Tema do Mês

90 anos de Cauby: O renascimento de uma estrela
PARTE 2

sábado, 20 de fevereiro de 2021

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Nos anos 1960, a música brasileira foi invadida por um turbilhão de acontecimentos. A bossa nova, a MPB, a Jovem Guarda, os festivais da canção, a música de protesto, a Tropicália… a palavra do momento era “modernidade”. Tudo precisava ser moderno, ousado, à frente do tempo, político. Com isso, muitos cantores de estilos atemporais, que fizeram escola nos tempos da Era do Rádio, ficaram de escanteio por um tempo, apagados pela grande imprensa e ignorados pela indústria fonográfica. 

Em parte, foi o que aconteceu com Cauby Peixoto ao longo dos anos 1970, embora nesse período tenha continuado a ser querido pelo público, com sucessivos shows em boates e casas noturnas. 

A situação começou a mudar em 1979, quando ele foi chamado para gravar com Elis Regina a música “Bolero de satã” (Paulo César Pinheiro e Guinga) no álbum “Elis, Essa Mulher”, que contou com arranjo de César Camargo Mariano e acompanhamento luxuoso de um trio de jazz. O resultado instantaneamente antológico dessa gravação abriu os olhos de João Araújo, diretor da Som Livre, que decidiu renovar o repertório de Cauby


O resultado foi o disco “Cauby! Cauby!”, lançado em 1980, com repertório formado por canções em grande parte inéditas de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim e Eduardo Dussek. O título, estampado na capa no estilo dos letreiros fulgurantes da Broadway, veio de um lindo retrato do artista pintado por Caetano: 

"Lembro eu deitado na relva
No frio da manhã
Numa clareira da aldeia Tupi
Entre mil pássaros só uma voz
Uma voz, minha mãe
Música doce
Chamando meu nome
Cauby! Cauby!"


O disco (com produção sofisticada) devolveu a Cauby o prestígio que ele sempre mereceu e o fez retornar às paradas de sucesso. “Loucura”, faixa escrita pela então novata Joanna, estourou nas rádios quando entrou para a trilha sonora da novela “Baila Comigo”. Mas a canção mais lembrada do álbum é “Bastidores”, que Chico Buarque compôs para sua irmã Cristina, mas que parece ter sido feita sob medida para a interpretação ambígua e dramática de Cauby: “Chorei, chorei, até ficar com dó de mim/ E me tranquei no camarim/ Tomei um calmante/ Um excitante e um bocado de gim”. 


Com esse trabalho, se cristalizou definitivamente na vida cultural brasileira. Seus discos e shows nunca mais deixaram de ser comentados pela crítica e a imprensa de forma geral. Além disso, influenciado por artistas como Ney Matogrosso e Maria Bethânia ou o pianista norte-americano Liberace, passou a ousar cada vez mais no figurino e nos gestuais de palco. Tornou-se um verdadeiro showman, imprimindo um estilo que se transformou em marca registrada dali pra frente.

O showman em apresentação nos anos 1990 (Foto: Reprodução/O Globo) 

Foi nessa época também que aconteceu um dos reencontros mais emblemáticos da música brasileira.  O álbum “Angela & Cauby” contou com a presença luminosa de Angela Maria, maior representante feminina do estilo e da geração de Cauby. Dois ídolos do Rádio que atravessavam os anos 1980 ainda em forma, borbulhando de paixão, sensualidade, melancolia e glamour. Dez anos depois, os dois ainda lançariam outro disco antológico, gravado ao vivo no Imperator com repertório formado por clássicos como “A pérola e o rubi”, “Lábios de mel” e “Miss Sueter”. 

A partir dos anos 2000, sua discografia foi inundada por songbooks em homenagem a nomes como Baden Powell, Roberto Carlos, Frank Sinatra, Beatles, Nat King Cole e Dick Farney (lançado postumamente). São trabalhos que, além de prestar homenagens a algumas das maiores influências de Cauby, provam mais uma vez sua versatilidade como intérprete. 

Registro do espetáculo "Cauby Sings Sinatra", de 2011 (Foto: Reprodução/O Globo) 

Em maio de 2016, pouco depois de completar 85 anos, Cauby Peixoto faleceu. Quem assistiu ao documentário “Começaria Tudo Outra Vez”, de Nelson Hoineff, pôde comprovar que, apesar de sua fragilidade física nos últimos anos, sua voz permaneceu até o fim com o mesmo vigor que o tornou ídolo nos anos 1950. 

Artistas da linhagem de Cauby, como se diz, são eternos. Para sempre, seja no céu azulado ou numa noite estrelada, soará no céu, com toda elegância e glamour que ele merece, o grito de “Cauby! Cauby!”

Texto por: Tito Guedes


Este é a primeira parte de uma série de dois artigos sobre os 90 anos de Cauby Peixoto, celebrados em fevereiro de 2021. Fique por dentro: 


PARTE 2: O renascimento de uma estrela (lendo agora) 

*Agradecimentos a Lucas Correa pelo envio das imagens que compuseram esta matéria. 

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