Garota FM

Livro de Rodrigo Faour destaca a história da música brasileira sem preconceitos

sábado, 08 de janeiro de 2022

Compartilhar:

Perto do fim de 2021, o jornalista Rodrigo Faour lançou o livro História da música popular brasileira sem preconceitos – Dos primórdios, em 1500, aos explosivos anos 1970 (Editora Record). Preparando o terreno para um segundo volume, esse primeiro traça em 573 páginas o caminho que a música percorreu dos tempos em que o Brasil era indígena até a chegada do samba-rock. Sem dúvida, a manifestação artística mais diversa do mundo caberia em muito mais do que as (aproximadamente) mil páginas que o primoroso trabalho de Faour nos oferecerá depois que os dois livros estiverem lançados. Os artistas, claro, não estão todos lá. Nem teria como destacar um a um. Ainda assim, é primorosa a pesquisa que o fez conseguir não esquecer de nenhum gênero musical, e ainda resgatar manifestações e artistas que sofreram apagamento ao longo da história. É tanta coisa, que é difícil até escolher sobre o que falar em um artigo que não passará de três páginas. 

Como estamos a um mês de celebrar o centenário da Semana de Arte Moderna – realizada em São Paulo, entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922 – gosto da ideia de reforçar esse evento como um marco: foi a partir dali que gêneros com os quais convivemos até hoje começaram a surgir. Esse é, inclusive, o marco que uso no curso que eu coordeno no Music Rio Academy – e que terá nova edição em fevereiro – para contar a história dos principais movimentos e gêneros da música brasileira (https://musicrioacademy.com.br/). 

A Semana de Arte Moderna de 1922 é considerada o pontapé inicial do movimento modernista no país. O modernismo no Brasil e no mundo não foi apenas um movimento artístico. Foi sintoma de toda uma gama de mudanças que vinham acontecendo gradualmente na sociedade. O modernismo, em todos os campos, propunha o diálogo entre o antigo e o novo: na arte brasileira, essa busca se confundiu com o projeto de criação de uma identidade nacional, até então inexistente. E foi a partir da Semana de Arte Moderna que a música começou a se modernizar, a sair do centro da música erudita de matriz europeia para incorporar elementos populares tanto dos centros urbanos quanto rurais. Não foi uma mudança radical, direta e imediata. Mas, depois da Semana de Arte Moderna, o pensamento mudou e ocorreu uma renovação de certas ideias relativas à incorporação de elementos ligados à cultura folclórica. A partir desse acontecimento, gêneros musicais, que influenciam referências, movimentos e artistas até hoje, começam a se instituir e/ou estabelecer. O primeiro deles, o samba.

Há quem diga que o samba nasceu na Bahia. Há quem afirme que ele é do Rio de Janeiro. O que ninguém discute é sua origem negra: a alquimia entre os batuques trazidos pelos escravos africanos e elementos religiosos resultou em uma espécie de ritual de música e dança que, mais tarde, incorporando outros instrumentos e temas, deu no gênero musical considerado por muitos críticos de música e historiadores como o mais original, ou seja, o mais brasileiro, apesar de o forró também pleitear esse título. Por ser o lugar de maior concentração de escravos do Brasil, o Recôncavo Baiano teria sido o berço do samba, mas no Rio de Janeiro, no século XIX, ele teria se desenvolvido com a formação da Pequena África, região localizada entre os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e Pedra do Sal, habitada por descendentes de escravos e que abrigava terreiros de candomblé, onde, depois dos cultos, eram formadas rodas de “samba”, ou seja, as festas que tinham esse nome. No entanto, essa valorização do samba só viria a acontecer na década de 1940, durante o governo do presidente da República Getúlio Vargas. Antes disso, o samba foi perseguido e marginalizado. Durante os anos 1920, uma pessoa que fosse vista cantando ou dançando a “umbigada” corria o risco de ser presa. Ao longo do tempo, o samba foi sendo disseminado de forma que não havia mais como pará-lo, e foi sendo partilhado em vários estilos: samba de breque, partido alto, samba-canção até chegar ao samba-rock. 

A origem do forró tem relação com bailes populares que eram realizados no final do século 19 e eram chamados de "forrobodó", "forrobodança" ou "forrobodão". Essas festas aconteciam em locais de chão batido (chão de terra que era molhado para evitar o levante de poeira durante a dança). Mesmo contando com essa estratégia, as pessoas costumavam dançar arrastando os pés para evitar que a poeira levantasse, daí o termo rastapé ou arrasta-pé. É curioso porque existem semelhanças entre esse estilo de dança e o toré, que é uma celebração indígena onde em dado momento ritualístico os indivíduos arrastam os pés nos chão. Curioso porque muitos forrozeiros ou amantes do forró afirmam que o forró é o ritmo genuinamente brasileiro, mais brasileiro que o samba, que teoricamente tem raízes na África. E a semelhança com os rituais indígenas pode reforçar essa teoria. Mas há também alguma influência de ritmos holandeses e portugueses, além das danças de salão europeias. 

O nome forró sugere algumas hipóteses. O historiador e folclorista Câmara Cascudo sugere que o termo mais provável seja uma derivação do termo "forrobodó". Outra suposição é que tal nome teria sido criado a partir de uma expressão ingles, “for all”, devido à vivência de engenheiros britânicos que se fixaram na região de Pernambuco durante a instalação da ferrovia Great Western. O forró é um estilo musical que incorporou a dança e outros elementos e estilos do Nordeste, como o baião, xote, côco, xaxado e as quadrilhas juninas, mas o gênero suas vertentes foram apresentados aos brasileiros na década de 1940 por Luiz Gonzaga, um pernambucano que se vestia de cangaceiro, chamava a atenção para a realidade do sertão de onde ele havia saído e apresentava ao Brasil as suas diversidades regionais, pouco conhecidas por grande parte da população e até hoje um pouco relegada dos espaços canônicos da música brasileira. 

Depois do samba e do forró, vieram a bossa nova, o rock, a MPB, a música sertaneja, a black music, a axé music e tantos outros gêneros. Mas, como Rodrigo Faour, talvez seja melhor dividir o assunto em mais de um artigo, para a leitura ficar mais confortável. E, claro, nem vou começar a tratar sobre apagamentos e “preconceitos” – para usar a palavra que ele mesmo escolheu para o título – porque senão vou acabar escrevendo um outro livro de tanto que teria a falar. Indico o curso do Music Rio Academy para quem quiser saber mais, a leitura desse lançamento da editora Record e desejo um bom mergulho na história da música brasileira nesse 2022!


Comentários

Divulgue seu lançamento