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Arrigo Barnabé: 70 anos de Vanguarda
Por: Lucas Vieira

domingo, 05 de setembro de 2021

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Engenharia química, arquitetura e desenho são alguns dos caminhos que poderiam ter sido escolhidos belo jovem Arrigo Barnabé, que no final da década de 1960 estava no período de transição entre a escola e a faculdade. Mas, com muita técnica, estudo e referências, o artista que completa 70 anos em setembro optou por uma estrada única na música brasileira, resultando em uma obra que é cultuada pelos admiradores da MPB.

Nascido em Londrina e radicado em São Paulo, Arrigo Barnabé faz parte da geração de artistas batizados no início da década de 1980 como Vanguarda Paulista, um grupo que tinha como proposta apresentar novos caminhos para a produção de música popular brasileira. Unindo poesia, histórias em quadrinhos ao jazz e às linguagens eruditas, Arrigo criou uma obra que chama atenção por composições com harmonias e melodias fora dos padrões, assim como letras que trazem narrativas em seus versos. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os álbuns “Clara Crocodilo” e “Tubarões Voadores”.



Na música erudita, Arrigo explorou o atonalismo, a dodecafonia e o serialismo. Seus compositores favoritos incluem Béla Bartok, Arnold Schoenberg e Bach. Na música popular, algumas das obras que mais ouvia eram “Zabumbê-bum-á”, de Hermeto Pascoal, “Todos os Olhos”, de Tom Zé, “Araçá Azul”, de Caetano Veloso e “Ou Não”, de Walter Franco, discos que inspiraram o artista a trazer radicalidade a sua música.

Citando Charles Baudelaire em “Clara Crocodilo” e Wladmir Maiakóvski em “Êxtase”, Arrigo também misturou o simbolismo e o impressionismo da poesia com a linguagem dos quadrinhos que, entre seus favoritos, o artista cita Will Eisner (de “Spirit”), Robert Crumb (de “A Cidade do Futuro”), além de Luiz Gê, quadrinista com quem o cantor faria importante parceria. Essas leituras são traduzidas em suas letras, que são compostas de forma direta, com agressividade e de fácil assimilação, em grande parte de sua obra escritas como uma narrativa.

Foi em 1971 que Arrigo começou a formatar essas influências em música. Junto com Mário Lucio Cortes, criou os módulos que resultariam em “Clara Crocodilo”, canção que batiza seu álbum mais conhecido e cultuado. Na obra, utilizou um nome que contrastava a luz (“clara”) e as sombras (“crocodilo”), e narrou uma história urbana, sobre um office-boy que participava de um experimento e era transformado em um monstro.

Apesar de começar os estudos e composições no início da década de 1970, Arrigo só se tornaria conhecido do público em 1979, com sua participação no Festival Universitário da MPB. Embora o público se dividiu entre aplausos e vaias, o artista foi classificado em primeiro lugar com a música “Diversões Eletrônicas”, também parte do repertório de “Clara Crocodilo”, lançado em LP no ano seguinte.

Com o lançamento, feito de forma independente, chegou às lojas o primeiro disco da Vanguarda Paulista, que foi seguido pela entrada no mercado de Lps do Grupo Rumo, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque, entre outros.

Sucesso de crítica, o disco gravado com a banda Sabor de Veneno não foi sucesso de vendas, também por conta de sua distribuição, que acabou sendo mais restrita à São Paulo. Em 1984, após contrato assinado com a Ariola, “Clara Crocodilo” teve uma distribuição mais expressiva e possibilitou a produção de seu segundo disco, “Tubarões Voadores”.



Assim como o álbum de estreia, “Tubarões Voadores” trouxe musicalidade experimental voltada para o pop e uma nova história, baseada no quadrinho de Luiz Gê que acompanhava o disco e apresentava uma narrativa com elementos de terror e humor no ambiente urbano de São Paulo.

Paralelamente, Arrigo teve incursões pelo cinema, participando de diversos filmes a partir de 1981, quando participou de “O Olho Mágico do Amor”. Em 1986, estrelou o premiado “Cidade Oculta”, para o qual também fez a trilha sonora, que contou com a participação de Tetê Espíndola em um dos melhores exemplos do synth pop feito no Brasil: “Pô, Amar É Importante”, composição de Hermelino Neder.

Os discos seguintes de Arrigo Barnabé foram lançados com intervalos maiores e não seguiram os conceitos dos primeiros dois álbuns. Flertando com o pop e em busca de incluir canções mais radiofônicas em seu repertório, lançou “Suspeito” (1987) e “Façanhas” (1992). Em 1997 gravou outra trilha sonora, para o filme “Ed Mort”, baseado no personagem de Luís Fernando Veríssimo.

Gravado ao vivo em 1990, “Gigante Negão” foi lançado em 1998 e dialoga com os primeiros discos do cantor, com caráter conceitual. Segundo o artista, é o disco de sua carreira que gostaria que recebesse uma atenção maior do público: “é no mínimo uma preciosidade”, revela.

Outro registro de show foi lançado pelo cantor em 1999, “A Saga de Clara Crocodilo”. Revisitando o repertório de seu álbum de estreia, Arrigo deu nova roupagem e títulos às canções. Na capa, muros com cacos de vidro em seu topo formavam a boca de um réptil.



No começo dos anos 2000, Arrigo registra duas missas em discos. A primeira, homenageou a memória do artista plástico Arthur Bispo do Rosário em 2004. No ano de 2007, foi a vez de homenagear Itamar Assumpção, que havia falecido em 2003.

Desde então, Arrigo não lançou mais álbuns de estúdio. Sua atividade nos palcos, porém, foi incessante. Em 2011, debruçou-se na obra de Lupicínio Rodrigues no show “Caixa de Ódio”, que recebeu um segundo volume em 2014. Seus projetos seguintes incluíram o show “E Que Tudo Mais Vá Para O Inferno”, em que interpretou as composições de Roberto e Erasmo Carlos, e a criação de “O Neurótico e As Nervosas”, em que apresentou canções de Hermelino Néder ao lado de grupo formado apenas por mulheres, como a baterista Mariá Portugal e a baixista Ana Karina Sebastião, que integraram outras formações de sua banda de apoio.

Arrigo Barnabé chega aos 70 anos como um marco na música brasileira. Revolucionando suas estrutura a partir da década de 1970, sua obra influenciou artistas de diversas gerações, como Cyda Moreira (que regravou “Clara Crocodilo em 1986), Cássia Eller,(que incluiu “Dedo de Deus” em seu álbum de estreia, em 1990) e as bandas Porcas Borboletas, com quem se apresentou, e O Terno, que inseriu trechos dodecafônicos na música “66”.


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