Tema do Mês

Sem vergonha de amar: a música brega
TEMA DO MÊS de OUTUBRO!

sexta, 02 de outubro de 2020

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Talvez um dos termos mais difíceis de se definir com precisão na música brasileira seja o “brega”. Atualmente emoldurado por uma aura quase cult, ele engloba artistas com produções tão variadas quanto Wando, Reginaldo Rossi, Waldick Soriano, Sidney Magal, Marcio Greyck e Lindomar Castilho. O que esses artistas têm em comum é sobretudo a vocação para falar de amor e sentimentos, o apelo popular e uma coleção robusta de hits. 

Mas, afinal, o que é o brega? Difícil considerá-lo um gênero musical específico, pois dentro desse rótulo cabe samba-canção, balada romântica, música pop, discotèque, bolero, samba, guarânia, tango, rock´n´roll, soul music, ritmos latinos, música cigana, enfim…tudo! Por que, então, agrupá-los em uma mesma categoria?

O fato é que o termo “brega”, apesar de hoje ser encarado com uma carga positiva por muitos artistas e grande parte do público, é uma denominação originalmente carregada de preconceitos. Ela se referia a toda produção musical considerada menor, de baixo ou nenhum valor pelas elites culturais do país (críticos, pesquisadores e acadêmicos, por exemplo), que jogaram no mesmo saco artistas ligados ao gosto popular - mesmo que com produções diferentes entre si. 

Origem e ramificações do brega

Como conta o pesquisador Paulo César de Araújo no livro “Eu não sou cachorro, não”, na Era do Rádio artistas de repertório romântico e apelo popular como Anísio Silva e Orlando Dias já eram tachados de “cafonas” pela crítica musical. No entanto, é nos anos 1960, com o fim da Jovem Guarda, que a indústria fonográfica consolida um espaço de destaque para um estilo influenciado pelo movimento, que estourou no mercado e logo ganhou a alcunha de “música cafona”. Foi aí que surgiram fenômenos como Paulo Sérgio, Odair José, Diana, Reginaldo Rossi e tantos outros. 

A partir do final dos anos 1970, passou-se a usar o termo “brega” para designar (com a mesma carga pejorativa) esses e outros artistas que então surgiam, como Sidney Magal, Jane e Herondy, Peninha, Gilliard e Carlos Alexandre

Desde então, o estilo continuou se desenvolvendo e se ramificando em diversas regiões do Brasil, sobretudo no Pará e no Recife, que deram início ao chamado “brega pop”, com a incorporação de ritmos dançantes como a lambada e o axé. Hoje, assistimos à ascensão do chamado “brega funk” (mistura do estilo recifense com o batidão carioca), que vem ganhando cada vez mais espaço no mainstream do mercado nacional. 

Daí se vê a problemática do termo, que engloba estilos, artistas e gêneros tão diversos entre si. Mas ao mesmo tempo que isso pode ser um problema conceitual para alguns, também serve para demonstrar a riqueza, a pluralidade e a força disso que se convencionou chamar de “música brega”.

O fato é que esse estilo se consolidou nesses anos todos como um patrimônio afetivo e cultural da música brasileira. Diversas canções atravessaram gerações e seguem atuais e relevantes até hoje. Músicas como “Fogo e paixão” (Wando), “Impossível acreditar que perdi você” (Marcio Greyck), “Sonhos” (Peninha), “Eu vou tirar você desse lugar” (Odair José), “Galeria do amor” (Agnaldo Timóteo), “Mon amour, meu bem, ma femme” (Reginaldo Rossi), “Última canção” (Paulo Sérgio), “Você não me ensinou a te esquecer” (Fernando Mendes) e tantas outras, devem ser lidas hoje como clássicos atemporais do cancioneiro nacional e ser tratadas com a mesma importância com que se fala dos sucessos consagrados da MPB. 

Amar sem vergonha 

Apesar de hoje ainda ser vista com preconceito por muitos, ao longo dos anos a música brega conseguiu garantir um lugar cada vez mais justo no âmbito da memória musical. A ruptura estética proposta pela Tropicália e os artistas influenciados por ela, além de trabalhos de revisão histórica mais recentes, como o do pesquisador Paulo César de Araújo, são fenômenos que vêm contribuindo para ressignificar essa vertente do repertório nacional. 

Um dos que mais tem propriedade para falar sobre isso é Elymar Santos, que em 1991 lançou uma espécie de canção-manifesto a favor do estilo, intitulada justamente como “Brega”. Os versos de Marcos Valle e Carlos Colla o coloca, não como um estilo musical ou referência estética, mas como filosofia de vida. O brega seria o que há de mais simples e ao mesmo tempo mais sublime, como um “arroz e feijão com tempero de mãe” ou “ir com a esposa pro motel” ou até “amar pelo resto da vida sem ligar pra beleza perdida”. É, enfim, viver sem vergonha de amar e amar sem vergonha. 

E que o recado sirva para todos os ouvintes de música brasileira e que se perca a vergonha de amar a música brega. Afinal, como disse Wando, "vulgar e comum é não morrer de amor"

Texto por: Tito Guedes 

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