A música popular na república

“Bota o retrato do velho outra vez”
Getúlio volta nos braços do povo

segunda, 26 de fevereiro de 2018

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Eurico Gaspar Dutra, outrora General de Getúlio Vargas, deu o golpe junto com Góis Monteiro para destituir o velho gaúcho do poder. A República da traição – lembrando que o atual Presidente Michel Temer também organizou um golpe parlamentar contra a ex-presidente Dilma Rousseff –, acabou nas mãos do próprio Dutra. 

O Presidente não pegou moleza à frente do país. Tentou “salvar a lavoura” criando o Plano Salte. Ele consistia em investimentos voltados para os setores de saúde, alimentação, transporte e energia. O Plano Salte só fez sucesso mesmo na Praça Onze, no Rio de Janeiro, onde a escola de samba Estação Primeira de Mangueira conquistou em 1950 o certame com o samba-enredo “Plano Salte”, de Nelson Sargento e Alfredo Português:

O povo deste Brasil querido
Se acha enriquecido
Com o Plano Salte,
Lembrando o doutor Oswaldo Cruz, 
Que da ciência foi a luz,
Um valoroso baluarte.

Uma das medidas de Dutra em seu governo atingiu em cheio o meio musical: a proibição dos jogos de azar no Brasil. Nei Lopes e Zé Luiz do Império, décadas depois do ato presidencial, compuseram “Malandros maneiros”:

No governo de marechal Dutra 
Não teve truta nem meu pé dói
E na guerra que houve aos cassinos 
Parou Constatino e fechou Niterói.

Talvez a pedido de sua esposa, Carmela Dutra (conhecida como dona Santinha), que era muito religiosa, ou mesmo por influência de forças políticas contrárias a toda sorte de jogos de azar, o general Eurico Dutra, “em nome da moral e dos bons costumes”, da noite para o dia tirou o emprego de aproximadamente 40 mil pessoas. É difícil imaginar o novo presidente em uma noitada nos cassinos de Copacabana, Urca e Quitandinha, ou mesmo fazendo uma fezinha no jogo do bicho. Dutra era um pacato cidadão de poucos amigos, dormia cedo e acordava antes de o galo cantar. Seus hábitos eram diferentes dos de seu antecessor, Getúlio Vargas, que mantinha relações de admiração e amizade com grande leque de artistas e boêmios. E certamente não tomaria uma medida tão impopular às vésperas do Dia do Trabalho. O compositor Cartola, no tempo da roleta, fez “Cassino da Urca”:

Rico panorama
Tem o Rio de Janeiro.
...
A linda avenida Central, Corcovado e Pão de Açúcar
É o Cassino da Urca.

Conhecido como “Catedrático do Silêncio”, o presidente Dutra tentava se manter discreto diante da nação. Também, pudera: era ele abrir a boca, e aparecia o problema de dicção que o fazia chiar nos “esses” e nos “ces”, trocados pelo som do “xis”. O compositor Marino Pinto fez graça com o presidente ao lançar a marchinha “Voxê quê xabê”:

Voxê quê xabê
Voxê quê xabê
Não pixija xabê.
Pra que voxê quê xabê?

Se Dutra tinha dificuldade para pronunciar as palavras em português, também não primava pelo carinho com a língua de Shakespeare. Num encontro com o presidente Harry Truman, no aeroporto, na hora que o político americano desembarcou no Brasil, os dois se cumprimentaram. Truman perguntou: “How do you do, Dutra?” E Dutra retrucou: “How tru you tru, Truman?”

O fracasso do governo Dutra incentivou Getúlio Vargas a disputar a Presidência da República nas eleições de 1950. Os compositores Braguinha e José Maria de Abreu pediam para Seu Gegê voltar logo porque o povo não aguentava mais o preço dos produtos:

Ai, Gegê!
Que saudades que nós temos de você! 
O feijão subiu de preço,
O café subiu também. 

Na eleição de 1950, o ritmo que embalou a campanha foi a marchinha “Retrato do velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto:

“Bota o retrato do velho outra vez 
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar.
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar.”

Getúlio voltava ao poder nos braços do povo, como prometera. A vitória era fruto de uma composição politica heterogênea, e o seu governo não foi diferente. Até a UDN fez parte dele. Estávamos caminhando para o último Getúlio da história. 


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