A música de

Maria Bethânia do Brasil
Por: Marlon de Souza Silva

domingo, 20 de junho de 2021

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“Carcará/ Pega, mata e come!” bradava Maria Bethânia em 1965, no espetáculo "Opinião", que a projetou no cenário musical brasileiro. A partir daquele 13 de fevereiro, Bethânia se consolidou como uma das maiores intérpretes da música popular brasileira, não sendo exagero afirmar que hoje, ela se configura como a mais importante em atividade, pois, como afirmou Heloísa Starling, sua obra pensa o Brasil. Em mais de 50 anos de palco, Bethânia cantou o amor, o sertão, a religiosidade do povo brasileiro, valorizou a cultura popular, abordou os problemas sociais da sociedade brasileira, entre outros temas que se fazem presentes em seu repertório. Com uma obra vasta, torna-se tarefa difícil sintetizá-la em poucas linhas. Desta forma, optei por abordar alguns shows e discos que acredito serem fundamentais para pensar a obra de Maria Bethânia enquanto intérprete do Brasil.

A estreia oficial de Bethânia ocorreu em fevereiro de 1965, no espetáculo "Opinião", ao substituir Nara Leão. Porém, amadoramente, a cantora já havia estreado nos palcos de Salvador. Junto com Caetano VelosoGal CostaTom ZéGilberto GilFernando Lona e Piti, realizaram em 1964 dois shows durante as festividades de inauguração do Teatro Vila Velha: "Nós, por exemplo..." e "Nova bossa velha, velha bossa nova", que deviam sua existência à bossa nova. O primeiro, tinha como proposta renovar a música popular brasileira a partir de jovens compositores, cantores e instrumentistas, tendo como eixo central, a bossa nova. O segundo, buscava não só divulgar, mas também, refletir sobre o gênero, entendendo-o como uma continuação da tradição musical brasileira.

Muito antes do término da montagem do espetáculo, o grupo decidira que, após a apresentação, começariam a produzir shows individuais. Pela potência cênica de Bethânia, decidiram que ela deveria iniciar a série de espetáculos individuais. Intitulado "Mora na filosofia" – título extraído do samba homônimo de Monsueto e Arnaldo Passos – o espetáculo teve a direção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com produção de Orlando Senna e a escolha do repertório foi realizada por Maria Bethânia. Esse é o primeiro show que destaco como um dos mais importantes na trajetória artística da cantora e, de acordo com Caetano Veloso, se configura como o espetáculo mais bonito da artista.  

No show "Mora na filosofia" Bethânia contribui de forma significativa para o debate em torno do nacional-popular que ganhava corpo naquele contexto de ditadura. Utilizando o cenário elaborado por Calazans Neto para a peça "Eles não usam black-tie" de Gianfrancesco Guarnieri, simulando um morro de uma favela carioca, Bethânia discutiu sobre os problemas sociais vivenciados pelos habitantes do morro. O eixo central do roteiro era as favelas cariocas, com os problemas enfrentados por seu povo, mas também com suas manifestações culturais, seus ritmos, suas crenças, seus amores e desamores, contados a partir de sambas, marchinhas, bossa nova e música de protesto.

Compõem o roteiro: "Pra seu governo", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira"Canção espontânea" e "É de manhã", ambas de Caetano Veloso; "Favela", de Hekel Tavares e Joracy Camargo"Meu barracão", de Noel Rosa"A Felicidade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes"Chão de estrelas", de Silvio Caldas e Orestes Barbosa"Feio, não é bonito", de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri; "Ave Maria no morro", de Herivelto Martins"Enquanto a tristeza não vem", de Sérgio Ricardo"Ao voltar do samba", de Sinval Silva"Onde estão os tamborins", de Pedro Caetano e Claudionor Cruz"Foi ela", de Ary Barroso"Lata d’água", de Luiz Antônio; "Mora na filosofia", de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos; além de "Acender as velas" e "Opinião", ambas de Zé Kéti, indicadas por Nara Leão por corroborarem as ideias do show de Bethânia

"Mora na filosofia" colocou o morro no centro do debate, em uma postura típica do romantismo revolucionário, que se caracteriza pela busca das autênticas raízes do povo brasileiro e este, no show é representado pelo favelado dos morros cariocas, que se configuram como lócus da resistência política e social, principalmente, em uma conjuntura de ditadura. Nesse sentido, Bethânia realizou antes do espetáculo "Opinião" um show de teor contestatório e que foi fundamental para sua escolha como substituta de Nara Leão por abordar os problemas sociais e políticos a partir da favela. 

