Colunista Convidado

Antonio Adolfo toca Milton Nascimento em 'BruMa'

sexta, 27 de novembro de 2020

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 Um encontro de luminares. O pianista, compositor, arranjador e produtor Antonio Adolfo singra composições de Milton Nascimento no CD “BruMa” (AAM). O título evoca as tragédias de Brumadinho e Mariana, regiões mineiras devastadas pelos catastróficos rompimentos de barragens da empresa Vale. Embora nascido no Rio, como Adolfo, Milton foi criado em Minas, em cujo ambiente cultural inspirou-se para construir sua obra monumental. “As composições de Milton quebraram padrões harmônicos e rítmicos com seu modalismo, de maneira espontânea e intuitiva. O que fiz foi adicionar a esse repertório meu vocabulário de jazz brasileiro”, sedimenta Adolfo, que assina piano e arranjos do disco.

O trajeto do pianista começa ainda como garoto prodígio da bossa nova, aos 17 anos, a bordo de seu trio 3D, em 1964, que se tornaria grupo, com a adesão das cordas de Helio Delmiro e vozes dos iniciantes Beth Carvalho e Eduardo Conde, três anos depois. Em 1969, Adolfo já liderava a eletrificada Brazuca, com guitarra de Luiz Claudio Ramos (posterior diretor musical de Chico Buarque), baixo de Luizão Maia e baterias de Vitor Manga e Paulinho Braga. Era a época da toada moderna/pilantragem e a dupla autoral do pianista com o letrista Tibério Gaspar emplacou de “Sá Marina” (na voz de Wilson Simonal) a “Teletema” e “Juliana”. Em 1970, já no modo “soul”, eles sacudiriam o Festival da Canção com “BR3”, no vozeirão de Toni Tornado. Corte para 1977: distribuído pelo próprio solista, seu vinil “Feito em casa”, no selo Artezanal, inaugurava o ciclo do disco independente, seguido por “Encontro musical”, “Vira lata” e “Continuidade”. Esquadrinhando as origens, Adolfo abordou o choro, gravando de Ernesto Nazareth a Chiquinha Gonzaga, esta remodelada em “Chiquinha com jazz”, que antecedeu “Carnaval piano blues” (uma releitura blueseira de clássicos da folia), e a liberdade total de “Piano improviso”.

A partir do ano 2000, o mestre de incontáveis discípulos do Centro Musical Antonio Adolfo passou a alternar-se entre o Brasil e EUA. Gravou discos com a filha cantora Carol Saboya (“Ao vivo”, “Lá e cá”) e promoveu fusões sonoras como “Chora baião”, “Finas misturas”, “Rio, choro, jazz”, “Hybrido”, “Tropical infinito”, “Copa Village” (com Carol e o gaitista alemão Hendrik Meurkens). Recentemente, revisitou a parceria com Tibério Gaspar, no songbook ”Vamos partir pro mundo”, com a cantora Leila Pinheiro.