Música

Adeus Batucada
Saudades de Carmen Miranda

quinta, 28 de fevereiro de 2019

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Durante anos Carmen acalentava o sonho de voltar ao Rio no Carnaval – "de camisa de malandro e tocando cuíca" – e passar os quatro dias nas ruas, incógnita, cantando e brincando entre os populares. Nunca pudera realizá-lo. Quando não era uma Guerra Mundial que a impedia, era um filme com Don Ameche na Fox ou uma temporada no Roxy em Nova York, ou duas semanas num cassino assim e outras num nightclub assado. Em dezembro de 1954, após 14 anos de ausência, chegou a voltar para o Brasil. No Carnaval de 1955, ela esteve no Rio, mas de nada valeu: veio para tratar de sua saúde e seu médico preferiu exilá-la em Petrópolis durante a folia. Carmen estava com profundo esgotamento nervoso. Matou as saudades, compareceu a teatros e festas, foi muito homenageada.

Volta, então, no mês de abril para sua extenuante agenda de shows, nos EUA. A mesma rotina que foi massificando Carmen ao longo dos anos. Na noite de 4 de agosto de 1955, das 19h às 22h30, nos estúdios da Desilu, em Gower Street, nossa maior estrela fez sua última aparição ao público. E, sempre brasileiríssima, Carmen cantou o baião Delicado em português. Houve um momento na gravação com “Jimmy Durante Show”, enquanto apresentava um número de dança, em que ela quase desfaleceu, tendo sido amparada pelo apresentador.  Mas não deu importância ao incidente. Após o show, ainda vestida com o tailleur vermelho favorito, foi para sua casa de Beverly Hills, Los Angeles, comemorar mais um bem-sucedido dia de trabalho. Na manhã seguinte, seu marido David Sebastian encontrou-a morta, um lenço de papel na mão e o pote de cold-cream ao seu lado, vítima de um colapso cardíaco. Foi assim que, em 5 de agosto de 1955, a esfuziante Carmen Miranda (ela detestava que seu nome fosse escrito com “m”...), que adorava viver cercada de gente... morreu sozinha, como tantos outros mitos de Hollywood. Tinha apenas 46 anos. Mas atingiu a imortalidade na sua brilhante carreira.

O principal fator para aquele desfecho era a dependência de um poderoso e mortal aditivo, quase sempre potencializado pelo álcool. A mesma tragédia que atingiu vários outros grandes nomes de Hollywood como Mabel Normand, John Gilbert, Lupe Velez, Robert Walker, Maria Montez, e, depois de Carmen, mataria também Diana Barrymore, Marilyn Monroe e Judy Garland – todos ricos, bonitos, famosos e com menos de cinquenta anos.

Dr. Marxer foi chamado a North Bedford Drive, mas não podia fazer nada – o próprio telefonou para o Rio. Devido à diferença de fuso horário, já eram mais de quatro da tarde quando a notícia chegou a Aurora, na Urca. Pouco depois, pelo Repórter Esso, com Heron Domingues, em edição extraordinária, a Rádio Nacional a transmitiu para todo o país. Informou-se também que Carmen seria enterrada no cemitério de São João Batista, no Rio. Foi uma espécie de senha para um Carnaval em agosto. Imediatamente, todas as rádios brasileiras tiraram de suas discotecas os 78s empoeirados de Carmen, que nunca mais tinham se lembrando de tocar. De Taí a Disseram Que Voltei Americanizada, seus sambas e marchinhas ocuparam a programação pelos dias seguintes.

Agora, seis meses depois, Carmen descia de novo no Galeão – a bordo de um DC-4 da Real Aerovias, dentro de um caixão revestido de alumínio por fora e de bronze por dentro, envolto pela bandeira brasileira. O caixão foi levado para um carro do Corpo de Bombeiros, que tinha as partes metálicas cobertas de preto. Do Galeão, deu saída para o cortejo de horas pela avenida Brasil, entre milhares de lenços brancos acenando sua passagem. Na sede da Rádio Nacional, lá estava Almirante. Tentou falar, mas sua voz, tão possante, não foi muito longe. Na sacada da Mayrink Veiga, César Ladeira a esperava, também falou emocionado. 

Por toda a noite de 12 para 13 de agosto, o Rio desfilou em silêncio diante de Carmen. Mais de 60 mil desfilaram perante seu corpo. No sepultamento, o acompanhamento foi o mais concorrido de toda a história do Rio, debaixo de profunda comoção popular entre 500 mil a 1 milhão de pessoas. Os membros da Velha Guarda – Pixinguinha, Donga, João da Baiana e seus companheiros – , postados nas escadarias, tentaram tocam Taí para saudá-la pela última vez. Mas não conseguiram. As gargantas se fechavam, o saxofone e a flauta não produziam som, a emoção era muita. Synval Silva pretendia acompanha-lá de carro, mas, ao passar pela praça Paris, ouviu quando o carrilhão mudou para Adeus, Batucada. Era o samba que, um dia, levou a Carmen na casa do Curvelo. Synval começou a chorar e sentiu que não conseguiria prosseguir. 

Cantou-se por todo o percurso: Praia do Flamengo, avenida Oswaldo Cruz, Praia de Botafogo – das janelas dos prédios altos caíam pétalas de rosa –, Mourisco, rua da Passagem. Finalmente, na rua General Polidoro, viu-se ao longe o São João Batista. Passara-se uma semana desde a morte de Carmen em Beverly Hills na madrugada de 5 de agosto, e ela estava de volta para que se cumprisse outro desejo seu: o de ser enterrada no Brasil. Nos braços do povo, Carmen Miranda vivia o seu maior Carnaval.

Em 5 de dezembro de 1956, o prefeito Negrão de Lima assina a Leia nº. 886, que cria o Museu Carmen Miranda, para guarda, conservação e exposição do acervo da artista, doado pelo marido, e constante de sapatos, roupas, joias e troféus. Inaugurado em 5 de agosto de 1976, no Aterro do Flamengo. Em 1971, a moda lançada por Carmen ressurge em todo o mundo. 

Em sua época, o Brasil ainda era um país pitoresco, exótico e longínquo, muito pouco conhecido. Carmen representava muito do Brasil e deu ao mundo a imagem de um país feliz, alegre, tropical, quente e positivo. É óbvio que o Brasil não é só isso, mas Carmen mostrou aos outros povos o que é a nossa música, a nossa dança e a nossa arte. Por isso a imagem de Carmen e o Brasil ficaram geminadas por tanto tempo, porque Carmen era meio que o próprio Brasil. Ela oferecia o nosso melhor e mais bonito aos estrangeiros. O carnaval, o samba, o humor, a beleza e a alegria. Ela, que sequer era latina (afinal nasceu portuguesa), nunca se naturalizou brasileira ou americana, morreu sendo portuguesa. Mas a brasilidade e a latinidade de Carmen Miranda encantou o mundo. Pode-se dizer que a razão do sucesso de Carmen foi a identidade cultural brasileira que ela carregava consigo mesma. Não pode existir nada mais brasileiro que Carmem Miranda, a brasileira mais famosa do século XX.


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