Prosa & Samba

Do Choro ao Pagode: Um Brinde ao povo e a sua arte popular

quarta, 08 de junho de 2022

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Diretamente do balanço ligeiro das ondas, tua essência trouxe junto dele, um swing peculiar que dava tom a musicalidade estrangeira, transformando em frescor tudo que vinha dos mares. Sua origem ainda é desconhecida, sua manjedoura fora o berço rítmico nacional do período da década de 1800, assim oriundo dessa junção nasceu de fonte fidedigna, um ritmo puro e bem brasileiro que ficou conhecido como: Choro.

Um dos primeiros choros de nosso conhecimento fora assinado por Joaquim Antonio da Silva Callado Júnior (1848-1880), ele que foi um excelente flautista, na década de 1870, organizou um grupo de músicos que ficou conhecido como “Choro do Callado”. Desde então, esta vertente fincou raízes e germinou frutos: Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, João Pernambuco, Zequinha de Abreu, Luiz Americano, entre outros.

Aos pés deste nobre Pau-Brasil, nasceu um dos frutos mais raros: Pixinguinha, que com sua vasta bagagem, criou o grupo “Os Oito Batutas” e inseriu os toques afro-brasileiros a esta musicalidade distinta. O ritmo ganhava um upgrade.

Com a chegada da Casa Edison ao Brasil em 1902, a indústria fonográfica começa a mudar o cenário musical de nosso país e este reflexo se evidencia a partir de 1927 e graças ao advento do Centenário da Independência em 1922, o “Choro” vai debutar nas ondas radiofônicas, seus músicos começam a compor as bandas dos rádios e acompanhar cantores em apresentações.

Esta evolução, por vez, tira o protagonismo do Choro, o deixando em segundo plano e assim o samba começa a ganhar destaque se tornando preferência nacional. 

Mesmo com a sombra do ostracismo beirando o ritmo, na década de 1930 e 1940, muitos artistas se sobressaem devido ao seus talentos: Zezinho (1904 - 1987), Gaó (Odmar Amaral Gurgel, 1909 - 1992), Copinha (1910 - 1984), Garoto (1915-1955), Dilermando Reis (1916 - 1977), Antônio Rago (1916 - 2008) e Laurindo de Almeida (1917 - 1995), todos da cena paulista, e ainda Benedito Lacerda (1903 - 1958), Luperce Miranda (1904 -1977), Radamés Gnattali (1906 - 1988), Abel Ferreira (1915 - 1980), Raul de Barros (1915 - 2009), Jacob do Bandolim (1918 - 1969), Waldir Azevedo (1923 - 1980), Altamiro Carrilho (1924 - 2012), José Menezes (1924 - 2013), Canhoto da Paraíba (Francisco Soares, 1928 - 2008), entre outros. 

Mas apenas na década de 1970, o Choro tem a sua retomada em opulência: Rádio, Revista e Televisão, começam a pulsar musicalmente e o tendo como ritmo expoente, logo o resultado viria à tona:

  • Em 1975, Fundou-se o Clube do Choro no Rio de Janeiro
  • O “Projeto Concerto de Choro”, pela Secretaria Municipal da Educação e Cultura carioca,
  • I Encontro Nacional do Choro, no ginásio do Anhembi, cidade de S. Paulo, junho de 1977
  • Transmissão do Festival de Choro na Televisão: O Carinhoso e o Brasileirinho


Já nas décadas seguintes, cria-se em São Paulo, a Rua do Choro, um local sem distinções, sem CEP  e que se torna um berço paulistano onde profissionais e amadores se misturam e interagem e que sobreviveu até 1989, logo após nasceram os cursos da EMESP – Escola de Música do Estado de São Paulo no mesmo ano e em 1993 nasceu o Grupo de Choro do Conservatório de Tatuí.

Nos anos 2000, aconteceu a criação da carioca Escola Portátil de Música. Criando-se um hiato atemporal e silenciando as cordas macias de um bom bandolim. E o tema retorna a tona, através da batalha árdua de musicistas apaixonados, como o pessoal do Clube do Choro de Santos e de outras localidades. 

Um dos grandes nomes na luta pela permanência da memória afetiva desse ritmo, é o Profº José de Almeida Amaral Júnior e sua esposa a também Profª Tania Alvarez, a dupla escreveu o livro que é considerado o Dicionário do Choro Paulista, “Chorando na Garoa, Memórias musicais de São Paulo” , material este que mapeia os rumos da musicalidade em nosso estado e traz a tona nomes ocultos de nossa sociedade.

