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'A vida é', o novo libelo humanista de Celso Viáfora

sexta, 28 de maio de 2021

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Na contramão da cultura desatenta do streaming, que, na maioria das vezes, omite até mesmo o essencial nome do criador da obra, Celso Viáfora, cantor, compositor, arranjador, produtor, municia seu ouvinte com o máximo de informações sobre o seu recém lançado álbum “A vida é” (Scortecci Editora). Na verdade, o CD é que vem encartado num livreto com as letras, partituras, fichas técnicas completas, e ainda “histórias sobre como e para que foram criadas cada uma das canções e arranjos, o que foi buscado com a escolha e o fraseado de cada instrumento”, enumera o solista. Gravado por Ney Matogrosso (“A cara do Brasil”), Fafá de Belém (“Cio baby doll"), Vânia Bastos (“Linda de lua”), Simone (“Atlântida”), Eduardo Gudin (“Minha cara no espelho”), Jane Duboc (“De alma e corpo”), Demônios da Garoa (“Santo Expedito”), Tom Zé (“O craque”) e Nana Caymmi (“Só prazer”), Viáfora teve seu primeiro grande sucesso na voz do cantor e compositor paraense Nilson Chaves, “Não vou sair”, que estourou a partir do Norte do país.

Ele também se aliou a parceiros como Guinga (o choro “Di menor”), Francis Hime (“Bantu Tupi”), Chico Saraiva (“Antes de você me aparecer”) e Joãozinho Gomes (“Batuque de tudo”). Mas seus mais assíduos parceiros são Vicente Barreto (“Casa vazia”, “Olhando o Pixinguinha”, “Linda flor”, “Pastel de feira”) e Ivan Lins (“Emoldurada”, “Diplomação”, “Rio de maio”, “A cor do pôr do sol”), com quem dividiu o álbum “Nossas canções", em 2006. Outra da dupla, “Veneziana”, na voz da cantora Simone, foi escalada na trilha da novela da Globo, “A lua me disse”.

Erguida à sombra do mercadão comerciante, a obra do paulistano Celso Viáfora prima pela consistência, temperada pelo humor e um tanto de sarcasmo. Ele estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e fez curso de arranjo com o maestro Nelson Ayres. Pegou o final dos festivais e ainda emplacou sua composição “Dia a dia”, no Universitário da MPB, de 1979, ao lado de “Diversões eletrônicas” de Arrigo Barnabé e “Brigando na lua”, do Premeditando o Breque. Ganhou o prêmio de “melhor arranjo” no Festival Internacional de Viña Del Mar, no Chile com a música “Grão da terra”. Com “Filhos da ventania”, participou do 4º. Musicanto Sulamericano de Nativismo, em 1986. Foi neste ano que estreou no LP coletivo “Trocando figura”, ao lado de Cesar Brunetti, Jean e Paulo Garfunkel. O primeiro disco solo sairia em 1991, com seu nome, pela gravadora paraense Outros Brasis, onde ele iniciou a parceria com Vicente Barreto (“Fruta menina”), que dominaria o álbum seguinte, “Paixão candeeira”, espraiada em sete faixas. 

Foto: Divulgação  

Na sequência, ele lança “Cara do Brasil” (1999), que o levou a apresentar-se em templos da MPB como Canecão, Tom Brasil, Teatro João Caetano e Mistura Fina, com participação especial do parceiro Guinga. Em 2001, saiu o álbum “Basta um tambor bater”, com participações de Ivan Lins, Beth Carvalho e MPB4, lançado no Teatro Rival, em show dirigido por Túlio Feliciano. Escoltado pelo grupo Barracão Sonoro, formado por crianças da comunidade paulistana de Paraisópolis, Celso fez show no teatro Crowne Plaza, em SP, com repertório de seu disco “Palavra!”, editado em 2003. E após o disco com Ivan Lins, em 2006, chegou ao CD/DVD “Batuque de tudo” (2010), registrado num estúdio situado numa fazenda no interior de SP, num coletivo de 60 pessoas entre técnicos, músicos e artistas convidados. No projeto, novas parcerias com Rafael e Pedro Altério (“Mãe e só”, “Dio-Zâmbi”), Caê Rolfsen (“No tambor de criola”) e Zé Edu Camargo (“Daqui”) e a adesão de músicos como Léa Freire, Vinicius Dorin (sopros), Webster Santos (cordas), Sizão Machado (baixo), Carlinhos Sete Cordas e Trio Manari (percussão). Em 2013, foi a vez do independente “Amores absurdos”, incluindo parcerias de Sérgio Santos (“A ponte dos sonhos”), Nilson Chaves ("Os filhos estão de partida”) e Breno Ruiz (“Um sonho emprestado”).

No atual “A vida é”, cevado pelos arranjos e violão do solista, conjugam-se crueza e lirismo. Do xote “Pé de cachimbo” (“sem um lugar pra onde ir/ deixaram tudo por aí/ o colchonete, o cobertor, uma garrafa de refri”) irrompe uma cena do flagelo urbano do crack, atravessada por um mantra de trombone (Maestro Tiquinho) e guitarra esgarçada (Webster Santos). Crestado pelos agudos de um flugelhorn alado (Claudio Faria), a levada de rock pesado de “Comunidade”, com direito a um texto incidental (“O populacho”), escancara o fio da navalha da maioria da população periférica, entre o assistencialismo do tráfico e a omissão do Estado. Também turbinado por guitarras, baixo elétrico (Fi Maróstica) e bateria a mil (Thiago Big Rabello), “Em outras palavras” desidrata o velho palavrão, que ainda choca alguns, em contraste com ofensas à humanidade desconsideradas (“palavras feias não tiram a vida em Bagdá/ palavras belas não botam comida no Haiti”).

Em contraponto, “Noturna cidade”, escrita para a peça de Viáfora “A repartição” exalta a paulicéia na penumbra (“janelas acesas exibem a insônia dos prédios/ farmácias entregam remédios pelos motoboys”), modulado por cello (Vana Bock). Parceria com Joãozinho Gomes, a partir de um tema inicial sobre a cidade do parceiro, Macapá, “Vozes da madrugada” ecoa vocal epitelial de Patrícia Bastos em duo com o solista, e o transporte da percussão do marabaixo local para uma percussão eletrônica, “picotada com os ruídos de São Paulo”. Duas letras contrastam os cenários: “cidade cafuza onde moro/ sem muro é minha morada/ com a franja da aurora decoro/ os caramanchões na sacada”, e “cidade confusa onde moro/ pomares de amoras muradas/ na pedra o jardim que lavoro/ auroras da cara manchada”. Na frenética “Acelerado”, de cadência abaionada, um carro e uma moto disputam espaço no trânsito apinhado, tal como flauta (Enrique Menezes) e piano (Tiago Costa) duelam no tema, baseado num incidente real entre motorista (o próprio autor) e motoqueiro, ambos corintianos.

De ritmo recorrente, “Um dia desses” tempera um acerto de contas geracional (“filho, é sua vez agora/ faça mais que eu pelo futuro”), que deságua no alento do acalanto da finalista “A vida vi” (“na mamãe grávida vi/ dádiva da vida vi/ no som do seu coração:/ impávida, a vida vi”). Desfecho esperançoso para um manifesto de indignação humanista.

Tárik de Souza

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