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A MPB pelo mundo em: O hit de Rod Stweart, o ouvido do francês e outras versões 'legais'

quarta, 28 de abril de 2021

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A Música Popular Brasileira é aclamada mundo afora. Muitos de nossos clássicos, e também composições pouco conhecidas, já foram regravadas ou tiveram trechos utilizados por artistas do cenário internacional.

Bem! Não vamos nos ater ao óbvio, afinal você possivelmente já ouviu Frank Sinatra cantar "Garota de Ipanema"...

"Aquarela do Brasil" (Ary Barroso), originalmente gravada por Francisco Alves em 1939, segue sendo uma das músicas mais regravadas de todos os tempos. Dentre as tantas versões, vale destacar a gravação do "The Ritchie Family". No ano de 1975 o grupo vocal estadunidense lançou o álbum "Brazil" contendo a homônima versão para a composição de Ary Barroso. Acompanhadas pela lendária Salsoul Orchestra, o trio feminino transformou o clássico brasileiro em um dançante sucesso da Disco Music.


Outros artistas deste período também surfaram na música brasileira, produzindo trabalhos bem interessantes. O cantor Gary Criss lançou em 1978 o álbum "Rio de Janeiro", contendo a ótima "Girl from Ipanema/Brazilian Nights".

Earth, Wind & Fire é sem dúvidas um dos mais importantes grupos musicais de todos os tempos. No álbum All'N All, lançado no ano de 1977, foi incluído um pequeno mas extremamente significativo trecho instrumental de nome "Brazilian Rhyme", onde executaram "Ponta de Areia" (Milton Nascimento / Fernando Brant).

Você já ouviu o termo "sample"? Caso não, a explicação é simples. No universo musical, se trata de amostras de músicas já existentes e que são utilizadas em outras composições. No Brasil temos exemplos bem conhecidos, como o de Marcelo D2 em "Desabafo", em que se pode ouvir repetidas vezes o trecho extraído de "Deixa Eu Dizer" (Ronaldo Monteiro de Souza / Ivan Lins), gravado pela cantora Claudya em 1973.

Há pouco mais de um ano o rapper e produtor canadense Freddie Dredd lançou a música chamada "OPaul". Por meio da rede social Tik Tok acabou por se tornar um grande sucesso entre os jovens de todo o mundo que tentavam cantar a letra em português, ao mesmo tempo que faziam as mais estranhas dancinhas que se possa imaginar. A música nada mais é que um trecho de "David" (Nelson Angelo), lançada em 1971 no álbum de estreia da cantora brasileira Célia (1947-2017).

Jay-Z, famoso rapper que é casado com a cantora Beyonce, foi mais um destes artistas que bebeu da nossa fonte. A música "Thank You" foi construída tendo como base um trecho de "Ele e Ela", obra de Marcos Valle lançada em 1970. 


O grupo de Hip Hop De La Soul transformou um trecho do forrozão "A Dor é Curta e o Nome Cumprido" (Odair Cabeça de Poeta) em "The Art of Getting Jumped".

O rapper Mos Def foi além, não usou um trecho como base para as suas rimas, mas sim uma música inteira, onde acabou por se tornar a versão da versão. Como é isso? Eu explico! "Casa Forte" é uma composição de Edu Lobo, lançada no álbum "Cantiga de Longe" do ano de 1970. Em 1977 a Banda Black Rio gravou uma versão instrumental, presente no discaço "Maria Fumaça", onde esta sim deu origem à gravação "Casa Bey", lançada em 2009.

Wilson Simonal é um sinônimo de brasilidade. Com seu balanço e toda a pilantragem, do bem, que fez parte de sua carreira. Fica até difícil imaginar um artista francês de origem turca, mandando super bem em um versão de "Não Vem Que Não Tem" (Carlos Imperial). Pois é! Mas existe e a interpretação ficou a cargo do cantor Marcel Zanini e a sua "Tu Veux Ou Tu Veux Pas", lançada no ano de 1969, tendo sido posteriormente também gravada pela atriz Brigitte Bardot.

