Colunista Convidado

25 anos de Afrociberdelia: a alquimia final de Chico Science com o Nação Zumbi

sábado, 15 de maio de 2021

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“É afro da África do maracatu. Ciber, de cibernético, da tecnologia. E Delia, da psicodelia das cores do Brasil e da expansão da consciência”
(Chico Science explicando o título do segundo, e último disco, que fez com a Nação Zumbi, Afrociberdelia, lançado há 25 anos.

Chico Science & Nação Zumbi surgiu no cenário musical brasileira como um objeto não identificado. Por causa da percussão, sobretudo as alfaias (tambores) o som do grupo foi identificado como maracatu. Já que utilizava uma guitarra na pedaleira, flertando com o thrash metal, pesado, passou a ser chamado de “maracatu atômico”. Uma alusão a "Maracatu Atômico", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, que não é exatamente um maracatu. Também a batida que da CNSZ, com poucas exceções, também não é maracatu, ritmo ancestral cultivado em Pernambuco por grupos (nações), alguma das quais remontam ao século 18. Cada nação tem seu toque pessoal e intransferível. O CSNZ usava alfaias, mas não toque de maracatu. O que Chico Science, maestro e arranjador intuitivo, fez foi orientar os batuqueiros para que as alfaias cumprissem a mesma função dos naipes de metais na música de James Brown, preenchendo os espaços, um contraponto ao que ele cantava

Foto: Reprodução 

Pernambuco é um estado farto em manifestações da cultura popular, cavalo marinho, acorda povo, ciranda, pastoril profano, maculelê, as sambadas de maracatu, dos baques solto e virado, caboclinho, para citar alguns. Chico Science morador de periferia, pai vereador de Olinda, conviveu com estes brincantes e os retrabalhou na música que está no álbum de estreia, "Da Lama ao Caos", produzido por Liminha, em 1994. O repertório desse álbum foi criado por Science, com algumas parcerias, mas as composições são basicamente dele.

Um álbum que veio muito depressa, sem que os músicos tivessem tempo de aprender o funcionamento da engrenagem da indústria. Um exemplo desta asserção está na capa de "Da Lama ao Caos". O manguebeat começou com o intuito de ser uma cooperativa. Foram os amigos, fotógrafos, designs, cenógrafos, que produziram a arte da capa. A foto de um caranguejo, reprocessada. plasticamente ficou ótima. Mas como embalagem para atrair consumidor, decididamente, não. Esta ousadia seria sanada em "Afrocibederlia", que vai direto ao assunto, estampando a foto colorida da banda na capa, e uma alfaia na contracapa. Um detalhe na capa aponta para o som cyber da banda: o sinal @. Em 1996, Internet começava a se popularizar no Brasil. A SCNZ se identificava com a cyber cultura, mas Chico Science confessava numa entrevista da época que estava começando a navegar. Sua principal ferramenta tecnológica então era o sampler. As sampleadas espalham-se por "Afrociberdelia". Em "Macô" o sampler foi à "Minha Menina" (Jorge Ben) e "Take Five" (Paul Desmond). Já em "Manguetown" a sampleada foi em "Maracatu Atômico" (Mautner/Jacobina). 


O repertório de "Da Lama ao Caos "foi exaustivamente apresentado em público durante pelo menos uns cinco anos. A Cidade já fazia parte do Bom Tom Radio, grupo de música eletrônica que tocava, no final dos anos 80 em casas noturnas no Recife, com DJ Dolores, H.D Mabuse, e outros músicos. 

Ao contrário de "Da Lama ao Caos", o repertorio de "Afrocibederlia" é coletivo, todas foram escritas em parcerias (inclusive com o jornalista Renato L, o “Ministro da Informação” do manguebeat, no início do movimento). Eduardo Bid, que produziu o disco com a banda, toca em algumas faixas e co-assina "Cidadão do Mundo" (com Chico Science e a Nação Zumbi), e "Macô", com Science e du Peixe. A ideia era um único cover, "Criança de Domingo" (Cadão Volpato/Ricardo Salvagni), do projeto Senza Vapuore  que chegou no Recife num k-7 levado por Stela Campos ou Lara Hanouska, seu alter ego. O Senza Vapuore era formado por Cadão Volpato, Thomas Pappon e Stela Campos (só virou disco em 2002). Esse k-7 tocava muito nas festinhas do Polo Pina, Zona Sul do Recife.

