Música

A gestação de um Rei: 60 anos da primeira gravação de Roberto Carlos

quarta, 11 de dezembro de 2019

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Para muitos, dezembro pode ser o mês do Natal, do Ano-Novo ou do décimo terceiro. Para os fãs da música popular brasileira, dezembro ainda é, definitivamente, o mês de Roberto Carlos. É assim desde 1965, quando ele lançou o antológico álbum Jovem Guarda, instituindo a tradição de lançar discos anuais sempre no último mês do ano, que só foi quebrada em meados da década de 1990, quarenta e poucos discos depois. Em 1974, Roberto criou uma nova instituição nacional para ser celebrada em dezembro: o seu especial de fim de ano, que existe até hoje. 

Mas dezembro de 2019 tem um gostinho especial para Roberto Carlos: o Rei completa este ano seus 60 anos de carreira, ou melhor, os 60 anos de seu primeiro registro fonográfico, porque cantar pra valer ele já fazia desde muito cedo.

Esses primeiros registros são duas músicas gravadas em um 78 rotações pela Polydor em meados de 1959 e podem surpreender muita gente que acha que Roberto já nasceu entre os carrões velozes e as garotas papo-firme da Jovem Guarda. Isso porque seu primeiro disco é uma declaração de amor radical e apaixonada à Bossa Nova, e sobretudo a João Gilberto, a quem ele imitava descaradamente. Hoje, trata-se de um item raro, de colecionador. 

Mas, vamos voltar um pouco no tempo porque pegamos a história andando. Roberto Carlos já era apaixonado por música desde muito novo, quando mal se entendia por gente e já imitava Bob Nelson pelos corredores de sua casa, em Cachoeiro de Itapemirim. Aos quinze anos, saiu da cidade natal para viver em Niterói, em busca de uma oportunidade nas rádios do Rio de Janeiro. Transcorria a Era do Rádio e seus grandes ídolos eram os românticos Dolores Duran e Tito Madi.

Entre 1956 e 1957, o surgimento do rock de Elvis Presley, Bill Halley e companhia chacoalhou a cabeça do jovem Roberto, que chegou a  fazer parte de um conjunto vocal, The Sputniks, comandado por um tal de Tião Maia, mais tarde conhecido como Tim Maia. Nessa época, apadrinhado por Carlos Imperial, teve um primeiro e fugaz gosto da fama ao se apresentar no programa Clube do Rock, no qual ficou conhecido como o “Elvis Brasileiro” por imitar os trejeitos do Rei do Rock. 

Em 1958, porém, a euforia do rock and roll que tomou conta do mundo teve uma queda brutal. No Brasil, para alguns, essa euforia foi substituída por um som diferente, que misturava o sotaque de Juazeiro com o salgado do mar de Copacabana: a Bossa Nova, que chegou na voz mansamente agressiva e “desafinada” de João Gilberto

Roberto Carlos foi um dos que ficou completamente hipnotizado pelo novo jeito de cantar: mais intimista, sincopado e muito, muito moderno! Sai Elvis e entra João Gilberto no coração do ainda jovem Roberto Carlos. Sai o requebrado e entra o banquinho e o violão que Roberto passou a empunhar como crooner da boate Plaza em Copacabana. Estava decidido: queria ser um cantor de Bossa Nova, com o mesmo jeito doce e suave de João Gilberto

Carlos Imperial, sempre ele, foi a ponte entre esse desejo do futuro Rei e a gravadora Polydor, com quem conseguiu - com muito suor, diga-se de passagem - o contrato para que Roberto gravasse seu primeiro 78 rpm. As músicas escolhidas? Fora do tom, de Carlos Imperial, e João e Maria, parceria de Roberto Carlos e Imperial. O resultado? Uma impressionante similaridade com João Gilberto


E com essas músicas, o que aconteceu? A consagração? A fama e o sucesso? Ainda não…

O disco não vendeu e Roberto acabou sendo dispensado pela Polydor, sendo obrigado a passar um tempo no ostracismo. As portas só voltaram a se abrir mesmo em 1963, quando gravou seu segundo álbum, já de volta ao rock, com os sucessos Parei na contramão e Splish Splash.

Mesmo assim, não se pode negar o importante legado dessas duas gravações iniciais de Roberto Carlos. Apesar de não terem se firmado como canções significativas do seu repertório, trata-se de um documento histórico, registro primordial de um dos cantores mais populares da história da música brasileira. É o registro material da formação de suas primeiras influências e experimentações, o retrato de um ídolo da música nacional ainda em formação, tentando buscar sua própria identidade artística, imitando seu ídolo pra ver se conseguia alcançar a perfeição que enxergava em João Gilberto e da qual queria se aproximar. Ouvir essas músicas é como ver um Rei em gestação, alimentando-se de matéria prima para depois se fortalecer e trilhar seu rumo. 

Muitos podem pensar que depois desse trabalho, a Bossa Nova evaporou de Roberto Carlos, mas não é verdade. Seu canto moderno e muito afinado é prova desse parentesco entre Roberto e João. Mesmo bebendo em fontes como o bolero e a canção romântica, Roberto nunca deixou de lado uma suavidade delicada e um leve toque de sofisticação às suas músicas e interpretações. 

O fato é que ouvir Fora do tom e João e Maria, já pensando em toda a carreira discográfica de Roberto Carlos, é saber que nunca seremos capazes de desvendar totalmente a fonte misteriosa da força estranha que ainda sustenta a coroa de Rei em sua cabeça. Afinal, que outras influências podem estar amalgamadas à personalidade artística tão singular que Roberto foi capaz de construir e que ainda mantém inabalável? É possível enumerar um monte delas, mas no final a gente acaba se confundindo mais do que explicando. Afinal, é melhor ouvir Roberto Carlos do que tentar decifrá-lo. E desse primeiro 78 rpm até Amor sin límite, seu último álbum, temos um material muito farto para degustar e celebrar os 60 anos da carreira de um Rei que talvez nunca perca o trono.


Texto por: Tito Guedes

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