando tanto e que, a partir daquele momento, se tornaria um amigo. Inicialmente, Martinha passou a se apresentar no programa Jovem Guarda como convidada a cada duas semanas e ainda morava ainda em Belo Horizonte. Pouco tempo depois, a artista foi contratada pela TV Record e, além de participar de outros programas musicais, apresentou o Jovem Guarda até sua última transmissão. 

Martinha e Roberto Carlos nos tempos da Jovem Guarda (Foto: Acervo Newton Araújo/Reprodução)

Além de intérprete, Martinha logo ganhou destaque como compositora, algo que não era usual na época. Apenas na década de 1970 haverá um boom no número de compositoras, com as estreias de artistas como Joyce Ângela Ro Ro. Antes disso, a figura forte na música brasileira era a da intérprete, salvo algumas exceções de compositoras como Dolores Duran. Ser compositora era romper uma barreira.

A estreia de Martinha no mercado fonográfico ocorreu em 1967 com o disco "Eu Te Amo Mesmo Assim", lançado pela Rozenblit. A cantora assina sete das doze faixas, evidenciando que o repertório autoral seria a tônica da sua carreira. No ano seguinte lançou o disco "Martinha" pela mesma gravadora e também com sete canções autorais, entre as quis "Eu Daria Minha Vida". Entre os anos de 1969 e 1972, a cantora lançou quatro Lp´s pela gravadora Copacabana, todos levando seu nome e com um repertório predominantemente autoral. Em relação às gravações de outros artistas, no disco de 1969 há a canção "Escuta" de Antônio Marcos, no disco de 1970 destaca-se "Luz de Amor" de Johnny Alf, e no disco de 1971, Martinha gravou a composição de Tom Zé, "Silêncio de Nós Dois". A gravação de três artistas vinculados a grupos distintos na música mostra uma cantora que não se prende aos rótulos.

Capa do álbum de estreia de Martinha (Foto: Reprodução/IMMuB)

Em 1974, Martinha lançou o disco "Como Antigamente" pela Continental. Esse foi um período focado em construir carreira no exterior, até 1976. Sobre o tempo em que morou na Espanha, a artista conta:

Eu fui entrando na Espanha devagar, mas como eu entrei no Brasil, pelo mérito de compositora. Isso sempre pesou um pouco mais do que o mérito por ser cantora. Fiz uma carreira brilhante lá também. De lá eu ia para outros lugares, para Porto Rico. A minha carreira, claro, tinha que ser em países de língua latina. Ninguém canta para americano e nem para europeu, brasileiro só canta para... a verdade é essa, faz muito sucesso, mas é para latino, o que é um orgulho também, claro. Em Porto Rico eu fiz muito sucesso. A Espanha me mandava muito para lá, para República Dominicana (Martinha, 2018).


Durante boa parte da década de 1970, Martinha esteve focada na carreira internacional, e talvez por isso tenha gravado pouco no Brasil naquele período. Mesmo após o retorno, ela demorou voltar a lançar Lp´s, suas gravações entre 1974 até 1985 foram de compactos. Em 1986 foi contratada pela gravadora 3M, onde gravou quatro Long Plays até 1988. Apesar dessa descontinuação na obra fonográfica, Martinha lembra que nunca deixou de fazer shows, mesmo nos períodos em que não estava gravando.

Mas, se a carreira de intérprete não teve uma constância em termos de gravação de discos, a carreira de compositora não arrefeceu em momento algum.  No ano de 1967, o colega de Jovem Guarda Erasmo Carlos gravou a canção "Só Sonho Quando Penso Que Você Sente o Que Eu Sinto" no disco lançado pela RGE que levava o nome do artista. No mesmo ano houve duas gravações da canção "Eu Daria Minha Vida": Hebe Camargo gravou em disco lançado pela Odeon e Roberto Carlos em um compacto simples que tinha do lado B a música "Fique Triste Não" de Helena dos Santos. Angela Maria também gravou a compositora mineira em disco de 1969 intitulado "Angela Em Tempo Jovem", no qual aparece em cima de uma motocicleta na capa, fazendo uma clara alusão à Jovem Guarda. A canção escolhida foi "Somos Apaixonados". Na década de 1970 canções de sua autoria puderam ser ouvidas nas vozes de artistas como Nelson Ned, Ronnie Von, Antônio Marcos, Cláudia Barroso, entre outros. Nos anos de 1980, Martinha seria presença constante nos discos do cantor Gilliard e a composição dela com César Augusto, "Pouco a Pouco", seria sucesso na voz do artista em 1982. Fábio Junior, Jerry Adriani, Altemar Dutra, Agnaldo Rayol, Wanderley Cardoso estão entre os artistas que gravam Martinha na década de 1980. Ao mesmo tempo, artistas ligados ao universo sertanejo também começar a incluir canções de Martinha em seus repertórios como foi o caso de Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Matogrosso e Mathias que gravaram parcerias da cantora com César Augusto. 


Sobre o seu processo de composição, Martinha afirma em entrevista ao A música de que sempre teve sua vida como inspiração e que se considera “excessivamente romântica”. Sobre ter sido gravada por diversos sertanejos ela lembra que:

Veja bem, eu não mudei nada no meu jeito de compor. Nada, absolutamente nada. Todas as minhas músicas que foram gravadas por eles, foram gravadas do jeito que eu mandei a fita. Na época era fita que a gente mandava, em 1990, era gravador. E eles cantavam em segunda voz. Era a única diferença, mas interpretaram exatamente o que eu queria (Martinha, 2018).


A cantora destaca também que gostava da interpretação dos artistas ligados ao sertanejo e desenvolveu boa amizade e relação de parceria. 

Neste resumo de sua trajetória, podemos observar que Martinha foi gravada por inúmeros cantores ligados a diferentes gêneros e, como ela diz na entrevista, gostou de todas as gravações. Seja compondo de forma individual ou em parceria, a cantora trazia sua vivência e seu romantismo para as letras. Essas letras foram rememoradas no projeto Martinha Minha História, show produzido por Thiago Marques Luiz e lançado em CD pela gravadora Discobertas no ano de 2019. São vinte faixas cantadas por artistas das mais variadas vertentes musicais brasileiras e de diferentes gerações. Sérgio Reis, Ayrton Montarroyos, Wanderléa, Gilliard, Cida Moreira, Maria Alcina e Wanessa Camargo são alguns(as) dos(as) artistas que participaram dessa homenagem. Na última faixa, Martinha recita a letra da canção "Sendo Filha de Quem Sou", uma homenagem a Dona Ruth que sempre acompanhou a filha ao longo da carreira e estava na plateia. Foi através da Discobertas também que alguns trabalhos da artista foram relançados em CD: em 2019 foram lançados dois álbuns que a artista havia gravado para o mercado internacional "Otra Vez" (1972) e "Amigos y Amantes" (1977).  É muito importante frisar que parte dos discos da carreira de Martinha ainda não foi relançada nesse formato e nem está presente nas plataformas digitais, o que impossibilita que antigos admiradores e jovens interessados tenham acesso ao trabalho.