A música de

Alaíde Costa: As rosas e os espinhos do tempo
Por Ricardo Santhiago

sábado, 12 de dezembro de 2020

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“Será que eu estou sonhando?”, perguntou Alaíde Costa, doce e brejeira, após a torrente de aplausos que sucedeu o primeiro número do show que dividia com João Carlos Assis Brasil, em 2007. Era janeiro daquele ano e os dois apresentavam o magistral "Voz & Piano" – disco recém-lançado, produzido por José Milton – à plateia que então lotava o teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O espanto brincalhão de Alaíde tinha razão de ser: fazia pouco tempo que sua presença vinha se revitalizando no cenário da música popular brasileira, graças à sua descoberta por uma nova geração de ouvintes e à atenção renovada de produtores e críticos curiosos, comprometidos em devolver-lhe o lugar que sempre mereceu entre os maiores artistas de seu país.

Nascida no Méier e criada no bairro periférico de Água Santa, na zona norte do Rio de Janeiro, Alaíde Costa teve uma infância assinalada por pobreza e restrição – das quais poucas vezes, no entanto, se queixou. Seu pai, Herminio, trabalhava como forneiro; sua mãe, a rigorosa e superprotetora Manuela, era dona de casa. As principais companhias da garota eram o rádio e seu amado irmão Adilson, jogador de futebol profissional que chegou a ser centroavante no América Futebol Clube.

Foi de Adilson, falecido precocemente, o primeiro impulso para que a menina mostrasse sua voz doce e aveludada em público. Ele inscreveu a irmã – contra a vontade dela – em um concurso de calouros num circo do bairro, ao qual ela só compareceu em função da advertência engenhada pelo mais velho: “Se você não for, a polícia vem te prender”. Por ingenuidade, Alaíde compareceu à disputa e, a despeito da escolha inusitada para sua idade – ela cantou “Minha terra”, uma canção bucólica e elaborada do compositor paraense Waldemar Henrique, gravada por Vicente Celestino –, venceu. Como gosta de contar, ganhou o prêmio no circo e, em casa, uma bela surra da mãe, por ter saído sem avisar.  

Foto: Divulgação

Das muitas outras peneiras – organizadas por uma vizinhança que, sem opções de distração e lazer na periferia, montava concursos semanais –, Alaíde foi catapultada aos programas de calouro infantis no rádio. Antes, conquistou a admiração dos vizinhos e das vizinhas – à exceção das filhas de dona Durvalina, que morava a poucas quadras de distância. Muito moça, uma delas, que também ambicionava carreira artística, se considerava uma espécie de rival. Mais tarde, ela seria nacionalmente conhecida como Elza Soares

Depois de palmilhar programas infantis como o Arraia Miúda e muitos outros na Rádio Nacional, Alaíde finalmente chegou àquele que era uma espécie de portal para o início de uma carreira: o de Ary Barroso. A participação foi adiada em função de sua escolha, mais uma vez, incomum: queria cantar o sofisticado "Noturno (em tempo de samba)", de Silvio Caldas, e para isso devia memorizar a melodia e escrever um pedaço da letra a cada execução na rádio. Ao chegar para o ensaio, mais uma surpresa: a orquestra pediu-lhe uma semana adicional, justificando que a partitura era mais complexa do que o que estavam habituados a tocar. Enfim no palco, foi vítima das troças comuns de Ary Barroso – mas, ao final, ganhou nota máxima e um ardoroso incentivador.

Sua história a partir de então é bem conhecida, tendo sido reprisada em matérias de jornais e na bibliografia sobre a música do período: fez um teste para crooner no Dancing Avenida, sendo aprovada; de lá, foi levada por um técnico da Odeon para a gravação de seu primeiro compacto. Profissionalizando-se como cantora na noite e no disco, encantou a turma da bossa nova com sua voz suave e dicção natural e foi atraída para o movimento, para contribuir com sua popularização. Alguns detalhes menos nobres desta história, porém, seguem virtualmente obscurecidos – como o fato de que depois das reuniões da bossa nova passava madrugadas sozinha no ponto de ônibus, esperando o primeiro carro da linha para voltar da Zona Sul para Água Santa, sem a solidariedade dos jovens bem instalados na região – dada a persistente evasão de Alaíde à autocomiseração pública. Na realidade, tendo sido pioneira ao denunciar as manifestações do racismo na música brasileira, a artista sempre o fez dentro de uma interpretação estrutural, sem expor seus atores e suas agruras.

João Gilberto e Alaíde Costa no início dos anos 1960 (Foto: Reprodução)

Sensação da primeira fase da bossa nova no Rio de Janeiro e preterida por algumas de suas figuras centrais após a consagração do movimento, Alaíde mudou-se para São Paulo e tornou-se – ao lado de Claudette Soares – uma das maiores divulgadoras do gênero na cidade. Em 1964, no show "O fino da bossa", no Teatro Paramount, amealhou o merecido sucesso, sendo ovacionada após a interpretação de "Onde está você", de Luvercy Fiorini e Oscar Castro Neves, que em sua estreia teve de ser repetida três vezes. Porém, a gravidez do segundo filho e a opção por se dedicar à família, bem como um grave problema de audição – fatal para uma cantora de sua estirpe –, tornaram esporádica sua circulação no ambiente artístico em toda a segunda metade dos anos 1960. 


