Colunista Convidado

A essencial Tia Amélia revive no piano de Hercules Gomes

terça, 08 de setembro de 2020

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Muitas abordagens feministas da criação musical brasileira, saltam direto da pioneira pianeira e compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935) para as cinquentistas Maysa (1936-1977) e Dolores Duran (1930-1959), como exemplos de exceções ao predomínio masculino condutor da MPB, ao longo de décadas. Mas, no meio do caminho, destaca-se, entre outras, a obra singular e prolífica da pianista e compositora Tia Amélia. Filha de músicos, a pernambucana de Jaboatão dos Guararapes Amélia Brandão Nery (1897-1983) começou a compor aos 12 anos. Viúva, em 1922, encarou a vida artística do início da era do rádio, em Pernambuco e no Rio, excursionou ao exterior, apresentou-se no Teatro Municipal carioca e, após um recesso de 17 anos, voltou a brilhar já na fase da TV, em programa próprio, que passou por várias emissoras. O nome artístico respeitoso ganhou de Roberto Carlos, a quem acolheu no início da carreira, e a homenageou na canção “Minha tia”, em 1976.  O disco dela “Velhas estampas”, com a banda Vila Rica, em 1958, ganhou prêmios, fez sucesso e marcou época. Sua ligação à ancestralidade da MPB foi sacramentada num encontro com outro pianeiro pioneiro, o fundador Ernesto Nazareth (1863-1934). “Quando eu morrer, você continue no choro, não deixe o choro morrer”, teria recomendado a ela, o autor dos megaclássicos “Odeon”, “Apanhei-te cavaquinho”, “Brejeiro” e “Tenebroso”, entre muitos.

Em “Tia Amélia para Sempre” (SESC), pelo pianista capixaba Hercules Gomes, o legado da pianista e compositora é retomado, quase quarenta anos depois, com a devida abertura para a modernidade, através de improvisos e uma leitura intensa de suas composições. Os baixos da mão esquerda da virtuosa pianista, que emulam um turbinado violão 7 cordas alinhavando os choros, reencarnam no desempenho eloqüente de Hercules. “Diferente do que estamos acostumados a entender por piano popular nos últimos 70 anos, Hercules utiliza outro jeito de tocar, trabalhando bastante a mão esquerda, com saltos, acordes, sextas, linhas do baixo, enquanto a direita, ao desenhar as complexas melodias do choro, se esbalda nos contratempos da música, trazendo uma imensa riqueza rítmica, e transformando o piano numa verdadeira orquestra de baile”, define, no encarte, o estudioso Alexandre Dias, diretor do Instituto Piano Brasileiro. “Seus dedos esticados sempre me lembraram os de Vladimir Horowitz, somando-se uma técnica de pulso solto, que depois compreendi vir de seus anos de estudo com Silvio Baroni, discípulo de Piero Maranca”, adiciona.