Música

A luz e o esplendor de Elizeth Cardoso no seu centenário
TEMA DO MÊS de JULHO!

sábado, 04 de julho de 2020

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Quem é a maior cantora do Brasil?

Desde muito tempo a crítica e os apreciadores da música brasileira se contorcem para chegar a um consenso sobre essa pergunta, sempre em vão. De toda forma, se esse debate fosse realmente produtivo, quaisquer que fossem as candidatas ao posto teriam de enfrentar uma concorrente das mais difíceis: Elizeth Cardoso

Consagrada como A Divina, A Magnífica, A Enluarada e até Lady do Samba, Elizeth foi uma artista e tanto, dona de uma voz poderosa que a permitia cantar sambas de morro, samba-canção ou as bachianas de Villa-Lobos com o mesmo virtuosismo. Uma voz límpida, serena e emotiva a um só tempo, que para muitos se insere no tênue limiar entre a tradição e a modernidade. 

Foto: Acervo Museu da Imagem e do Som

Seu repertório é abrangente e ao mesmo tempo seleto. Isso significa que embora tenha sido soberana no samba-canção, não se limitou a um só gênero, e chegou a gravar sambas tradicionais (Elizete sobe o morro", Falou e disse, Leva meu samba) e, claro, o disco “Canção do amor demais”, que abriu as portas para que nascesse a Bossa Nova. Isso não fez, no entanto, com que ela caísse no chavão por vezes redutor do “ecletismo”. Tudo o que gravou foi revestido por sua personalidade incomparável, coisa de que só as grandes intérpretes são capazes. 

Sob a luz do refletor dos teatros, Elizeth era uma verdadeira dama. Sempre vestida em figurinos impecáveis, cercada pelos melhores músicos, ela sabia dominar o palco como ninguém. A interpretação quente já perceptível nos discos de estúdio se elevavam à máxima potência nos shows, o que deixava o público refém de seu talento. Ao fim de cada espetáculo, só lhes restava levantar da cadeira e aplaudir de pé, extasiados. 

Alguns de seus álbuns ao vivo dão conta de retratar essa potência. São bons exemplos os discos produzidos em 1968 pelo Museu da Imagem e do Som com o registro do histórico recital no Teatro João Caetano (com o Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro) e “Elizethíssima” (1981), gravação do impecável espetáculo “Vida de artista”, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho para o Projeto Pixinguinha da Funarte

Fotos: Reprodução. 

Elizeth não foi recordista em vendas de discos, mas conquistou um lugar de prestígio e respeito inigualável no meio musical. Maysa, que não era exatamente afeita a elogios, por exemplo, disse a vida inteira que Elizeth era sua maior musa, com quem aprendeu “tudo”. Sempre que perguntada em entrevistas sobre suas referências, Marina Lima invariavelmente cita o nome de Elizeth. “Sou louca por ela”, costuma dizer. 

Como podem duas artistas tão diferentes em estilo, gênero e época serem devotas de uma mesma cantora? A resposta talvez seja simples: Elizeth Cardoso não é um gênero, um estilo ou uma época. Elizeth é a música brasileira. 

E ela representa um Brasil que muitos ainda tentam esconder. A história iluminada de sua trajetória bem sucedida é também a história de uma mulher negra, pobre, nascida no subúrbio carioca, de baixa escolaridade, que conseguiu construir sua carreira e ser uma mulher independente no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. Elizeth é o Brasil ancestral do quintal de Tia Ciata, que precisou largar os estudos aos 10 anos para ajudar na renda de casa. O Brasil que enfrentou o machismo de maridos autoritários para trilhar seu caminho, que teve a coragem de existir e resistir quando as circunstâncias pareciam indicar o contrário. 

Elizeth Cardoso fez esse Brasil emergir num canto cheio de luz, esplendor e dignidade. Sem hastear bandeiras, munida apenas com a voz e o talento, fez a outra face desse mesmo Brasil - racista, autoritário e elitista, aplaudi-la de pé e consagra-la como uma de nossas maiores riquezas culturais. 

Em julho de 2020, comemoramos com alegria o centenário dessa artista fundamental para a nossa história. Que a ocasião faça o Brasil se redescobrir e aplaudir mais uma vez Elizeth Cardoso.  

Texto por: Tito Guedes


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