O triunfo de seu dueto com Milton Nascimento em “Me deixa em paz”, de Monsueto Menezes e Airton Amorim – a única voz feminina a integrar o icônico LP "Clube da Esquina", de 1972 – marcou seu retorno à grande cena. Tratava-se, porém, de uma cena já muito modificada, na qual a firmeza pessoal e a integridade artística da artista colidiam frontalmente com uma cumplicidade cada vez maior das gravadoras, empresários e produtores com os modismos do mercado. Irreparável desde sempre no tocante à sua coerência estética, a carreira de Alaíde seguiu sendo claudicante por muito tempo do ponto de vista do reconhecimento público e das oportunidades profissionais. 

Integridade artística e vitalidade profissional

Nas cinco primeiras décadas de sua carreira, Alaíde Costa gravou e lançou apenas 13 álbuns – volume revelador, porque desproporcional à sua capacidade artística e de trabalho. Em 2005, porém, exatamente 50 anos após receber seu primeiro cachê como cantora profissional, alguma coisa se transformou – e o CD "Tudo o que o tempo me deixou", do qual falaremos logo mais, marca essa mudança importante nos rumos de sua carreira. Entre 2005 e 2020, seu ritmo de trabalho se intensificou, replicado em acréscimos periódicos e bem vindos à sua discografia.

Foto: Reprodução 

Vieram o já mencionado "Voz & Piano", com João Carlos Assis Brasil (2006); "Amor amigo – Alaíde Costa canta Milton" (2008); "Alaíde canta Johnny em Tom de Canção" (2011); e o disco coletivo "Elas cantam Paulinho da Viola" (2009), com Célia, Cida Moreira, Fabiana Cozza e Milena. Dessa boa safra, o fruto mais raro é "Alaíde Costa e Fátima Guedes – Ao vivo" (2011), retirado do mercado após poucas horas de circulação, por razões não esclarecidas. 

Nos últimos cinco anos, Alaíde Costa empreendeu parcerias distintas, com antigos e novos colegas. Com Toninho Horta, lançou em 2015 "Alegria é guardada em cofres, catedrais", interpretando majoritariamente o repertório mineiro do Clube da Esquina – exceção feita à última faixa, "Sem você", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, já gravada por ela no disco "Joia Moderna", em 1961. A inclusão justifica-se porque foi esta a canção que apresentou a Horta a voz e a interpretação da cantora que agora o ladeia.


O imaginativo "Porcelana", de 2016, foi repartido com Gonzaga Leal, cantor pernambucano que arquitetou e fez executar um disco no qual Alaíde aproximou-se de um repertório mais contemporâneo, de autores como Consuelo de Paula, José Miguel Wisnik e Socorro Lira. O disco seguinte, "60 Anos de Bossa Nova", fez o movimento contrário e lançou Alaíde e Claudette Soares – sua amiga há tanto tempo quanto o título do disco faz supor – para uma seleção diversificada e bem cosida de temas representativos da diversidade do movimento. Entre um e outro apareceu o DVD A dama da canção, de 2018, registro com pendor retrospectivo que presenteia o ouvinte com a inesperada “Preciso chamar sua atenção”, de Roberto e Erasmo Carlos, que muito tempo antes Alaíde incluía, também a título insólito, em seus shows.

Foto: Reprodução  

O último lançamento marcadamente autoral da artista, entretanto, antecede a tríade de parcerias. É o belo e necessário "Canções de Alaíde", resultado do sonho por tanto tempo acalentado de reunir em um disco suas próprias composições (só precedido por uma gravação pirata de um show no Centro Popular de Cultura da UMES, dos anos 1990, que circulava entre fãs e colecionadores). Testemunho de uma vida, reúne parcerias com Tom Jobim, Johnny Alf, Geraldo Vandré e outros parceiros, além de quatro composições solo nas quais chega ao cume seu romantismo e seu sofrimento transbordantes: “Minha alma é tanta / Tanto desencanto / Que ficou em mim”, escreve e canta em “Choro”. 

Em plena atividade e forma vocal, Alaíde está a ponto de distribuir três ases. Um disco produzido pelo mineiro Geraldo Rocha, com capa de Elifas Andreato e gemas como “Se eu quiser falar com Deus”, de Gilberto Gil, aguarda prensagem e distribuição. Com o incentivo e a produção de Emicida, Alaíde prepara um álbum com obras inéditas da  lavra da mais fina flor da música brasileira. O disco que finalizou mais recentemente é "O anel", planejado pelo compositor José Miguel Wisnik, de quem Alaíde foi a primeira intérprete, defendendo a canção “Outra viagem” no Festival Universitário de Música Popular Brasileira da TV Tupi, em 1968. “Saudade da saudade” (composta por Wisnik e Paulo Neves) é o primeiro single do disco, que mereceu cinco estrelas em avaliação recente do crítico Mauro Ferreira, para quem a canção anuncia um álbum “cravejado de diamantes verdadeiros”. 