O segundo evento a ser destacado na trajetória de Bethânia é o espetáculo "Opinião". O show surgiu a partir de Oduvaldo Viana, que ao ouvir o disco "Opinião de Nara", antes do lançamento em novembro, viu a oportunidade de criar um espetáculo para a estreia de um teatro que ele e seus companheiros do CPC (Centro Popular de Cultura), extinto junto com a UNE (União Nacional dos Estudantes) após o golpe, queriam inaugurar em 1964.

O texto do espetáculo foi elaborado por Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, e a direção foi de Augusto Boal, o espetáculo reunia um compositor nordestino, João do Vale; um sambista de morro, Zé Kéti; e uma cantora bossanovista da zona sul carioca, Nara Leão e fazia uma aproximação entre a música brasileira e a arte engajada. Além de serem atores do espetáculo, os três eram também os personagens. Em um palco nu, todos vestindo calças jeans e camisa, o texto tentava mostrar o que tinham em comum uma garota zona sul, um nordestino e um morador do subúrbio carioca. O elo entre eles era feito através das músicas, entremeadas por textos sobre a vida dos personagens e relativos a questões abordadas no roteiro.

Com a entrada de Bethânia, o foco recaiu sobre o nordeste brasileiro e reforçou o teor contestatório do roteiro. Diferente de Nara Leão, que representava a garota politizada, Bethânia representava o próprio povo abordado no roteiro. Sua participação em um evento contestatório da ordem vigente marcou profundamente sua carreira, tornando-a musa do protesto naquele contexto, principalmente, por sua interpretação da canção "Carcará", de João do Vale e José Cândido – o verdadeiro hino da revolução camponesa naquele Brasil de 1964/1965. Aos brados de “pega, mata e come”, Bethânia se transformava na própria ave e mostrava sua indignação com a conjuntura política do país, mergulhado cada vez mais em uma ditadura.
Foto: Instituto Augusto Boal, 2020

Outro espetáculo fundamental na obra de Bethânia é o show "Rosa dos ventos – o show encantado", realizado em 1971, com direção de Fauzi Arap. Neste show, Bethânia consolida a fórmula iniciada em "Comigo me desavim", de 1967: intercalar músicas com textos de diversos autores, revolucionando a forma de realização de espetáculos individuais de cantoras no Brasil. Ao mesclar literatura, teatro e canção, Maria Bethânia criou uma nova linguagem musical iniciada nos anos 1960, que se consolidou na década de 1970, especialmente, a partir de "Rosa dos Ventos". Enquanto intérprete, ela se apropria dos textos e canções, criando uma linguagem própria, marcada pelo romantismo e pela dramaticidade.

Isso se relaciona a dois fatores essenciais em sua formação musical: a interpretação e o palco. Outro fator presente no roteiro do show refere-se ao aspecto político abordado. Neste show, Bethânia abordava sobre o exílio de Caetano Veloso e questionava o regime militar do país. "Rosa dos Ventos" marcou a carreira de Bethânia e consolidou sua forma de interpretar. Da estreia em 1965 até os dias de hoje, a cantora registrou em sua trajetória artística, 57 discos, excetuando-se os compactos, onde encontramos elementos diversos, com relação à temática das canções.

Com um repertório tão vasto, a cantora transitou pelos diversos estilos da música popular brasileira. Além disso, passou por várias gravadoras multinacionais até ser contratada pela Biscoito Fino e lançar seu próprio selo dentro da gravadora, o Quitanda, voltando-se para uma produção onde o popular e o nacional se fazem presentes. O disco "Brasileirinho" lançado em 2002, foi um marco dentro desse novo contexto de produção de Bethânia pois marca uma ruptura na carreira da cantora e se configura como o quarto evento para pensarmos a ideia de Brasil apresentada pela cantora em sua obra. Com o lançamento do disco, a cantora rompeu com a indústria fonográfica “comercial” e com o estilo romântico impresso em seus discos até então, para lançar no mercado um disco preocupado com as raízes da cultura brasileira.

