Colunista Convidado

Ayrton Montarroyos: um jovem cantor vintage

quarta, 14 de julho de 2021

Compartilhar:

O cantor recifense Ayrton Montarroyos era pouco conhecido até mesmo em sua terra natal, até aparecer, em 2015, na vitrine musical que garante uma massiva exposição a um artista: o programa The Voice Brasil, da TV Globo. Apegando-se ao grande cancioneiro da música brasileira, mas não se esquivando de autores contemporâneos, foi à final e ficou em segundo lugar. A visibilidade que recebeu com esta participação lhe impulsionou a carreira, mesmo assim continua sendo biscoito fino que não chega às massas, até porque essa massa teve o gosto embotado para a sofisticação.

Com 25 anos, dois discos físicos, "Ayrton Montarroyos" (2017), e "Um Mergulho no Nada" (2019), o cantor, que toca a carreira em São Paulo desde o álbum de estreia, resistiu à pandemia igual a todo mundo, com lives. Mas ao contrário da enxurrada de lives realizadas em 2020, grande parte feita com o que a falta de recursos permitia, Ayrton, com patrocínio do SESC São Paulo, realizou uma série de cinco lives, temáticas, requintadas, intimistas, ele mais um músico, o conterrâneo Vitor Araújo, Alexandre Viana, ambos pianistas, Edmilson Capelupi e João Camarero, os dois violonistas.

As lives, produzidas por Thiago Marques Luis, foram lançadas ao longo de 2020, em discos digitais pela gravadora Kuarup. Pela Biscoito Fino, com o mesmo produtor, ele realizou, no canal da gravadora, uma série de cinco programas, o Terça ao Vivo com Ayrton Montarroyos, que também viram discos digitais. O primeiro deles já circula nas plataformas de stream. O "Sorriso Negro: O Samba de Dona Ivone Lara", no qual é acompanhado pelo violonista Cainã Cavalcante.

São nove composições do repertório da cantora e compositora carioca (1922/2018), interpretados com requinte e elegância de recital, por uma das melhores vozes surgidas na MPB nestas primeiras décadas do século. Não apenas a voz, mas o perfeccionismo, que é marca de Ayrton que, desde garoto, vive debruçado sobre o riquíssimo passado da MPB, a que raros intérpretes no país recorrem. Sua carreira fonográfica começou, com participações em tributos a Luiz Gonzaga e Herivelto Martins, em 2012, ano do centenário desses artistas.

Dona Ivone Lara gravou o primeiro álbum em 1978, estava com 53 anos. Tornou-se nacionalmente conhecida em 1979, quando o samba Sonho Meu (com Délcio Carvalho) foi gravada por Gal Costa e Maria Bethânia (naquele mesmo ano recebeu várias regravações), foi seu maior sucesso, com "O Enredo do Meu Samba". Boa parte da música de Dona Ivone é conhecida de poucos, tornando-se assim oportuna a decisão de gravar composições menos populares da sua obra.

Ayrton interpreta Dona Ivone de maneira intimista, econômica, sem vibrato. Sambas sem arrebatamento, nem mesmo em "O Enredo do meu Samba". Interpretação que se encaixa primorosamente com a exuberância ao violão de Cainã Cavalcante, discípulo do genial Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, 1915/1955), em cuja obra mergulhou no disco "Sinal dos Tempos – Cainã Toca Garoto", lançado no final de junho de 2021. Os próximos discos de Ayrton pela Biscoito Fino abordarão composições de Caetano Veloso, Lupicínio Rodrigues, Tom e Vinicius, completando com um álbum de chorinhos.

O repertório de "Sorriso Negro: O Samba de Dona Ivone Lara":

"Sorriso Negro", de Jorge Portela, Adilson Barbado, Jair Carvalho, do álbum Sorriso Negro (1981)
"Minha verdade", parceria com Délcio Carvalho, do álbum Samba Minha Verdade Samba Minha Raiz (1978)
"Tendência", parceria com Jorge Aragão, do citado álbum Sorriso Negro
"Me Deixa Ficar", com Délcio Carvalho, também de Sorriso Negro
"Minha verdade" com Délcio Carvalho, de Samba Minha Verdade, Minha Raiz
"Força da Imaginação", com Caetano Veloso, lançada por Beth Carvalho, no álbum RCA 100 anos música (2001)
"Enredo do Meu Samba", com Jorge Aragão, de 1984, gravado por Fundo de Quintal e Sandra de Sá naquele ano
"Nasci para Cantar e Sonhar", com Délcio Carvalho, do álbum Alegria Minha Gente (Serra dos meus Sonhos Dourados), de 1982
"Nova Era" com Délcio Carvalho, lançado por ele no disco Profissão: Compositor (2006)

Fotos: Divulgação



Comentários

Divulgue seu lançamento