Colunista Convidado

Cinquenta anos atrás, os Mutantes não tinham medo nem preconceito

segunda, 08 de julho de 2019

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A celebração dos 50 anos do segundo álbum dos Mutantes vem a calhar nesse momento em que estamos vivendo tempos tão sombrios e cheios de incertezas. Se em 2019 vemos músicos se resguardarem por medo de retaliação do seu próprio público devido a seu posicionamento político, artístico ou alguma outra ousadia qualquer, em 1969, ao lançar "Mutantes", Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias não se preocuparam nem com a possibilidade de irem parar na cadeia, como havia acontecido no ano anterior com seus companheiros de Tropicália Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em plena ditadura militar, os Mutantes – nesse álbum já assinando sem o artigo definido que carregavam no nome até o primeiro álbum, “Os Mutantes”, lançado em 1968 – abriram o novo disco com “Dom Quixote”, faixa que teve trechos censurados ao passar pelo Serviço de Censura de Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal, sem acatar a ordem completa. 

A composição de Arnaldo e Rita sofreu cortes uma semana antes do quarto Festival da Música Popular Brasileira da Record, realizado em 1968. No palco, eles não cantaram cinco versos considerados como crítica ao exército brasileiro. Na hora de gravar, no estúdio, retiraram apenas “pro Quixote vencer” da letra original. Para fazer troça com grupos vocais em alta na época e interagir com o humor da banda, o não menos irreverente maestro Rogério Duprat sugeriu a inclusão, em seu arranjo de orquestra, da queixada de burro, do berimbau e de outras percussões típicas da MPB. A canção ganhou ainda uma citação à ópera “Aída”, de Giuseppi Verdi, uma imitação de Chacrinha e um violino citando “Disparada”, composição de Théo de Barros e Geraldo Vandré. Chacrinha já havia sido celebrado pelos Mutantes no palco do Teatro Record, na apresentação de “Dom Quixote”, para a qual Serginho vestiu uma roupa do apresentador de TV, com buzina e tudo, emprestada pelo próprio. 

Essa é uma das histórias que estão em “Discobiografia Mutante: Álbuns que revolucionaram a música brasileira”, livro que lancei ano passado para celebrar os 50 anos da memória discográfica da banda. Se eu já gostava de Mutantes pela sensação física e emocional causada por suas canções, mergulhar nessa pesquisa me fez admirar mais ainda o grupo, que virou quarteto na época do segundo disco com a adesão do baterista Dinho Leme e, logo mais, iria se estabelecer como um quinteto com a chegada do baixista Arnolpho Lima Filho, o Liminha. Do enfrentamento político à ousadia de se fantasiar ou de tocar instrumentos recriados especialmente para eles, os Mutantes nunca se resguardaram de nada.

Os figurinos, por exemplo, eram composições à parte. Um dos mais polêmicos, usado na semifinal do terceiro Festival Internacional da Canção, em 1968, foi parar justo na capa desse segundo álbum da banda através de uma foto do francês Richard Sasso. A entrada de Rita com o vestido de noiva usado por Leila Diniz na novela “O Sheik de Agadir” fez até sua mãe se assustar ao assistir de casa. De arlequim, Arnaldo aparece tocando um baixo construído pelo irmão mais velho, Cláudio César Dias Baptista. Irmão mais novo, Sérgio foi fotografado de toureiro com sua Guitarra de Ouro Regvlvs Raphael número I, obra de arte também produzida pelo luthier. O chamado “quarto mutante” não aparece na foto, mas além de ter seu crédito no disco (“instrumentos eletrônicos”), três de suas criações estão na capa. Além do baixo e da guitarra, o Theremin de Rita também é de autoria de Cláudio César.


Sob produção de Manoel Barenbein e cheio de referência ao rock, “Mutantes” foi gravado em menos de duas semanas em São Paulo, nos quatro canais do estúdio Scatena. Eles registraram ainda “Banho de Lua” com Sérgio usando sua guitarra para citar o refrão de “Satisfaction”, dos Rolling Stones, e “Rita Lee”, um rock totalmente inspirado por “Ob-la-di Ob-la-da”, dos Beatles. Composição do trio com Johnny Dandurand, “Dia 36” foi gravada com a guitarra distorcida pelo pedal wooh-wooh construído por Cláudio César, que se inspirou no wah-wah de Jimi Hendrix. Em “Qualquer Bobagem”, composição de Tom Zé e Mutantes, Arnaldo copiou o jeito de cantar de Roger Daltrey em “My Generation”, sucesso do The Who. Outra parceria do tropicalista baiano com Rita, “2001” teve Gilberto Gil ao acordeon e Liminha tocando viola caipira no festival da Record, mas no estúdio ganhou viola, sanfona e voz da dupla Zé do Rancho & Mariazinha, futuros avós maternos de Sandy e Júnior.

Além de “Não Vá se Perder por Aí”, “Mágica” e “Fuga nº II”, o álbum traz “Algo Mais”, essa última uma manobra arriscada. Composta como um jingle publicitário para a campanha de uma multinacional petrolífera que teria os músicos como garotos-propaganda em anúncios de TV, a música fez com que a gravadora, com medo da crítica, pedisse ao jornalista Nelson Motta um texto reforçando o despojamento do grupo para a contracapa do disco. Com idades entre 19 e 21 nesta época, os Mutantes não ligavam para os preconceitos. Nem para o medo. Não à toa, o final de “Caminhante Noturno” ganhou um dos primeiros samplers da história da música brasileira com conteúdo provocativo bem no momento em que Caetano e Gil estavam na prisão: trata-se do som das vaias recebidas por Caetano no FIC e do coro da plateia gritando “Bicha! Bicha!” logo após o discurso feito pelo baiano ao ser impedido de cantar “É Proibido Proibir” até o final.