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Alceu Valença completa 75 anos sem ouvir rock, mas fazendo uma sonzeira há quase 50

quarta, 07 de julho de 2021

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Em janeiro de 1975, o som de Alceu Valença confundiu tanto o júri do Festival Abertura, realizado pela TV Globo, que músicos e produtores criaram uma categoria de última hora chamada Incentivo à Pesquisa. Alceu tem raízes nos repentes, blocos de frevo, grupos de maracatu e ciranda. Ele nunca foi de ouvir rock e até hoje, do alto dos 75 anos, completos no último 1º de julho, ele se gaba de não ter nenhum disco do gênero. No entanto, sua música desde o início misturou estilos. E o barulho do rock sempre esteve lá. Não à toa, em 1985, ele foi um dos artistas brasileiros convidados a tocar na primeira edição do Rock in Rio. Ali no Abertura, o artista pernambucano deixou Marcos Valle, Maurício Kubrusly, Sérgio Cabral e tantos outros jurados e espectadores boquiabertos com a sonzeira que fez ao apresentar a música “Vou danado pra Catende”.

Alceu montou uma banda com Lula Côrtes no tricórdio, Paulo Rafael no baixo, Ivson Wanderley na guitarra, Israel Semente e Agrício nas percussões, Zé da Flauta na flauta e, na viola, Zé Ramalho, que na época assinava Zé Ramalho da Paraíba. Israel tentou batizar a banda de Batalha Cerrada e, depois da experiência com Alceu, chegou a fazer um show em Recife, mas o nome não pegou. “Vou danado pra Catende” virou uma faixa na segunda tiragem do álbum “Molhado de suor”, e um show que Alceu apresentaria, acompanhado de uma variação dessa mesma banda, no Rio de Janeiro e em São Paulo, naquele mesmo ano e no seguinte.

Essa não foi a primeira incursão do pernambucano em um festival no “Sul Maravilha” – como chamavam o Sudeste na época. Entre outros, em 1972, Alceu participou com Geraldo Azevedo e Jackson do Pandeiro do VII Festival Internacional da Canção com a embolada “Papagaio do Futuro”. A música foi desclassificada, mas chamou a atenção de executivos da gravadora Copacabana, que convidaram a dupla para produzir "Quadrafônico", o primeiro álbum gravado na tecnologia quadrafônica, ou seja, em quatro canais, no Brasil. 

Geraldo conhecera Alceu em Recife, em um de seus shows: o pernambucano de Petrolina o viu sentado em uma mesa sozinho, observando seu grupo tocar. Tratava-se de Alceu Paiva Valença, um rapaz de São Bento do Una, município do agreste pernambucano localizado à beira do Rio Una. Alceu era formado em Direito, também tocava violão e gostava de imitar o jeitão de Jean-Paul Belmondo. O ator francês com o qual se achava parecido, “só que ele tinha o nariz mais feio”, como viria a confessar depois, despertou em Alceu o fascínio pelo cinema. Ele e Geraldo passaram a frequentar o Rio de Janeiro, já na busca por um espaço na cena artística.

Em 1973, encantado com a imagem de Alceu Valença, o cineasta e compositor Sérgio Ricardo convidou o músico para assumir o papel principal no filme “A noite do espantalho”, que ele iria rodar em Nova Jerusalém, Pernambuco, e lançar em 1974 junto a um LP. Além de fazer o espantalho, Alceu gravou voz com Geraldo, com a atriz Ana Lúcia de Castro e com Sérgio, que dirigiu o filme e assinou a autoria de todas as faixas da trilha sonora, lançada pela Continental. No mesmo ano, outra gravadora, a Som Livre, faria a Alceu uma proposta: gravar, no Rio de Janeiro, “Molhado de suor”, disco lançado em 1974. 

Os anos 1970 serviram para Alceu Valença plantar e impressionar com aquilo que estava tentando mostrar. O sucesso de massa veio nos anos 1980, depois do lançamento de “Coração Bobo”, seu primeiro grande estouro nacional. Nessa época, o som de Alceu já estava estabelecido: música pernambucana com guitarra. E, desde aquele 1975, o responsável pela porção rock’n’roll que seguiu permeando o trabalho do cantor e compositor foi Paulo Rafael, guitarrista que há mais de 40 anos iniciou sua trajetória na banda Phetus, tocou com a mitológica Ave Sangria e logo passou a integrar a banda de Alceu, com quem toca até hoje. 

Paulo Rafael (que já foi Paulo Raphael) está com ele em tudo há quase 50 anos, até na trilha sonora do filme “Luneta do Tempo” – no qual Alceu compõe um cangaço romântico todo falado através de rimas – e nas lives da pandemia. Recomeçaria o artigo para falar mais de Paulo Rafael, mas seu virtuosismo, ecletismo e talento para deixar a música do aniversariante mais talentosa são histórias para outro dia.

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