Música

Agoniza, mas não morre: João Nogueira e os 40 anos do Clube do Samba

terça, 12 de novembro de 2019

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O ano era 1979. Quinze anos depois do golpe, a ditadura militar começava a ceder lentamente e já se faziam sentir no ar as primeiras lufadas da redemocratização. Estava chegando ao fim a década da repressão, da censura, mas também do desbunde, dos hippies, da revolução sexual. O clima de euforia e liberação combinava com um gênero musical estrangeiro, que aportou de forma avassaladora no Brasil na segunda metade da década de 1970: a disco music. As pistas de dança se enchiam de gente coberta de purpurina, transando as mais diversas drogas e sensações. As Frenéticas estavam no auge do sucesso e vários outros artistas da MPB se rendiam ao momento, registrando a nova febre em seus discos.

Alguns, no entanto, estavam de fora dessa onda frenética. Nos fundos dos quintais, nos terreiros e nas rodas, sofria calado o samba. Esquecido? Superado? Morto para sempre? Para Nelson Sargento, meio melancólico, meio esperançoso, o samba apenas agonizava: 

Samba
Agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro…

De fato, não demorou muito para que alguém viesse ao socorro de um dos gêneros mais tradicionais do Brasil. O salva-vidas foi João Nogueira. Desde a adolescência metido nesse tal de samba, em blocos de carnavais e em uma escola chamada Portela, gravado por cantoras como Clara Nunes e Elis Regina. Estreante como cantor em 1972, se consolidou mesmo em 1975 com o disco Vem quem tem, processo consagrado com o antológico Espelho, de 1977. 

Pois foi João quem, em 1979, resolveu tirar o samba da agonia. Morador do Méier, fez de sua casa o ponto de encontro de sambistas da nova e da velha guarda. Um clube que reuniria toda essa gente, para fortalecer um gênero tão importante, mas que perdia espaço nas rádios brasileiras, segundo Nogueira, por causa da “invasão da música estrangeira”. Com o diplomata Antonio Carlos Austregésilo de Athayde, ele criou o estatuto do clube. Não só “um” clube, mas “o” clube. O Clube do Samba!

O objetivo era criar um ponto de encontro entre os sambistas, para que eles pudessem, não só se divertir e cantar juntos, mas também estabelecer um polo articulado de resistência pela preservação do samba. Com sócios os mais diversos, o Clube unia todas as gerações e propiciava um espaço de diálogo e interlocução enriquecedor. Mas, claro, ali não só se falava, mas também se cantava muito samba. E a cantoria ficava por conta de gente que estava longe de ser ruim da cabeça ou doente do pé. Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Cartola, Martinho da Vila, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Alcione, Chico Buarque e Paulo César Pinheiro são só alguns nomes do sócios do modesto Clube.

Um ano depois de sua fundação, em 1980, o Clube do Samba ganhou as ruas do Rio de Janeiro na forma de um bloco carnavalesco, consolidado até hoje como um dos mais importantes do circuito da cidade. Era o samba se curando, ganhando novamente as ruas, convivendo feliz e antropofagicamente com a disco, o rock e a MPB. Tinha madame que não gostava, mas e daí? Acabar com o samba era impossível, e assim ele renasceu.

Em maio de 2019, o Clube do Samba completou 40 anos. Se vivo, João Nogueira estaria fazendo 78 anos em 12 de novembro. E mesmo depois de tanto tempo, já sem a presença física de seu fundador, o Clube do Samba continua existindo, resistindo e fazendo ecoar os tambores e os grilhões do Brasil. Antes de se despedir, em 2000, João entregou seu anel de bamba a Diogo, sambista e filho mais novo, que está honrando a tarefa de manter o Clube na ativa. 

E que ele assim viva por muitos anos, unindo a memória com o agora e enriquecendo nossa música. A gente já sabe que o samba pode até agonizar de novo, mas morrer, não morre, não! No fundo dos quintais e dos terreiros, algum tambor há de tocar, e alguma voz há de soar em coro, cada vez mais forte. Porque afinal, o melhor é viver cantando as coisas do coração. E que a gente viva no Clube do Samba. E viva o Clube do Samba! 

Texto por: Tito Guedes

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