Um papo com o Cazes

100 Anos de Zé Menezes: lições de um multi-instrumentista

sábado, 20 de fevereiro de 2021

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Uma criança muito musical. José Menezes de França aprendeu a tocar requinta e a ler música na banda de sua terra, Jardim-CE. Com oito anos já atuava no cinema de Juazeiro do Norte onde, no ano seguinte, foi levado para tocar para o Padre Cícero. O líder religioso vaticinou que Menezes seria um grande músico, mas o caminho foi tortuoso. Aos doze foi para Fortaleza, onde se defendeu como locutor de um serviço de alto-falantes. Depois de uma temporada em Juazeiro tocando banjo tenor em um jazz-band, voltou para a capital, trabalhou como alfaiate e finalmente se tornou violonista contratado da Ceará Rádio Clube, aos vinte anos de idade. Dois anos depois, o radialista César Ladeira o conheceu e, de imediato, lhe ofereceu um contrato para atuar na Rádio Mayrink Veiga, no Rio. 

A chegada na então capital da República e o contato com Garoto, gênio das cordas que ele ouvia e admirava à distância, fez com que Menezes percebesse que precisava se preparar para aproveitar as oportunidades. Estudou com afinco seus vários instrumentos, aprendeu a trabalhar com a chamada “cifra americana”, notação harmônica hoje disseminada na música popular, mas que na época era novidade. Quatro anos depois, ao ser levado por Garoto para a Rádio Nacional, travou contato e firmou uma parceria musical com Radamés Gnattali que duraria 40 anos. Ele dizia que a Nacional tinha sido sua Universidade:

_ Eu tive que estudar feito um condenado pra poder pegar meu jeito de trabalhar na Rádio Nacional. Eu chegava lá 2, 3 horas antes de qualquer programa. Por mais fácil que fosse o programa. Para ver as músicas, porque lá, não se admitia erro. Não podia errar. Tudo ao vivo. 

 Foi nessa época que começou a se destacar também como compositor, com obras modernizadoras como “Nova ilusão” e “Comigo é assim”, feitas em parceria com Luiz Bittencourt e lançadas pelo grupo vocal Os Cariocas. Na década de 1960 criou o grupo “Os velhinhos transviados”, que misturava ritmos dançantes e humor, numa fórmula bem comercial e que rendeu muitos LPs na RCA.  Com o ocaso da Era do Rádio, passou a atuar em emissoras de TV e, na década de 1970, se tornou maestro arranjador da TV Globo, onde produziu memoráveis aberturas de programas, como a de “Os trapalhões”. 

Nos seus últimos anos de atuação, focou no repertório autoral e lançou três CDs magníficos “Regional de choro”, “Nova bossa” e “Gafieira carioca”, gravados com músicos da nova geração, o que fez seu repertório circular mais nas rodas do choro contemporâneo. 

Morando na pequena cidade de Guapimirim, no pé da serra de Teresópolis, Menezes gostava de receber visitas para dar entrevistas e sobretudo para tocar. Estive algumas vezes em sua casa e pude constatar sua disposição em idade avançada, trocando de um instrumento a outro e mantendo a performance em diferentes afinações, numa incrível demonstração de reflexo, de velocidade de raciocínio. 

Encontro de Henrique Cazes e Zé Menezes em 2010 (Foto: Marília Figueiredo) 

Ao completar 90 anos, precisou colocar um marca passo e, quando chegamos para a roda de choro de aniversário, todos ficamos espantados pois ele parecia ter rejuvenescido e estava tocando até bandolim de 10 cordas. Depois de umas 4, 5 horas tocando, na companhia dos violões de Marcello Gonçalves e Yamandú Costa, do sax de Dani Spielman, dentre muitos outros, começaram a haver as primeiras despedidas e Menezes protestou: 

_ Vocês estão muito frouxos! Não tocamos nada ainda. 

Em 2014, Marcello Gonçalves defendeu sua dissertação de Mestrado “A obra de violão solo de Zé Menezes” no Salão Leopoldo Miguez da Escola de Música da UFRJ, com a participação do próprio. A professora Regina Meirelles, que fazia parte da banca, fez uma carinhosa saudação ao maestro e propôs ali que a Escola lhe concedesse o título de Professor Emérito. Infelizmente, não houve tempo. Em julho do mesmo ano, Menezes insistiu em operar uma hérnia abdominal que lhe impedia de empunhar confortavelmente seus instrumentos. A cirurgia teve complicações e ele se foi antes de completar 93 anos. 

Zé Menezes deixou muitas lições como músico e profissional da arte. Vou citar aqui três frases que ilustram suas ideias, sempre bem práticas:

• Depois de colocar a frase embaixo do dedo, posso tocar em qualquer andamento.

• Eu estudo violão para tocar os outros instrumentos.

• Meu instrumento preferido é o que está na minha mão naquele momento. 

Em nosso último encontro, Zé Menezes me mostrou a coleção de “Estudos para violão tenor” e mais algumas músicas inéditas. Uma vida longa, de muita música, de muitos instrumentos (cavaquinho, bandolim, violão, violão-tenor, viola, banjo e guitarra elétrica) e de muito trabalho. Que no centenário desse grande brasileiro, mais e mais músicos toquem e estudem Zé Menezes. Temos muito o que aprender.

Henrique Cazes

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