Maturidade, maturação

Será preciso escutar "O anel" tanto quanto é preciso escutar, um a um, os discos de Alaíde Costa – por puro deleite e para acompanhar sua singular (e incessante) elevação como intérprete. Da voz acolchoada pela concepção orquestral e grandiloquente do long-play de estreia "Gosto de você", de 1959, chega-se a uma solista camerística, exuberante na interpretação e exata na técnica, como testemunham seus trabalhos discográficos mais recentes e suas formidáveis performances ao vivo. Nestas, interpretações acappella do canto nagô "Amin Malê" e da "Bachiana nº 5" de Heitor Villa-Lobos não deixam incólumes nem as paredes.

Nesse percurso, é preciso escutar – e prestar especial atenção a – "Tudo o que o tempo me deixou", disco de maturidade, ponto de inflexão no projeto estético de Alaíde. O álbum foi produzido por Antonio Carlos Vidigal, com direção musical impecável do pianista, arranjador e compositor Gilson Peranzzetta. Foi lançado em 2005 pelo extinto selo Lua Discos, depois Lua Music, criado e dirigido entre 1998 e 2013 pelo compositor Thomas Roth – selo que prestou enorme serviço para a divulgação e a valorização da música independente dos anos 2000, particularmente em São Paulo. 

Além de representar um dos pontos altos na discografia de Alaíde – é certamente um de seus trabalhos mais bem produzidos e com maior coerência conceitual –, é também uma clivagem, uma espécie de divisor de águas na carreira acidentada, cheia de obstáculos previstos e imprevistos, dessa intérprete extraordinária. "Tudo o que o tempo me deixou" é o auge protelado; é o momento algo tardio de reconhecimento de uma joia sempre moderna. Ele é, poderíamos dizer, um disco de reparação, que volta a conferir a Alaíde Costa um reconhecimento à altura do seu significado. Foi, sintomaticamente e também surpreendentemente, o trabalho que lhe conferiu seu primeiro prêmio de música de relevância e abrangência nacional, o Rival Petrobras de Música de 2005.

Disco de verdadeira maturidade, é também o produto de maturação. Reúne um conjunto de canções que recopilam a experiência de uma artista tenaz que colocou sua voz e emoção a serviço do amor, em seus vários engajamentos. Aqui, ele aparece inclusive apaziguado na “Estranha saudade” de Cristóvão Bastos e Hermínio Bello de Carvalho e na “Conversa com o coração” de Guinga e Paulo César Pinheiro; ou nobilitado em sua capacidade esfaceladora em “Coração sem saída” de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, onde se ouve que “Em questão de amar nem tudo é flor / e é bom chorar do mal de amor”. 


Voz de mulher” (Sueli Costa e Abel Silva), “Minha Nossa Senhora” (Fátima Guedes), “Ana Luiza” (Tom Jobim) e “Solidão” (Dolores Duran) reiteram a parte e a parcela de Alaíde no panteão das grandes cantoras dramáticas da música popular, na companhia de Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Angela Maria e Marisa Gata Mansa, entre outras poucas, como sua contemporânea Áurea Martins – cada uma com seu repertório, performance, qualidade vocal. Mas é "Tudo o que o tempo me deixou" que, também, reabre o baú das composições de Alaíde, que havia gravado a si mesma, pela última vez, em 1982. Além de duas parcerias preciosas com Tom Jobim e Johnny Alf, ouve-se “Saída”, com letra e música próprias, talvez uma das canções mais reveladoras de seu repertório. Inspirada, como a maioria das outras, em suas próprias vivências, a canção tem como motivo o verso: “Eu sou essa mulher tão triste que canta pra desabafar / saindo assim de mansinho até o amor se acabar”. Felizmente, trata-se de um verso – a título de confissão – cujo sentido não se estende para a música. Em vez de fazê-la sair de mansinho, "Tudo o que o tempo me deixou" reposicionou Alaíde Costa no centro de uma cena artística da qual, pelo seu talento e sua dignidade artística descomunais, jamais deverá voltar a sair.

Texto escrito por Ricardo Santhiago, do portal A MÚSICA DE, especialmente para o IMMuB. 


Ricardo Santhiago é historiador e comunicólogo. É professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde coordena o Centro de Memória Urbana (CMUrb) e o Amabile - Arquivo da Memória Artística Brasileira. É autor e organizador de diversas obras, dentre as quais se destacam os livros Solistas dissonantes: História (oral) de cantoras negras (2009) e Alaíde Costa: Faria tudo de novo (2015). 

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