Ainda em solo francês, vale aproveitar a estadia e conhecer Pierre Vassiliu com "Qui C'Est Celui-La", versão para "Partido Alto" (Chico Buarque), mais uma adaptação para a já citada "Casa Forte" (Edu Lobo) mas dessa vez pela voz de Isabelle Aubret e a belíssima "Pas Tant De D'Chichi Ponpon", gravação de Jean Constantin para "Samba da Minha Terra".


Para que uma música seja gravada, algumas etapas LEGAIS precisam ser seguidas. Há necessidade de autorização dos compositores, o devido recolhimento e repasse dos direitos autorais, além é claro, de que os devidos créditos sejam mencionados. Ao que parece há por aí quem ainda não saiba disso, ou finja não saber...

Rod Stweart é um conhecido cantor e compositor. No ano de 1978 lançou o álbum "Blondes Have More Fun" com a música "Da Ya Think I’m Sexy" que se tornou um imenso sucesso, alcançando o primeiro lugar em muitas das paradas de sucessos por todo o mundo. Não demorou e foram percebidas semelhanças entre sua música e "Taj Mahal", composição de Jorge Ben Jor.

Em uma matéria exibida pelo programa Fantástico, Jorge Ben disse que a princípio soube que sua música havia sido regravada pelo artista britânico e até ficou feliz, mas claro que não tanto ao descobrir que nenhuma menção à sua obra havia sido realizada e que não se tratava bem de uma regravação.

O refrão da música de Stweart, claro que com a adição de uma nova letra em seu idioma, é idêntico ao da canção de Ben Jor. Ouvir o trecho em que ele canta "If you want my body and you think I'm sexy" e em "Taj Mahal" o que é cantado "Te te teretê"; não deixa dúvidas sobre a fidedigna semelhança. Foi plágio e a comprovação é de que após ser acionado, Rod Stweart, que também é conhecido por ser um tanto quanto temperamental, acatou e resolveu a questão. Anos depois o artista relatou em sua autobiografia que havia passado um Carnaval no Rio de Janeiro, ouviu a música inúmeras vezes e que inconscientemente a melodia se alojou em sua mente.

Convido vocês a ouvir as duas músicas:



Bem! Para encerrar, trago uma história que tive o prazer de ouvir do próprio compositor. Há alguns anos entrevistei o muito simpático Antonio Carlos (da dupla com Jocafi). Os dois são responsáveis por grandes obras como é o caso de "Você Abusou"; que é justamente o tema deste caso.

A música foi lançada no álbum "Mudei de Ideia" do ano de 1971. Conforme o relato de Antonio Carlos, a dupla foi convidada a participar de uma festa, em que acabaram por tocar a já citada música, em um clima informal e sem maiores preocupações.

"Você Abusou" é uma música linda e pelo visto um dos convidados também gostou bastante, o  músico francês Michael Fugain.

O evento acabou, o ano de 1971 também e eis que Michael e o grupo Le Big Bazar realizaram o lançamento do álbum "Fais Comme L'Oiseau", no qual a música que deu nome ao trabalho era uma versão não autorizada de "Você Abusou", que acabou se tornando uma espécie de hino socialista, sendo amplamente executada. Anos depois, por meio de amigos, Antonio Carlos e Jocafi foram informados sobre a existência da música.


Me lembro de que em meio ao papo, eu e Antonio Carlos rimos bastante e concordamos, é inegável que Michael tem um ótimo ouvido musical. Ouviu, guardou, posteriormente realizou a escrita musical, ensinou a uma banda inteira, fez um belíssimo arranjo vocal, mas... é plágio e claro tudo acabou sendo resolvido por meios legais...

Até a próxima!

Jonn Nascimento 

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