O Choro perde totalmente a pompa da elite brasileira e cai nos braços das camadas mais pobres da sociedade, se tornando um produto de consumo de ferozes musicistas e apaixonados pela cadência rítmica peculiar. De forma relativa, com menos pompa, porém com o mesmo seio de brasilidade, nasce oriunda dos festejos dos escravos, o Pagode. Ritmo tipicamente Brasileiro e quem em tradução livre quer dizer: Festa regada a comida, bebida e dança.

Nascendo de um berço humilde, caminho este inverso ao Choro, diretamente do Bairro de Ramos para o mundo, o Pagode surgiu para atender um apelo midiático, um ritmo capaz de gerar divulgação em emissoras de rádio e TV e pudesse encantar as gravadoras contra os enlatados enviados dos EUA. 

A princípio ele se tornou funcional, quando a cantora Beth Carvalho descobriu através do ex-jogador do Vasco da Gama, Alcyr, a rapaziada do Bloco Cacique de Ramos, tamarineira formadora do Grupo Fundo de Quintal. Neste bloco de sambistas, eis que um jovem chamado Almir Guineto se destaca e chama atenção, pela sua capacidade técnica em construir letras bem elaboradas e pela habilidade com as cordas de seu banjo. 

Anos depois, esta tamarineira germina outros diversos jovens que começaram a compor trabalhos e que foram gravados em muitos álbuns da cantora.

Neste período, o Pagode se divide em duas vertentes, este primeiro que podemos chamar de Pagode Raiz e o outro no qual, um grupo de jovens oriundos da periferia criam grupos performáticos e que remetem a estruturas parecidas com as bandas vocais americanas, como The Manhattans, DeBarge, Earth, Wind and Fire entre outras… Cortes de cabelo, coreografias, roupas, uma criação vasta de estilos peculiares que criam esta divisão que vai além do ritmo. O Pagode ganha tempero, molho, mesa e sobremesa. Alguns grupos substituem parte dos instrumentos de percussão ou incrementam com a inclusão da bateria e trazem consigo a chegada do teclado e seus bits eletrônicos.

O Pagode Raiz que fora cultuado por nomes como: Almir Guineto, Arlindo Cruz, Bezerra da Silva, Dicró, Jorge Aragão, Sombrinha, Zeca Pagodinho e tantos outros.  Abre espaço comercial para os denominados grupos que agora são conhecidos como Pagode 90, uma vertente "quente" do pagode raiz e que atrai multidões. As rodas de pagodes tradicionais dão espaço a shows lotados e o público jovem se identifica com os elementos deste novo ritmo, grupos como: Art Popular, Exaltasamba, Katinguelê, Negritude Jr., Molejo, Pique Novo, Raça, Sensação e tantos outros.

Rapidamente, as canções dominam as ondas das rádios e alcançam números avassaladores nas camadas mais pobres da sociedade, criando um universo novo para o povo, um movimento que respira a plenos pulmões até o final dos anos 90.

Porém, o avanço tecnológico e a mudança de perfil consumidor desta sociedade faz com que diversos trabalhos venham a encalhar, o preço do progresso é alto e muitos sucumbem nesta estrada. Mesmo assim, a denominação do pagode se fortalece na década posterior, graças a abertura de Arlindo Cruz e Sombrinha, Almir Guineto, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Reinaldo, Zeca Pagodinho e demais sambistas que trazem estes novos pagodeiros para o mesmo ambiente, transformando o canto solto em vozes unidas. 

O Fortalecimento ajuda a segmentar dentro das classes C,D,E e faz com que o pagode se torne ainda mais doce, permanecendo adocicado no gosto popular. 

Ambos os ritmos Choro e Pagode têm em comum, esta particularidade de apesar serem voltados para camadas mais altas da sociedade, logo, o povo o absorve e o adota como ritmo de seus tempos. Apesar de nascerem de caminhos inversos, o Choro das rodas das grandes sociedades e o pagode das camadas baixas da população, ambos se consagraram como ritmo popular e multiplicador deste signo de brasilidade. 

Os caminhos levaram o Choro no final da década de 70/80 a  perder espaço para a turma da Bossa Nova, MPB, Samba e o futuro Pop Rock Nacional.

E hoje, o Pagode 90 briga para resistir e observa da janela o crescimento do Funk, Hip Hop (Rap Nacional), Sertanejo e o Pop, mesmo com este carinho do público para o segmento, as estruturas dentro das emissoras modificou e hoje o pagode não é mais exclusividade. Porém, esta singela análise vem para mostrar o cordão umbilical que de forma invisível conecta e contempla dois ritmos criados em décadas distintas, mas com uma única missão: Resgatar com primazia o sorriso de seu povo, o sorriso no rosto!

Isto é arte popular!

E assim seguem como as vozes da resistência até os dias atuais.

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