Colunista Convidado

Luiz Gonzaga revivido pelos sergipanos Nino Karvan (voz) e Alberto Silveira (violão)
Por Tárik de Souza

terça, 11 de agosto de 2020

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 Luiz Gonzaga (1912-1989) colocou o nordeste no mapa da MPB. Ele foi o arauto da enorme leva de conterrâneos retirantes – como ele próprio, pernambucano de Exu - que desceu para trabalhar na urbanização do sudeste, em meados do século passado, e trouxe postais sonoros do agreste, no matulão de memórias. Mas não apenas nostalgia. Uma cultura sólida e múltipla de baiões, xaxados, xotes, cocos, aboios, toadas, polcas, rancheiras e maracatus, entretecida com o talento de mestre da sanfona, instrumento que lançaria moda e insuflaria seguidores. E enredos épicos, letrados por parceiros como o advogado cearense Humberto Teixeira (1915-1979) e o médico pernambucano Zé Dantas (1921-1962), ambos também músicos de estirpe. “Como os grandes compositores russos, Gonzaga mergulhou fundo na alma de seu povo e se tornou sua mais profícua tradução em música”, definiu o compositor paraibano Chico Cesar. Quase 80 anos depois, essa saga memorável ainda ecoa em plena era da ditadura brega-pop que também assola o sertão. O disco “De Lua – canções de Luiz Gonzaga” (Kuarup) reúne dois sergipanos: o cantor e compositor (também luthier e musicoterapeuta) Nino Karvan e o violonista, arranjador (e também compositor) Alberto Silveira. À base intimista de voz e violão, eles revisitam dez clássicos vocalizados por Gonzaga em épocas variadas, oito deles de sua autoria com parceiros.

Abre o cortejo a estradeira valsa toada “Légua tirana” (“varei mais de vinte serras/ de alpercata e pé no chão/ mesmo assim como ainda ‘farta’/ pra chegar no meu rincão”), parceria com Humberto Teixeira. Também da dupla central do baião é uma provocante revisita à pungente “Juazeiro” (ambas de 1949), com direito a percussão sacudida no bojo da viola, como a dos cantadores primitivos. Ainda da mesma dupla, sempre no jargão matuto, é a toada cortante “Assum preto” (“’tarvez’ por ‘ignorança’/ ou ‘mardade’ das ‘pió’/ ‘furaro’ os ‘óio’ do assum preto/ pra ele assim, ai, canta ‘mió’”), de 1950, que ressoa na voz chorada de Karvan, pavimentada pelas cordas de Silveira.

O ciclo passarinheiro do repertório ainda abarca duas parcerias de Gonzaga e Zé Dantas. Do baião saltitante “Sabiá” (“a todo mundo eu dou psiu/ perguntando por meu bem”), de 1951, encordoado na ponta dos dedos, à toada redentora “A volta da asa branca” (1950), seqüência do clássico original (“a asa branca/ ouvindo o ronco do trovão já bateu asas/ e voltou pro meu sertão”). E mais uma só de Dantas, a recorrente “Acauã” (1952), que imita o canto do pássaro título, e ainda cita o soturno bacurau, ave que serviu de mote ao explosivo filme dos cineastas pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, de 2019. Ainda da dupla Gonzaga/Dantas é o xote geográfico “Riacho do navio” (“corre pro Pajeú/ o rio Pajeú vai despejar/ no São Francisco/ o rio São Francisco/ vai bater no ‘mei’ do mar”), de 1955.

Com quatro discos solo (“Mangaba madura”, 2001, “Aquarela pra pandeiro”, 2006, “José”, 2014 e “No romper da madrugada”, 2016), Karvan participou de mais de quinze coletâneas de festivais, dos quais, em oito saiu vitorioso. Como luthier, viajou para a China, onde se apresentou em 2006, e aqui, já dividiu o palco com Belchior, Beth Carvalho, Moraes Moreira e Chico Cesar, entre outros. No grupo Avantou, formado por músicos brasileiros e belgas, desde 2013, une forró, música tradicionais européia, jazz rock e reggae. Autor de trilhas dos curta metragens “Do outro lado do rio” e “A parede” Silveira, por sua vez, ganhou o prêmio Aperipê de “melhor instrumentista” e “melhor música instrumental” (“Fim de noite”), de 2011. Participou dos festivais Mangaba Instrumental (2011,2012) e do circuito Sesc Instrumental (2013). Estreou no disco “Baleadeira”, em 2015. Em 2017, passou a integrar a Cotto Orchestra, fazendo shows no Brasil e no México. Especialista em educação musical, desenvolveu técnicas como “tapping’, “two hands” e violão percussivo, que utiliza em “De Lua – Canções de Luiz Gonzaga”.

No repertório, ainda há parcerias raras de Gonzaga com Nelson Barbalho, a fúnebre toada/aboio “A morte do vaqueiro”, de 1963, (“bom vaqueiro nordestino/ morre sem deixar tostão/ o seu nome é esquecido/ nas quebradas do sertão”) e com o maestro Guio de Moraes, a epopéia retirante “Pau de arara” (1952). Esta, no lamento vocal de Karan, adensa as tintas biográficas do co-autor: “Quando eu vim do sertão, seu moço/ do meu bodocó/ meu malote era um saco/ e o cadeado era um nó/ só trazia a coragem e a cara/ viajando num pau de arara/ eu penei/ mas aqui cheguei”. Fecha o roteiro, a devastadora “Hora do adeus” (1967) com que os conterrâneos pernambucanos Onildo de Almeida e Luiz Queiroga homenagearam o soberano nordestino: “Eu agradeço ao povo brasileiro/ norte, centro, sul inteiro, onde reinou o baião/ se eu mereci minha coroa de rei/essa sempre eu honrei/ foi a minha obrigação”. 

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