Música

Chico Buarque e as canções engajadas

segunda, 10 de junho de 2019

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Chico Buarque de Hollanda é certamente um dos nomes de maior peso da música popular brasileira. Desde os anos 1960, vem desempenhando um papel fundamental na cultura brasileira, não só como cantor e compositor, mas como pensador. Isso porque Chico não é apenas alguém que escreve canções – ele pensa sobre a realidade que o cerca e evidencia os conflitos, as mazelas e as benesses (quando há) dessa realidade em suas letras. O resultado é que grande parte de sua obra é formada por músicas preocupadas com o aspecto social, carregadas de mensagens políticas, mas sem nunca perder o lirismo e o cuidado com a palavra que viraram suas marcas registradas. Muitas dessas canções tinham como alvo a ditadura militar instaurada no país em 1964, e por isso boa parte foi censurada à época de seu lançamento, dando a Chico o título de persona non grata do regime militar.
 
O mérito da consagração dessas canções engajadas é que nelas Chico consegue ser politizado sem ser panfletário. Fala de uma realidade dura, muitas vezes cruel, sem perder a poesia, o humor e o apreço pelo uso das palavras. Caso, por exemplo, da música que muitos consideram sua obra-prima: Construção, presente no disco homônimo de 1971. Alternando rimas em proparoxítonas, Chico conta a história de um operário que morre no local de trabalho. Antes dela, já havia contado os dramas de Pedro Pedreiro, que esperava um trem que parecia nunca chegar, e tinha feito todo mundo cantar Apesar de você, uma crítica à ditadura forjada de “DR” entre um casal. E nesse caso os militares demoraram a perceber, pois a música só foi proibida depois que o compacto já tinha vendido mais de 100 mil cópias.


 
O início de sua produção musical, no entanto, foi marcada por músicas de um lirismo ora romântico, ora nostálgico. Dessa fase, destacam-se músicas como A Banda, Olê, Olá e Noite dos mascarados. A virada definitiva na sua maneira de compor se deu a partir de 1968, momento que coincide com o aumento das forças repressivas do regime militar. No álbum Chico Buarque de Hollanda Nº4, lançado no início de 1970, o compositor diz com todas as letras que as músicas de tom ingênuo tinham ficado para trás. Tratam-se dos versos presentes na canção Agora falando sério: “Eu queria não cantar/ A cantiga bonita/ Que se acredita/ Que o mal espanta/ Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá/ Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro/ Pra não ver a banda passar”.
 
E Chico cumpriu sua promessa, pois sua produção da década de 1970 é fortemente marcada pela contestação política – e consequentemente, pela censura.

No final de 1972, Chico escreveu em conjunto com Ruy Guerra a peça Calabar – O elogio da traição. A trama focalizava a tragédia de Domingo Fernandes Calabar, que traiu a coroa portuguesa ao colaborar com a invasão dos holandeses no Brasil. A intenção era traçar um paralelo com a figura de Carlos Lamarca, capitão do exército que ingressou na luta armada contra a ditadura militar. A peça, claro, foi censurada, e o governo proibiu até que os jornais publicassem a palavra “Calabar” em suas páginas. No ano seguinte, Chico Buarque resolveu lançar o álbum que se intitularia Chico Canta Calabar, com as canções que faziam parte do espetáculo. Mas a censura não deixou o título passar, e o álbum teve de ser intitulado como ChicoCanta, um nome intencionalmente sem muito sentido. A prova de que Chico sempre soube transgredir de forma inteligente e perspicaz é que nesse álbum está presente a música Cala a boca, Bárbara, que embora não traga a palavra “Calabar” explicitamente em seus versos, a mostra de forma subentendida na frase “CALA a boca, BÁRbara”, repetida diversas vezes ao longo da música. Essa sutileza a ditadura não percebeu.
 
Exemplo parecido é o da música Cálice, composta em pareceria com Gilberto Gil, que brinca com o termo “cale-se”, numa referência à censura. Quando os dois compositores resolveram cantar a canção no evento Phono 73, que reuniu em diversos shows o estrelar elenco da gravadora Philips, os microfones foram cortados e Chico e Gil não puderam cantar os versos: “como é difícil acordar calado/ Se na calada da noite eu me dano/ Quero lançar um grito desumano/ Que é uma maneira de ser escutado/ Esse silêncio todo me atordoa”.
 
No ano seguinte, em 1974, com o cerco da censura cada vez mais fechado sobre o nome de Chico Buarque de Hollanda, já um notório "subversivo", o artista resolveu lançar um disco só com músicas de outros compositores. O álbum recebeu o sugestivo título de Sinal Fechado, música homônima de Paulinho da Viola que retrata o angustiado diálogo de dois conhecidos que se esbarram no trânsito e não conseguem – ou não podem – expressar o que têm a dizer um para o outro. O álbum conta também com Festa Imodesta, de Caetano Veloso, uma celebração ao compositor popular que dribla as forças que tentam silenciá-lo: "Tudo aquilo que o malandro pronuncia/ E que o otário silencia/ Toda festa que se dá ou não se dá/ Passa pela fresta da cesta/ E resta a vida". Nesse disco surgiu também um compositor até então desconhecido pelo público: Julinho da Adelaide. Ele apareceu como autor da música Acorda, amor, que retrata um pesadelo recorrente na época: ser acordado pela polícia. Mas quem era, afinal, esse ilustre desconhecido, que já estreou com um samba tão ousado na voz de Chico Buarque?
 
Pois Julinho da Adelaide era ninguém menos que o próprio Chico Buarque, que criou o heterônimo para não chamar a atenção da censura. A tática se provou eficaz, pois a música, apesar de seu forte conteúdo contestador, foi liberada. Na época, o tal Julinho chegou a receber seus quinze minutos de fama numa entrevista concedida ao jornal Última Hora, na qual defendia a censura e demonstrava certo ciúme de Chico Buarque. Chegou a compor outras duas músicas para Chico Buarque: Jorge Maravilha e Milagre brasileiro. 
 
Hoje, prestes a completar setenta e cinco anos de vida, somando mais de cinquenta de carreira, Chico Buarque permanece um compositor de seu próprio tempo. Prova disso é seu último álbum de estúdio, Caravanas, lançado em 2017. A música que dá nome ao disco, As Caravanas, é um contundente retrato do racismo ainda presente na sociedade brasileira. Na letra, Chico expõe uma situação recorrente nas praias da Zona Sul carioca: o preconceito em relação aos moradores vindos dos morros e das regiões suburbanas da cidade: “Com negros torsos nus deixam/ Em polvorosa/ A gente ordeira e virtuosa que apela/ Pra polícia despachar de volta/ O populacho pra favela/ Ou pra Benguela, ou pra Guiné”.
 
Com ou sem ditadura, com ou sem censura oficial, Chico Buarque de Hollanda ainda é um cidadão brasileiro atento e preocupado com as questões de seu país e de seu tempo. Dotado de um talento raro, sabe expor como ninguém todas essas hipocrisias e idiossincrasias em letras poéticas e instigantes. Canta, afinal, as dores e as delícias do que é o Brasil, país que certamente ficou mais inteligente depois que Chico Buarque apareceu.  
 
 

Texto por: Tito Guedes
Fontes: 
HOMEM, Wagner. Histórias de canções: Chico Buarque. São Paulo: Editora Leya, 2009.
SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. São Paulo: Editora 34, 2008.  


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