Música

75 anos de vida e parceria: a arte de Geraldo Azevedo
TEMA DO MÊS de JANEIRO!

sexta, 10 de janeiro de 2020

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Em 2019, Geraldo Azevedo comemorou seus 50 anos de carreira rodando o país com o show Solo Contigo, em que dá voz a clássicos de sua carreira e canções inéditas amparado no formato voz e violão, que gerou registro para a posteridade em CD ao vivo. Agora, em 11 de janeiro de 2020, o cantor e compositor nascido em Petrolina, no coração do sertão pernambucano, chega aos seus 75 anos de vida, ainda no auge da criatividade e comprovando sua relevância para a música popular brasileira.

Nesses 50 e tantos anos de carreira, Geraldo produziu uma obra que mistura as influências modernas da Bossa Nova com referências regionais do Nordeste. Assim, juntando frevo, rock, forró, baião e música pop, suas canções emolduram um vasto panorama do Brasil e da alma humana, passando pelo duro retrato dos anos de chumbo da ditadura militar, mas também por deliciosas canções românticas que caíram na boca do povo. Hoje, grande parte dessa obra é administrada pela Dubas Música, editora que cuida dos direitos autorais do artista. 

Apaixonado por música desde sempre, Geraldo foi autodidata e aos doze anos já tocava violão. Ainda jovem, antes de completar 20 anos, participou de conjuntos como o Sambossa, o Grupo Construção, o Raíz e passou a acompanhar Eliana Pittman no show “Eliana em tom maior”.

No fim dos anos 1960, quando a ditadura já começava a mostrar os dentes, o músico pernambucano juntou-se a Naná Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin da Flauta para formar o Quarteto Livre, que passou a acompanhar Geraldo Vandré em seus shows. Na época, Vandré já era visto pelo regime militar como um subversivo em potencial, um agitador político que os assustava pela catarse que era capaz de provocar quando cantava Pra não dizer que não falei das flores em um ginásio lotado. Juntos, os dois Geraldos compuseram a Canção da despedida, que foi censurada à época e só pôde ser registrada por Geraldo Azevedo em 1985 no álbum A Luz do Solo. A música acabou se tornando um hino político e é cantada em diversas manifestações até hoje.

Já vou embora
Mas sei que vou voltar
Amor, não chora
Se eu volto é pra ficar...


Em 1969, já com o AI-5 instalado, Geraldo Azevedo foi preso com sua esposa e chegou a ser torturado nos 41 dias em que esteve encarcerado. Pouco depois de sair da prisão, conheceu Alceu Valença, que se tornou um de seus grandes parceiros. Juntos, fizeram Talismã, que seguiu trajetória semelhante à Canção da despedida: foi inicialmente censurada, mas não resistiu à força da repressão e logo se tornou um clássico. Dessa nova parceria, surgiu o primeiro disco gravado por eles, que ficou conhecido como Quadrafônico.

As raízes nordestinas de Geraldo Azevedo nunca ficaram em segundo plano em sua carreira. Mesmo em músicas que evidenciam outras referências, os sons da Paraíba continuam ali, na alma de suas canções. Um dos grandes momentos de engajamento pela valorização da cultura nordestina em sua carreira foi em 1984, quando estreou a turnê Cantoria ao lado de Elomar, Xangai e Vital Farias. O repertório do show pautava-se por canções desses quatro compositores que evidenciavam e celebravam a origem nordestina de todos eles, como Ai que saudade de Ocê, Cantiga do amigo, Na quadrada das águas perdidas. Este show, de grande importância para a música popular brasileira, foi gravado em três noites históricas no Teatro Castro Alves, em Salvador, que resultaram no lançamento de dois discos antológicos, o Cantoria 1, de 1984, e Cantoria 2, que só saiu em 1988.


Outro trabalho memorável nesse aspecto é o álbum Salve São Francisco, lançado pela Biscoito Fino em 2011. Com músicas autorais e de outros compositores, o disco passeia pela beleza e a imponência do Rio São Francisco, que atravessa Petrolina, cidade natal do músico pernambucano. Nas palavras de Geraldo, o Velho Chico é "o oásis do Sertão". O disco conta com a participação de diversos artistas nordestinos, como Maria Bethânia, Moraes Moreira e Dominguinhos.

Boas parcerias nos palcos, inclusive, é o que não falta na carreira de Geraldo Azevedo. Impossível falar dele sem logo nos lembrar do Grande Encontro. Se em 1976 o Brasil havia caído aos pés dos quatro baianos Gil, Caetano, Gal e Bethânia com o show Os Doces Bárbaros, exatos 20 anos depois, em 1996, todos se apaixonaram pela união de quatro nordestinos que fizeram história juntos: Geraldo, Alceu Valença, Elba e Zé Ramalho. O projeto reunia clássicos das carreiras dos quatro artistas, além de sucessos de Luiz Gonzaga, Geraldo Vandré e Trio Nordestino. Gravado ao vivo no Canecão, o primeiro disco do grupo se tornou antológico e recebeu Disco de Ouro e Platina, vendendo mais de 300 mil cópias. No ano seguinte, sem a presença de Alceu Valença, o grupo se reuniu em estúdio para gravar O Grande Encontro 2, que manteve a mesma estética do primeiro volume e reuniu canções como Canta coração, Disparada e Banquete dos signos. Essa união rendeu ainda mais dois álbuns ao vivo: O Grande Encontro 3, de 2000, e O Grande Encontro – 20 anos, registro da turnê de comemoração dos 20 anos do projeto, que reuniu Geraldo, Elba e Alceu. Até hoje, basta que pelo menos dois integrantes do grupo original se reúnam para que a magia aconteça e uma multidão de apaixonados se forme para aplaudi-los – merecidamente!


Com parcerias ou em carreira solo, o fato é que Geraldo Azevedo está circunscrito como um nome fundamental do passado e do presente da música brasileira. Seus 75 anos de vida são pretexto oportuno para que a gente lembre a importância de escutar esse mestre que produziu álbuns da grandeza de For All Para Todos, Inclinações Musicais ou Bicho de 7 Cabeças e canções da beleza de Dia branco, Dona da minha cabeça, Caravana e Moça Bonita. Um artista que com certeza seguirá trilhando esse caminho luminoso e não será esquecido nem daqui a 75 anos.


Texto por: Tito Guedes 

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