Prosa & Samba

São Paulo e os Quilombos do Samba: Bixiga

terça, 09 de julho de 2024

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“Um samba muito bom que me contagiou
Me encantou, Bixiga amanheceu…”

Berço imaterial de nossa cultura, o Bairro da Bela Vista, ou Bixiga, é o reduto de diversas colônias que foram se construindo dentro deste processo migratório da Cidade de São Paulo. 

Fundado em 1° de Outubro de 1878, reduto de italianos no início do século XX, principalmente os que vinham da Calábria, o bairro, que sempre teve esse fio de identificação com a colônia europeia, também é de vertente negra. Mas para navegarmos sobre este fio, temos que retornar à 1870, quando a região era uma enorme chácara de posse do Sr. Antonio Jose Leite Braga. 

A Chácara, que não tinha grandes ares europeus, era composta de algumas plantações e diversos pastos e lamaçais, apesar de manter os resquícios da expansão cafeeira que ajudou os barões da Avenida Paulista. O terreno em si não era a grande fonte de renda da Família Braga.

Naquela época, o proprietário cedeu parte de seu terreno à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia para criação de um hospital na região, mas o projeto não vingou devido à presença de um matadouro público que poluiu os afluentes do rio Anhangabaú e Saracura.

Após certo tempo, o matadouro foi transferido para o Bairro da Vila Mariana. Porém, o lote já havia sido cedido e com a ciência do imperador Dom Pedro II e sua Corte Real, que estavam presentes na inauguração da Pedra Fundamental para a construção do Hospital. Como essa decisão não poderia ser revogada, o terreno seguiu em posse da Santa Casa, que devido às condições territoriais ruins e também à forte chegada de imigrantes italianos, negros e familias mais pobres, aquela região decidiu-se ao processo de loteamento dos hectares restantes. 

Nota publicada na Província de São Paulo na edição de 01 de Outubro de 1988

Mas para entendermos melhor sobre esta história, devemos nos perguntar, afinal de contas, quem foi o Sr. Antonio Jose Leite Braga.

Ele foi um empresário com ramificações em diversos segmentos, onde grande parte destes valores empossados lhe permitiram arrendar terrenos pela região central da província de São Paulo. O Sr. Antônio foi casado com a Sra. Eugenia Pereira Braga, na qual constituiu família e teve filhos. Ao longo dos anos, construiu uma boa relação com a alta sociedade e, por consequência, os grandes Barões, que lhe proporcionaram uma forte ligação com as pessoas que tinham acesso à Corte real. 

Devido à qualidade de seus ofícios, os seus empreendimentos prosperaram e sua oficina ficou famosa após executar excelentes trabalhos com madeiras importadas, o que dignificou e aumentou sua clientela, prestando serviços a obras no qual tinham a presença da Corte Real. A consequência de seus atos e atitudes perante à nova sociedade paulistana o levou a ser Presidente da Sociedade Portuguesa de Beneficência.


Nota publicada em 27 de Setembro de 1878, sobre evento no qual a empresa do Sr. Antônio José Leite Braga prestou auxílio para receber a corte imperial.

Com a segmentação de mercado em expansão e o seu comércio em abundância, logo sua empresa foi ganhando novos mercados na província. Apoiado pela recepção de mercadorias do Porto de Santos, a produção em massa das fazendas do interior do estado e a acessibilidade para chegada de mercadorias ao centro, a pequena província rapidamente começava seu processo de expansão e quem estava melhor estruturado crescia junto. Era a São Paulo começando seu processo de vanguarda!


Nota publicada de uma das suas empresas (Província de São Paulo - 25/11/1976).

Após repartir boa parte de sua herança construída, ele veio a falecer em 22 de novembro de 1879. Sua esposa, a Sra. Eugenia Pereira Braga, em 12 de agosto de 1880, adquiriu a Carpintaria a Vapor, conhecida como Fábrica de Santo Antônio, no Largo do Riachuelo, após a extinção das empresas de seu marido, e seguiu escrevendo sua história.