"Afrociberdelia" estende os limites sonoros da banda. Seja em "Manguetown", continuação de "A Cidade", em que o Recife é o tema. Mais duas faixas seriam as preferidas dos fãs, "Corpo de Lama" e "Sobremesa". A banda agora trazia uma bateria, de Pupillo, mas que só entra em duas faixas. Um disco de extremos. Da abertura, Mateus Enter (o Mateus é personagem do "Cavalo Marinho") que irrompe surpreendente, mantendo-se as devidas distâncias, como a abertura da "5ª Sinfonia de Beethoven". Da vinheta de ambiência eletrônica de "O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu" (com Mário Caldato Jr. na mixagem), ao arrasa quarteirão da  guitarra thrash de Lúcio Maia em "Enquanto o Mundo Explode"; a psicodelia de "Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)". Em "Cidadão do Mundo" e "Etnia" o CSNZ emprega o baque virado do maracatu, mas se valem também de baião e coco. Experiências sônicas em "Quilombo Groove", "Baião Instrumental", e "Interlude Zumbi", e "Samidarish", que fecha o repertório, e embolada em "Macô" (com participações de Gilberto Gil, Marcelo D2). Os convidados contribuem para reforçar a qualidade do álbum, entre outros, Fred 04 (cavaquinho em "Samba de Lado"), Marcelo Lobato (teclados em "Um Satélite na Cabeça - Bitnik Generation"). 

Foto: Reprodução/Capa de álbum 

A banda e Eduardo Bid sabiam pouco dos segredos dos estúdios, mas com louváveis ousadia e intuição, aprontaram o disco no Nas Nuvens, no Rio ("Maracatu Atômico" foi gravado no Mosh, em São Paulo). Quase todas as músicas foram compostas em  lucubrações da  banda, ou de parte dela. "O Encontro de Asimov com Santos Dumont no Céu" tem na parceria H.D Mabuse (nome tomado emprestado a Her Doktor Mabuse, personagem do filme de Murnau, Doktor Mabuse, de 1922). Mabuse (que toca baixo nesta faixa) foi um dos teóricos do manguebeat, cunhado do escritor Paulo Santos, que inventou o "Afrocibederlia" para definir o som da CSNZ (que é subtítulo de "Coco Dub", que fecha o álbum "Da Lama ao Caos").

 CADÊ O HIT?

Um disco mais pop do que o anterior, algumas faixas com potencial de fazer sucesso. No entanto, Jorge Davidson, diretor musical da Sony Music queria mais do que possibilidade. Queria um hit. Sugeriu que o CSNZ gravasse uma versão de "Maracatu Atômico" (como a imprensa tratava o grupo). Em entrevista ao autor desta matéria, Chico Science contou que até pensavam em incluir uma música antiga no disco. Ele se confessou fã de Mautner, o "Maracatu Atômico" não estava nos seus planos, pelo menos para aquele disco. Mesmo assim o gravou, misturando maracatus do baque solto com o de baque virado.    

 Goretti França, irmã e confidente de Chico Science, que mora no Rio, conta que ele chegou em sua casa, a abraçou e caiu no pranto. O motivo era o CD "Afrociberdelia", recém chegado às lojas. As lágrimas, pelos três remixes de "Maracatu Atômico"como bônus de "Afrocibederlia". Ele e Eduardo Bid até pensavam em produzir um remix da música: “Só escutamos os remixes com o disco pronto. Ninguém avisou a gente. Achei falta de respeito, nem considero como parte do trabalho” comentou Science na citada entrevista. Mas o executivo da Sony Music estava certo. "Maracatu Atômico" foi o hit do disco, sobretudo pela interpretação original que Chico imprimiu à canção, que teve as primeiras gravações em 1974, por Gilberto Gil e de Jorge Mautner. 


"Afrocibederlia" mesmo não sendo um disco fácil, a CSNZ continuava ainda um dado novo na MPB, foi mais bem aceito do que o "Da Lama ao Caos". Dentro de um ano do lançamento receberia certificado de Disco de Ouro, naquele tempo por cem mil cópias vendidas.  Ainda deu tempo de levar a turnê Afrociberdelia para a Europa. Na volta da viagem, me encontrei com Chico, Jorge du Peixe e o empresário Paulo André Moraes num bar no Pina, por coincidência, um rodízio de caranguejo. Science me contou que a banda agora passava a investir nela mesma, iria poupar, para bancar a gravação do terceiro disco em Nova Iorque, e convidar Mario Caldato Jr para produzi-lo. Não teria tempo. Francisco de Assis França, o mangueboy Chico Science, morreria no dia 2 de fevereiro de 1997, de um acidente de automóvel, na fronteira entre o Recife e Olinda. 

José Teles 

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