Colunista Convidado

Bethi Albano costura a linha do tempo no CD 'Embrulha pra presente'

quinta, 20 de agosto de 2020

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Enfim, Bethi Albano em primeiro plano. Ela estréia solo, aos 66 anos, no disco “Embrulha pra presente”, pela Porangareté Discos, do cantor Chico Chico, filho de Cássia Eller, a viúva da cantora, Maria Eugênia Martins e o produtor Rodrigo Garcia. Até aqui, foi longo e frutífero o trajeto de Bethi. Nascida numa família de pianistas, dedicada ao violão a partir dos 12 anos e professora do instrumento aos 16, com formação clássica e popular, ela lecionou na Universidade Estácio de Sá, Centro Educacional Anísio Teixeira, ONG Revivarte, grupo Moitará e, atualmente, é titular da pós Graduação da Escola de Dança Angel Viana. Licenciada em educação Artística pela UNI-RIO, com pós graduação em Arte Terapia na Universidade Cândido Mendes, BA ainda integrou grupos como Rio Maracatu, Nave Maria, Batucantá, Divino Emaranhado e As Três Marias, além do Filhas da Mãe, com suas descendentes diretas, Clarice Albano e Rita Albano. Em 2002, gravou o CD Todo céu pra voar com Luhli, a compositora de “O vira”, mega sucesso dos Secos & Molhados.

Foto: Rita Albano/Divulgação 

Registrado nos estúdios Mirada e Cria Som, com produção musical, arranjos, engenharia de gravação e edição de Eduardo Andrade e Raphael Stolnicki (engenharia, mixagem e masterização), a participação de 27 músicos e financiamento coletivo da Benfeitoria, “Embrulha pra presente” desembarca com propósitos definidos da autora. “Meu álbum escolheu esse momento de recolhimento, de reconstrução humana. Meu desejo é criar pontes com as pessoas que ouvirem esse trabalho, possibilitando uma reflexão acerca de nossa presença aqui e agora. É um momento único de transição, de alinhamento. Espero que minha música toque vocês”, endereça, no texto de apresentação. “Todos os meus ciclos reunidos aqui nessas nove canções. Uma linha do tempo vai costurando cada nota, instrumento, arranjo e tudo isso faz parte do meu bordado de vida’, indica no encarte. A faixa título, parceria com Suely Mesquita, um acendrado rock percutido nos couros, lanceta: “Ainda vamos rir juntos disso/ ainda vamos rir muito/ ainda vamos mudar de assunto”. Também com Suely é a retirante “Rabo de foguete”, cerzida por acordeon (Kiko Horta), viola caipira (Bruno Reis) e cello (Filipe Massumi): “Todos os caminhos mostram/ onde o sol se esconde/ o trilho não acaba mais/ e faz meia volta lá no fim do mundo”.

O híbrido gênero da faixa foi alcunhado “roça’n’roll” por outra parceira de Bethi, Mathilda Kóvak. Com sua pena afiada, de cáustica Dorothy Parker nativa, ela divide com a solista a autoria da dissonante “Nave Maria”, que distribui farpas dialéticas após uma abertura em bocca chiusa:Eu admiro a mulher muçulmana/ sempre à margem da espécie humana/ tanto quanto a americana/ submissa como a mulher que vai à missa/ tão oprimida quanto a mulher ocidental/ não faz diferença/ se é véu/ se é fio dental/ se é moda/ se é crença/ é tudo igual”.  Também da dupla Albano/Kóvak é a blueseira “Enfim sou”, insuflada por trombone (Jonas Hocherman): “Eu aceito a mulher que sou/ como legítima esposa/ num casamento do pensamento/ com o sentimento”. O turbilhão poético melódico do disco gira em compassos diversificados, como na bossa bélica “Bala de rima” (“Não paro um minuto/ ando tomada, obcecada/ quero que as palavras/ quebrem tudo como armas”) pavimentada por teclado Rhodes e piano (Gabriel Geszti), e o baião furtivo “Jogo”, mascado por rabeca  (“a vida não é jogo/ não se perde, não se ganha/ não começa, não termina/ a morte corta a linha”), ambas parcerias com Suely Mesquita.

Outra incursão da viola caipira adorna “Taioba de enfeite” (“coração de esperança/segundo escorre pela folha/ que orvalhou no instante”) só da solista, num atestado de que o roteiro não singra apenas asperezas. Como na auto explicativa “Suavidade” (com Márcia Zanelatto) pontilhada por acordeon: “Universo/ e arte/ música infinita/ tocada no instrumento/ da carne”.