O loteamento que deu origem ao bairro é datado da década de 1880. O proprietário das terras à época, Antônio Leite Braga, em parceria com os empresários Frederico Glete e Victor Nothman, viabilizou um empreendimento imobiliário de arruamento e loteamento da gleba que configurava a “Chácara do Bexiga" e que teve como público-alvo uma população de renda média e média-baixa. Caracterizou-se, portanto, como um empreendimento de caráter popular.

Fonte: Periferia, Educação, Cultura & Comunicação DOI.10.12957

Mas, afinal, qual a ligação desta história com a construção de um dos bairros mais culturais e musicais de São Paulo?

Bem, após esta atitude do Sr. Antônio e seus sócios, a localidade começa a se moldar com o advento da chegada das colônias italianas, os escravos fugidos e a população interiorana que migra para capital. O terreno logo começa a ser loteado e dividido e o pequeno bairro começa a se moldar, algo que fica evidenciado neste mapa abaixo:


Mapa da Cidade de São Paulo em 1930 - Fonte: Geosampa

Este processo de mudança a partir dos anos 1930 marca o fim da São Paulo Rural e o início do processo de industrialização da cidade, transformando a cidade em moderna e cosmopolita. Apesar de o mundo estar de ponta cabeça com a Primeira Guerra Mundial, a antiga província abre caminhos para o novo e recebe um aporte de mais de 1 milhão de novos habitantes, se transformando na maior cidade do país. Para se ter ideia, em 1901, a cidade abandona o uso de lampiões de gás e começa o processo de instalação de postes elétricos, fato inédito para o país.

Com a chegada das ondas radiofônicas no Brasil, em 1923, e a massificação rápida do aparelho entre a população devido à chegada do aparelho pelo Porto de Santos, aos poucos as classes mais baixas também receberam esta novidade em seus lares.

Enquanto no Porto de Santos a musicalidade aportava a todo instante, vinda com seus imigrantes para esta nova cidade, posteriormente, nos anos 1930, o rádio se populariza e, ao mesmo tempo, colocava música erudita para enaltecer a “belle époque e a cultura europeia”, um processo único que desencadeou em nossa sociedade, dando início à famosa “Era de Ouro”. Eis que entram em cena nomes nacionais como Ary Barroso, Braguinha, Chiquinha GonzagaCarmem Miranda, Francisco Alves, Ismael Silva, Noel Rosa, Pixinguinha, Vicente Celestino, entre outros.


Rua Direita em foto de 1905, de G. Gaennsly

A música popular ganha gosto através do seu povo e logo o bairro do Bixiga se transforma em uma das regiões que mais ganham corpo quando se trata de povo. A enorme expansão da região central fez a mescla da população de alto padrão (Campos Elisios e Santa Cecília) com a população de baixa renda, que, por necessidade, tiveram que se instalar em bairros próximos à casa dos ainda Barões (Bixiga, Bom Retiro, Brás).

uma padaria, uma mercearia (a Basilicata) e uma santa padroeira (Nossa Srª Achiropita), trazida pelos calabreses de Rossano, que chegaram a São Paulo ainda no século XIX, substituindo escravos alforriados”.

(MARZOLA, 1979, p. 67)

Viva! São Paulo dos Cortiços

Com o processo industrial a pleno vapor, a proliferação de acomodações mais simples fez com que a sociedade criasse os cortiços, moradias módicas que colocariam mais pessoas dentro da região central. Destinada em suma maioria para as pessoas de baixa renda, a proliferação de cortiços fica evidenciada no mapa abaixo:


Os pontos em azul são os cortiços da região da Bela vista nos anos 30 - fonte: Geosampa

Segue abaixo a condição atual. Devido à expansão imobiliária ao longo dos anos, a cidade mudou de figura, porém eles resistem!


Os pontos em azul são os cortiços da região da Bela vista nos anos 2000 fonte: Geosampa

Para entender um pouco mais sobre a criação dos cortiços, veja este vídeo:


"Onde tem gente, tem música!": assim já diziam os poetas da boêmia!

Com a formação e expansão dos cortiços, além de contribuir obviamente com a miscigenação, a música também foi presenteada neste emaranhado de pessoas que conviviam pelo bairro. 

