A Palo Seco

As dinastias reais da música brasileira

quinta, 06 de maio de 2021

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Gilberto Gil apontou, certa vez, a existência de duas dinastias reais da música brasileira: o samba e o forró. Sem dúvida, há outras, mas foram essas que, por uma confluência entre o papel central do rádio na música brasileira e a centralidade do Rio de Janeiro enquanto polo agregador de criadores, se destacaram, no século XX.

A dinastia do forró possui um rei inequívoco: nela, Luiz Gonzaga reina soberano. Cada trio pé-de-serra, cada zabumba e cada triângulo são uma atualização do monumento que ele ergueu ao lado de outros nordestinos, especialmente os que migraram para o sudeste do Brasil nas ondas migratórias que ultrapassaram todo o século.

Os caminhos da linhagem do samba são mais complexos, em grande parte porque ela é diaspórica por natureza, nasce tardiamente como uma herança africana, enquanto o forró parece ter se desenvolvido na iminência da migração sertaneja mais linear. Talvez por isso, ela seja composta de mais personagens centrais ao seu desenvolvimento, de mais comunidades que se estruturam para lidar com a experiência africana no Brasil ?—? sejam terreiros, escolas de samba, ou, até mesmo, botecos.

Em certo sentido, coexistem em ambas uma tendência centrípeta, o seu caráter monárquico, se quisermos: a identidade que lhes dá um caráter linear. No caso do forró, o trio instrumental (o sanfoneiro-cantor, o zabumba e triângulo como acompanhamento), no caso do samba, novamente, um conjunto mais plural e variável (cavaquinho, tamborim, pandeiro, surdo, tantã, reco-reco...).

Ambos os gêneros, porém, são menos estritos que poderia sugerir a imagem monárquica de Gil, contendo em si, também, forças centrífugas, de escape. A mais sutil delas é a expansão instrumental?— as congas, ?o cavaquinho, o agogô, o violão 7 cordas, o pandeiro que constituíram o forró nas gravações do Gonzagão e que abriram a possibilidade para que uma interlocução maior fosse possível. Na experiência do samba, a sua grande abertura a inovações percussivas cumpre esse papel.

É claro que essa seleção é imensamente atrelada à trajetória de Gil como músico. O paraibano Jackson do Pandeiro, por exemplo, teve como marca distintiva a exploração da interlocução entre o forró e o samba através do coco. Foi a capacidade de remodelar essas tradições musicais de uma forma específica que o levou à sua marca indiscernível. Para ele, ainda, as duas linhagens nada mais eram que a ramificação de uma só, já que “música brasileira é a que deriva do coco”, uma arte-mãe.

Se a questão for abordada do ponto de vista da música instrumental, não faltarão chorões para demonstrar enfaticamente que a linhagem maior da música brasileira, em harmonia e melodia, é o choro, através da onipresença dos conjuntos regionais nas gravações de toda a música brasileira durante o século XX.

A tentativa de retraçar essas linhagens, enfim, é muito rico, e ganha muito mais elementos com o papel da internet na potencialização da criatividade musical. De repente, o mundo restrito das rádios que promoveu o samba e o forró se expandiu radicalmente: acessa-se facilmente a rica linhagem da música paraense, suas guitarradas e seus carimbós, por exemplo. Ou, ainda, começam a nascer outras linhagens, como a do funk carioca, gestada na década de 90. Assim, felizmente, cada vez mais linhas vão se somando e construindo essa rede imensa que constitui a música brasileira.

Heitor Zaghetto

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