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Alfredo Machado: como ensinar a paixão pelo violão

segunda, 20 de setembro de 2021

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Não era incomum, ao passar pela Escola Villa Lobos, no centro do Rio de Janeiro, encontrar o professor Alfredo Machado, o Doca, que passou décadas sendo literalmente seguido por alunos, ex-alunos e todo tipo de interessado em violão pelos corredores da escola de música.

Durante alguns anos, fui uma dessas pessoas. Para mim e para tantas outras, Doca foi a pessoa que apresentou o violão, com o carinho que o instrumento exige. Talvez por não ter frequentado nenhuma instituição formal de ensino, ele desenvolveu um método próprio de dar aula. Era um professor que não deixava que nada ficasse entre o aluno e a música: nem nota, chamada ou outra burocracia qualquer. Passava o conteúdo no início da aula, fosse uma sequência de acordes, uma escala ou uma peça, explicava-o, conversava um pouco, saía para tomar um café e fumar um cigarro.

Nunca vi a recomendação em nenhum método de ensino, mas o fato é que, quando voltava, os 3 ou 4 alunos da sala estavam há alguns minutos tentando resolver o problema sozinhos ou em grupo. Do seu jeito particular, ele foi um grande professor de violão. Mas era, para ser mais exato, um violonista, no sentido maior do termo, passeando pelo jazz, pelo violão solo ou pelo pagode.

De quebra, era uma pessoa engraçadíssima. Quando via um aluno muito empolgado, que queria levar o violão como profissão, brincava, recomendando o cuidado para não estudar demais, pois ainda dava tempo de fazer um concurso público para seguir outro caminho em sua vida. Ou então, quando perguntavam sobre uma apresentação em algum lugar que ele tocara, já dizia logo: olha, se foi bom não sei, mas disseram que o guitarrista fez um solo inacreditável...

Ensinava, também, com seu jeito particular, muito sobre a ética e o ofício do músico: mais de uma vez, vi ele lembrando acidamente aos alunos que o músico não entra no show pela porta da frente, mas pela porta da cozinha.

Depois da triste notícia de seu falecimento, no último mês, as gerações de alunos
que passaram pelas suas aulas devem estar relembrando alguns dos primeiros standards que ele ensinava em suas aulas de iniciação ao instrumento: Night and Day, Blue Bossa, Gente Humilde, Sons de Carrilhões e o lindo Prelúdio nº3 de Villa-Lobos.

E assim, de aluno em aluno, iniciou musicalmente inumeráveis alunos, que, fossem
adolescentes ou idosos, eram tratados pelo mestre como iguais, menos como alunos ou discípulo que como músicos, ainda que iniciantes, que dividiam com ele a paixão inevitável pelo violão.

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