Deste processo surgiram nomes como: Agostinho dos SantosGeraldo Filme - que vivia perambulando pelos cortiços - Henricão e o que acredito que eternizou as “malocas” da cidade, Adoniran Barbosa, entre outros.

Agostinho foi um dos grandes nomes do bairro que morreu de forma precoce em um acidente aéreo. Veja ele em ação no filme Orfeu Negro, de 1959, dirigido pelo Francês Marcel Camus.


Nas minhas aguçadas pesquisas, eu localizei o que acredito ser um dos primeiros cortiços do bairro ou um dos mais velhos cortiços que já existiram na cidade. Ele era conhecido como o “Vaticano”, ou Vila Bastos, e ficava na região da Rua Jandaia. Foi demolido nos anos 80.


Vila Barros - Registro através da Rua Japurá em 1942 - Fonte: Fotografia de Benedito J. Duarte e Antônio R. Muller. Disponível no portal de Acervos Artísticos e Culturais da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Com o grande aparato popular, o processo de miscigenação crescente e o forte êxodo rural, o bairro do Bixiga manteve suas características europeias através das arcadas de suas construções, mas não mais pelo volume de pessoas que chegavam vinda dos navios através do porto de Santos e aportando na capital pela Estação da Luz. Com a evolução de outras cidades, principalmente Santos, a cidade de São Paulo continuou a evoluir, mas não mais de uma forma desenfreada. 

Se, no início, a chegada da comunidade italiana nos presenteou com sua gastronomia e musicalidade, foi através de suas cantinas que aprendemos de maneira empírica a cantarolar as suas cantigas e absorver os seus trejeitos, vide o exemplo do bairro da Mooca que, até hoje, guarda com orgulho os resquícios desses primeiros imigrantes. 

Mas no Bairro do Bixiga, desde o ano de 1930, aos poucos o som do surdo foi rompendo os preconceitos e a Rua São Vicente se tornou o “porto” daqueles que se libertaram das injustiças e mazelas do dia a dia. Nasce ali, através do reflexo mais claro do fim da escravidão, a Escola de Samba Vai-Vai, que através de seu porta estandarte, mostra as ligações que o povo negro nutriu após o fim do Brasil Colônia.

Tradição (Vai No Bexiga Pra Ver) - Geraldo Filme

Primeiro samba do Cordão Vae-Vae que deu origem à escola de samba, escrito e interpretado por Henricão.

Saiam à Janela - Cordão Vai-Vai - 1928 ( Henricão )


A Coroa e os ramos de café retratam a força da dinastia negra e o progresso através dos Barões do Café - fonte: site do vai-vai oficial.

O Carnaval, as Escolas de Samba e o Vai-Vai cresceram da mesma maneira que a cidade evoluiu, detentora hoje de 15 títulos do Carnaval de São Paulo. As suas raízes seguem firmes em cada parede do bairro, mesmo que, neste período, ela esteja distante de suas origens (a escola ensaia na região do antigo Lavapés, no Bairro da Liberdade). Este fio tênue segue latente, já que a escola transcende qualquer ordem natural, sendo um patrimônio do povo. E, acredite, o seu povo vai além das delimitações de seu bairro!


Antigo Coreto na Rua São Vicente, local era utilizado para ensaios de rua da escola. - fonte: MUMBI

Mas, naquele período, em São Paulo, a cidade vanguardista ainda respirava os poucos perfumes deixados pelo caminho dos então Barões do Café. Com a queda da alta aristocracia e o crescimento do empresariado local, a música - ou melhor, o samba - se tornou carta de resistência e a voz e imagem de um povo que tinha anseios em crescer.

A cidade evoluiu nas décadas de 40, 50 e 60, chegando a 3,5 milhões de habitantes ainda na década de 1950, graças à evolução do setor industrial. Neste período, as fábricas começam a ser instaladas nas cidades do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano). As velhas construções começam a dar lugar aos arranha-céus e as casas dos barões começam a desaparecer. 

