Música

Bossa Nova: A Interpretação, a Harmonia e as Influências
Capítulo 3 da série especial BOSSA NOVA

terça, 11 de setembro de 2018

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A INTERPRETAÇÃO

É bastante óbvia a atitude da interpretação na Bossa Nova. Vamos usar como exemplo, João Gilberto por que ele foi, e ainda é, um dos maiores intérpretes da Bossa Nova, e o mais característico. A voz de João Gilberto é pequena, suave, sem nenhum “vibrato”, precisa, afinadíssima.

Mas não é só isso.

A emissão das vogais é perfeita e sua dicção impecável.

Mas não é só isso.

O balanço de seu fraseamento dá uma sensação de quem está em pleno voo, baixando e subindo contra as nuvens do ritmo e da cadência. Uma vez, gravando “Rosa Morena” de Caymmi, fizemos 28 gravações, por que não estava satisfeito com a emissão do “o” em Rosa. Estuda minuciosamente cada música antes de gravá-la.

Emissão, fraseamento e independência entre o canto e o violão. A interpretação da Bossa Nova passou a ser uma arte toda especial.

A HARMONIA

Essa parte caracterizou a Bossa Nova de maneira definitiva, com um grande passo à frente. E vamos dar crédito a Tom Jobim por essa transformação radical nos processos harmônicos de nossa música.

“Desafinado” e “Samba de Uma Nota Só” são 2 exemplos bem marcantes, que mostram a importância capital da harmonia.

Alguns críticos (?) “culparam” a Bossa Nova por usar harmonias americanas. A esses que propuseram com isso dar uma “nacionalidade” à harmonia, um lembrete: a harmonia nunca teve pátria. Ela pertence à música em geral. Não existe “harmonia americana”, ou brasileira, ou francesa, ou coisa que o valha. O que existe de característico na música de cada país, é a sua origem, o seu estilo, o seu ritmo e sua expressão. E daqui, podemos partir para...

AS INFLUÊNCIAS

Pois é. Esses mesmos críticos acusam impunemente, e como se fosse um crime, a Bossa Nova de ter sido influenciada pelo “jazz” americano. Esses mesmos provavelmente andam por ai bebendo o seu “scotch”, a sua coca-cola e, com certeza, usam calças “Lee”. A Bossa Nova não só foi influenciada pelo “jazz”, mas pela própria música popular dos Estados Unidos. E essa influência continua, cada vez mais acentuada, nos dias de hoje e na música de hoje. Mas a influência que a Bossa Nova sofreu, foi a da fase áurea da música americana, e não a influência do “rock”, que na época era uma sub-música. Os meus caros críticos esquecem que a MPB vem sofrendo toda a série de influências desde a sua “infância”.

A Influência Portuguesa, que seria inevitável, e a Influência Americana (graças a Deus) se fizeram sentir nos primeiros acordes dedilhados no Brasil. Mais tarde, vieram outros tipos de influência como a do Tango e a do Bolero.

Se a Bossa Nova sofreu influência da música americana, esta foi evoluída graças à influência europeia. O jazz nos Estados Unidos foi a fonte de inspiração de George Gershwin, quando este, depois de estudar na França ao lado de Ravel e outros compositores, voltou aos Estados Unidos, e junto com a orquestra de Paul Whiteman, iniciou a grande fase áurea da música americana.

Se a Bossa Nova sofreu influência nessa fase, indiretamente foi influenciada pela evolução harmônica dos grandes compositores franceses.

A MPB para ser pura, como querem os caros críticos puristas, teria de ser tocada até hoje com flautas de bambu, por músicos que usassem penas na cabeça, de antes da Primeira Missa.

ALOYSIO DE OLIVEIRA


Nota: "Este depoimento sobre 'Bossa-Nova' não tem nenhuma intensão de ser nformativo didático sobre o assunto. Ele é somente um panorama visto com os meus olhos, contendo fatos vividos por mim e observações exclusivamente minhas. Se fosse feito por outra pessoa que também viveu o assunto, esta poderia citar outros fatos e descrever outros momentos também importantes. Portanto, se alguma coisa aqui deixar de ser mencionada é porque não recorri a informações de outras fontes, e sim, baseei-me somente nas experiências em que tomei parte, nesta fase da música brasileira que foi uma das mais importantes de sua história." Aloysio de Oliveira

Fonte do texto: extraído do CD box "Bossa Nova, sua história, sua gente" nas palavras de Aloysio de Oliveira.



Este é o terceiro de 7 artigos, contados pelo olhar de Aloysio de Oliveira, sobre a história e os artistas que contribuíram na construção e divulgação de um movimento importante da música popular brasileira no final dos anos 50: a Bossa Nova. No próximo capítulo, o tema abordado será o princípio da evolução que caracterizou esse gênero musical. Enquanto isso, não deixe de conferir e saber mais sobre o tópico citado acima!

Clique nos links abaixo e se surpreenda com esta série especial:

Capítulo 1 - Bossa Nova: Antes, uma conversa necessária 

Capítulo 2 - Bossa Nova: O Ritmo, a Melodia, a Letra 

Capítulo 3 - Bossa Nova: A Interpretação, a Harmonia e as Influências (lendo agora)

Capítulo 4 - Bossa Nova: O Princípio da Evolução ou Fase Pré-Bossa Nova (em breve)

Capítulo 5 - Bossa Nova: Chegava eu no Rio depois de 18 anos de ausência (em breve)

Capítulo 6 - Bossa Nova: Os Compositores, os Intérpretes, os Trios e os Conjuntos (em breve)

Capítulo 7 - Bossa Nova: A Exportação (em breve)



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