Além disso, rompe também, com a forma predominante de se fazer disco no mercado fonográfico a partir do advento do CD. Houve uma preocupação, não só com a escolha do repertório, mas também, com o encarte. O repertório do disco era, inicialmente, pequeno. Seriam gravadas somente quatro ou cinco músicas, com referências aos índios. Depois, como a própria cantora diz, abriu-se para todo o Brasil, com ajuda de Chico César na escolha do repertório.

Ao analisarmos o repertório do disco e do show, verificamos uma preocupação com o popular, com as raízes da cultura brasileira. As músicas retratam a idéia de Brasil da cantora: um Brasil diverso, formado por elementos antagônicos, conflitantes ou  não. Temos elementos que nos remetem às influências negra, branca e indígena na formação da música brasileira e, da cultura popular brasileira como um todo. A cantora traça um panorama musical brasileiro, tanto no disco, quanto no espetáculo. O cenário do show – com palha e colcha de retalhos – nos remete aos diversos elementos da cultura brasileira. Ora nos remete às quermesses e festas juninas, ora à religiosidade afro-brasileira, ora a um Brasil rural e também, indígena.
Foto: Divulgação

Alguns nomes presentes no repertório são representativos para a compreensão desta ideia de Brasil e essa busca no popular: Mário de AndradeVilla-LobosGuimarães Rosa e Catulo da Paixão Cearense. Da mesma forma que Mário de Andrade e Villa-Lobos, Maria Bethânia buscou no popular elementos para sua produção musical. Mário e Villa-Lobos buscaram no popular, não só elementos para sua arte, mas tentaram compreender esse Brasil. Para ambos, a arte nacional está no povo. Bethânia faz esse mesmo caminho: tal como eles, tenta descobrir o Brasil do interior, e o Brasil indígena, das matas do Amazonas. Catulo da Paixão Cearense e Guimarães Rosa representam, por sua vez, esse ruralismo, esse regionalismo tão valorizado por Mário de Andrade e que a cantora retoma em Brasileirinho. A própria ideia de o violão e a viola serem os instrumentos principais na gravação do disco e do show, nos remete a esse clima de sertão, de interior, com as modas de viola ao redor da fogueira. Com um repertório pautado na diversidade musical brasileira, o disco e o show Brasileirinho funcionam como uma síntese da ideia de Brasil proposta por Maria Bethânia e marcou uma mudança significativa em sua trajetória artística.

Os quatro shows apresentados acima demonstram como Maria Bethânia pensa seu país, seja colocando em cena os problemas sociais e políticos seja demonstrando sua ideia de Brasil, de um país possível, rico em sua diversidade, como em "Brasileirinho". É nesse sentido que concordamos com Heloísa Starling quando afirma que Maria Bethânia se configura como intérprete do Brasil. Em seu texto apontou elementos que situa a cantora em uma tradição musical brasileira iniciada com Silva Alvarenga e Caldas Barbosa, que levou a canção popular ao encontro da palavra escrita e seu inverso. Para a forma de escrita de Bethânia, ao realizar uma bricolagem entre literatura cantada e escrita, serve como uma janela para pensar o país. A interpretação de Bethânia sobre o país é entendida a partir do termo “brasilidade mestiça”, um sentimento que “quebra silêncios, nomeia a segregação e enxerga a invisibilidade de uma população marginal e subalterna”. Nesse sentido, Bethânia criou um jeito particular de pensar e falar sobre o Brasil, mesmo no período da ditadura militar. Desde 1965, Bethânia pensou o país em todas as suas dimensões, e, por isso, ela se consolida com a mais importante intérprete da música popular brasileira.



Marlon de Souza Silva é doutorando em História pela UFMG; Mestre e Graduado em História pela UFSJ, e professor do Centro de Ensino Superior de Conselheiro Lafaiete (CES-CL).



Referências:

STARLING, Heloísa Maria Murgel. Maria Bethânia: intérprete do Brasil. In: BETH NIA, Maria. Caderno de Poesias. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. 

SILVA, Marlon de Souza. “No que eu canto trago tudo o que vivi”: a tradição e o popular em Maria Bethânia (1965-1978). 2010. 155 f. Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de Ciências Sociais, Políticas e Jurídicas, Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, 2010.

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