Adoniran Barbosa - Saudosa Maloca

A chegada da televisão e sua massificação pós década de 50 traz o povo em contato com seus artistas, a era audiovisual segue a expandir e o poder do rádio diminui. Enquanto isso, as cantinas começam a ganhar renome pela cidade, aquele pedacinho gastronômico dentro dos 2,6km do seu bairro chegam às telas e às residências. E as “mammas” unem a sua gastronomia e a sua musicalidade italiana; e o povo brasileiro coloca o seu molho, nascendo a expressão: “Samba Tarantela”. 

Tarantela napolitana - cavaquinho brasileiro

Começa a surgir a efervescência das noites paulistanas. As décadas de 70 e 80 trazem a era Disco, as boates e os grandes eventos e espetáculos para a cidade. Os teatros do bairro e os grandes artistas da época transformam o bairro em uma espécie de “Hollywood brasileira”, onde Cacilda Becker, Tônia Carrero e tantos outros se misturavam entre Hamlet e os poemas de Paulo Vanzolini, enquanto Plínio Marcos levava o samba das “Quebradas do mundaréu” para dentro da cena, unindo teatro e música em um ritual para bons amantes das belas artes. 


Cineclube Bixiga foi um dos points do bairro nos anos 80 - fonte: Jornal O Estado de São Paulo. Edição de 22 de Outubro de 1989.

Um dos grandes esplendores culturais do bairro é o Teatro Oficina, que sempre foi inovador e revolucionário ao trazer a linguagem popular para dentro da cena. A trupe de Zé Celso, Amyr Haddad e Carlos Queiroz Telles construiu uma ligação única com o bairro e o fez expoente em vários momentos de nossa sociedade, principalmente na ditadura. O Grande Teatro Zaccaro é a marca de um período de ouro que existiu no bairro e que hoje não existe mais. 

Com o avanço do tempo e a massificação da cidade, o período dos anos 90 e 2000 traz a mudança de público ao bairro, casas de show como o Sambarylove levaram o pagode, o rap americano e o hip hop ao contato de um público mais jovem.

O bairro, que era nos anos 80 o point de uma faixa etária entre os 40 e 60 anos, devido às cantinas, casas de shows e teatros, começa a acolher, neste novo período, um público frequentador de faixa etária entre 20 a 40 anos, interessados nos barzinhos e casas de shows que tomam os lugares de muitas cantinas. 

Mas há algo em comum nesta migração: a música!

Neste quesito, entre tantas mudanças, o Bixiga continua sendo um aqueduto de novas ideias e formações, um gigante caldeirão cultural capaz de propor uma nova visão sobre os caminhos nos quais enxergamos a cultura nesta megalópole. 

Enquanto as sirenes das ambulâncias, as buzinas no trânsito da Avenida 23 de Maio e os passos acelerados de quem transita pela região conduzem o ritmo e a sonoridade do bairro, silenciosamente, as velhas águas do Rio Saracura seguem desaguando sobre o oculto e submerso Rio Anhangabaú, abaixo de todos e colocando as raízes de um passado latente para fora, a cada novo temporal. É a canção das águas lutando contra o concreto, é a canção das águas mostrando que sobrevive em meio ao progresso!

E assim, em meio ao caos urbano, o “Bixiga”, como um Baobá de cultura de uma cidade que não para de crescer, resiste enquanto o metrô não vem.

“Um samba muito bom que me contagiou…”

Elizeth Rosa Part. Thobias da Vai-Vai - Praça 14 Bis - Negro Luz

Este conteúdo é uma homenagem não somente a um bairro, mas a todo o berço cultural enraizado na cidade de São Paulo. Cultura é Luz!


SUMÁRIO & FONTES:

- MARZOLA, Nádia. História dos bairros de São Paulo – Bela Vista. São Paulo: Secretaria Municipal de São Paulo, 1979.

- Acervo O Estado de São Paulo

- Site oficial da Escola de Samba Vai Vai

- https://www.museumemoriadobixiga.com/

- Acervos Artísticos e Culturais da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

- Geosampa

- https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100138/tde-02052019-113844/publico/versao_final.pdf

- CORTIÇOS E PATRIMÔNIO NOS ANOS 1980: tristes desfechos no bairro da Bela Vista, em São Paulo - Claudia Muniz, Universidade de São Paulo/Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

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